Jornalismo

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O jornal “O Globo” começa a crítica do novo cd de Gilberto Gil, “Gilbertos Samba”, dizendo que “a simples ideia de Gilberto Gil gravar o repertório que consagrou João Gilberto já merecia cotação ótimo“. E deu para o disco a cotação bom.

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Mesmo entre aspas, é bastante estranho o jornal “Folha de S.Paulo” falar em era de ouro de raptos de avião. Será que nos tivemos também a era de ouro da tortura, a era de ouro  das prisões de políticos, a era de ouro dos desaparecimentos, a era de ouro da censura?

 












Brazil

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Nada de mulatas sambando, nada de Pelé ou Neymar. Nada de fio dental nas praias de Ipanema, nada de bananeiras, coqueiros e papagaios. A revista inglesa “Inteligent Life” uma sofisticada ublicação  da “Economist” estampou um corinthiano “sui generis” na capa da edição de abril.

[foto: Reprodução]


Aumenta o som!

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Para aqueles que quando se fala em Maria Alcina, só se lembram dela sacudinho o Maracanãzinho com a música “Fio Maravilha”, é chegada a hora de conhecer essa cantora extraordinária, mineira de Cataguases, de corpo inteiro. O cd “De normal bastam os outros” é show do início ao fim. Com algumas canções feitas especialmente  para ela, o disco deixa a impressão de que é uma espécie de auto-retrato. Vai de “Eu sou Alcina”, de Zeca Baleiro (“Eu sou Alcina/Uma sapeca, uma moleca, uma menina/Quem vem de lá/Eu canto samba para quem quiser sambar”) a “De Normal”, de Arnaldo Antunes (“De normal bastam os outros/Vale a pena ver de novo/Todo mundo vai ao circo/Gente fina é outra coisa/Passe bem, muito obrigada/Deixa isso pra depois”). Com participações de Anastásia em “Concurso de Bichos” e Ney Matogrosso em “Bigorrilho”, o show parece não ter hora pra terminar. Só Maria Alcina cantando “Segura esse samba”, de Oswaldo Nunes, vale o cd.

Quem quiser um final de semana mais light, a dica é “Gilbertos Samba”. Não é de hoje que ouvimos que Gil e Caetano mudaram suas vidas quando ouviram pela primeira vez, lá numa rádio do interior da Bahia, João Gilberto cantando “Chega de saudade”. Agora chegou a hora de Gilberto Gil prestar uma homenagem ao mito, cantando sambas que João sempre cantou: “Aos pés da Santa Cruz”, “Desafinado”, “Doralice”, ‘Eu sambo mesmo” e “O Pato”, é claro.  Um disco para os fãs dos Gilbertos, João e Gil.

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Um, dois e já

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Imagine você dentro de um carro, pai e mãe na frente, quatro filhos no banco de trás, e uma estrada pela frente. Essa é a viagem de Inés Bortagaray, uma das mais promissoras escritoras uruguaias, que acaba de desembarcar no Brasil com um livrinho que pode ser considerado um livrão. Inés vai narrando a viagem num ritmo frenético, buscando na memória a sua vida e a do país, também vítima de uma ditadura nos anos 1970. A viagem não tem parada pra cafezinho. Você pega o livro e acelera, não para mais. Uma boa dica pro final de semana que começa amanhã cedo.

Um, dois e já – Inés Bortagaray – Cosac Naif – 96 páginas – 26 reais


Os Bichos

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Domingo passado o dia amanheceu muito nublado, o céu cinza e quando coloquei a mão pra fora na janela senti que caia uma garoa fina e quase invisível. Desisti de ir à feira porque é muito chato feira com chuva e ainda de pijama pensei com meus botões, vou ler os jornais. Abri a porta e lá estavam eles, os dois que assino em cima do capacho.

Peguei um, peguei o outro, fechei a porta e quando fechei a porta a revista da Folha que estava dentro de um saco plástico caiu no chão. Caminhei pra mesa, gosto de ler jornal na mesa, levando os dois jornais numa mão e a revista da Folha dentro do saco plástico na outra. Sentei e como já estava com a revista na mão, rasguei o plástico e resolvi que seria ela a primeira a ser lida.

A manchete estampada na capa – Bolsa-cachorro – chamou a minha atenção, bem como as chamadinhas secundárias: Classe A gasta mensalmente 417 reais por cachorro. Creches de mil reais têm até seis meses de espera. Cidade terá primeiro clube canino do Brasil.

Condomínios barram empresas que querem pets no trabalho. Antes mesmo de abrir a revista fiquei pensando: Meu Deus, como o mundo mudou. Quando eu era pequeno, na minha casa tinha muitos bichos. Tinha um cachorro vira-lata chamado Tupi, tinha coelho, porquinhos da índia, quatro gaiolas de passarinhos com canarinhos belgas e periquitos australianos, uma tartaruga, seis galinhas e um galo. Não tinha gato, quem tinha gato era o vizinho do lado, mas o gato dele vivia na nossa casa filando a boia de Tupi, quando ele dava bobeira e cochilava.

Essa bicharada toda ficava no quintal da minha casa e éramos, eu e meu irmão, quem cuidava de tudo. O pombal era o nosso xodó. Num caderno de capa dura nós anotávamos cada acasalamento, cada nascimento, cada morte.

As pombas comiam milho, as galinhas e o galo também. Os coelhos comiam capim que íamos buscar quase todo dia na BR-3 que era puro mato. Comiam também cascas de cenoura que minha mãe jogava para eles lá de cima da escada.

Os porquinhos da índia também comiam o mesmo capim dos coelhos e eles, se você observasse bem, não paravam de mastigar. A tartaruga vivia de brisa, acho. Não me lembro da gente dando comida pra ela, mas ela também parecia estar sempre mastigando alguma coisa, sei lá, acho que uns caules de plantas que tinha no quintal. Pros periquitos era alpiste e pros canarinhos, além de alpiste, um meio jiló por semana. Eles adoravam a semente do jiló e viviam beliscando até a última semente.

O cachorro vira-lata comia o que sobrava do almoço e o que sobrava do jantar. Todo domingo ele se fartava mas, de vez em quando, dava um susto na gente engasgando com o osso do frango. Banho nele era nós que dávamos no tanque que ficava no fundo do quintal. O bicho tremia que nem vara verde, coitado, com aquela água tão fria. A tartaruga, os coelhos e os porquinhos da índia não tomavam banho.

Os passarinhos, quando estava muito calor, entravam na banheirinha e chacoalhavam respingando água pra todo canto. Eles adoravam tomar banho quando fazia sol. Vacina, eu me lembro de Tupi ter tomado uma vez só. Foi quando a carrocinha passou e levou ele preso. Para resgatá-lo tivemos que dar vacina, lá na prefeitura mesmo.

Minha mãe deixava a gente ter essa bicharada toda mas nos obrigava a limpar tudo direitinho. Sábado lavávamos o pombal, limpávamos o cercado onde ficavam os coelhos, o galinheiro, lavávamos as gaiolas dos porquinhos-da-índia e na gaiola dos passarinhos, colocávamos areia que roubávamos das obras no bairro do Carmo. Tinha muita obra por lá, a gente não passava um mês sem ter um caminhão de areia despejado na calçada. A tartaruga, coitada, vivia lá solta andando pra lá e pra cá, sem a menor pressa. Vivia na dela.

Esses bichos nos deixavam muito felizes. Um dia a coelha sumiu e nós ficamos muito preocupados. Chegamos a colar um cartaz nos postes oferecendo uma recompensa para quem a encontrasse. E não é que num dia, bem cedo, quando fomos jogar capim pra eles lá estava ela, acompanhada de nove coelhinhos? Ela tinha feito um buraco perto do muro para parir os bichinhos e a gente nem percebeu. Bem, agora deixa eu ler a revista da Folha pra saber o que eles estão dizendo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br


Nos Tempos da Ditadura – 15

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No auge da ditadura, em 1968, a gravadora Copacabana colocou nas lojas um disco inacreditável: “As minhas preferidas – Arthur da Costa e Silva – na voz de Agnaldo Rayol. Sim, o ditador gostava de música e o mais chocante é que uma das preferidas do presidente de plantão era, nada mais nada menos, que “Carolina”, uma canção de Chico Buarque, um dos compositores mais visados pelo regime. alguns anos depois. Além de “Carolina”, Costa e Silva gostava também de “Ave Maria no Morro” de Herivelto Martins, “Minha Terra” de Waldemar Henrique, “Feitio de Oração” de Noel e Vadico, “Prenda Minha” do folclore gaúcho, “Chão de Estrelas” de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, “Canta Brasil” de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser, “Perfil de São Paulo” de Francisco de Assis Bezerra, “Lamento” de Pixinguinha e Vinícius de Moraes, “Noite cheia de estrelas” de Cândido das Neves, “O que eu gosto de você” de Silvio César e “Na Baixa do Sapateiro” de Ary Barroso.



Coração de Estudante

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O estudante Edson Luís de Lima Souto nasceu em Belém do Pará em 1950 e, menino ainda, mudou-se para o Rio de Janeiro para continuar seus estudos. Foi morar na casa da tia e como não tinha muito dinheiro no bolso, almoçava religiosamente no restaurante estudantil, o Calabouço. Numa sexta-feira, 28 de março de 1968, os estudantes organizavam uma passeata em protesto contra o aumento da refeição, quando a polícia chegou. Edson Luís estava na fila esperando a hora do almoço. As forças de repressão começaram a agir e, na confusão, ele levou um tiro mortal no tórax. Edson Luís tornou-se a primeira vítima dos confrontos com a polícia do regime militar,  que cresceram durante todo o ano de 1968, culminando com a decretação do AI-5, em dezembro. Veja as imagens do enterro do estudante, filmado por Eduardo Escorel. Emocionante.