LONGE DAS CAPITAIS

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O dia amanheceu lindo em Lisboa. Caminhamos até a estação ferroviária e, por quatro euros e pouco, pegamos o primeiro trem com destino a felicidade. Quarenta minutos depois, estávamos em Cascais, que não conhecia, não sei porque. Desde menino, ouvia meu pai falar de Cascais, dessa terra portuguesa, com certeza. Que cidade mais linda encontramos, transbordando verão de céu azul e mar límpido. A pracinha, o coreto, a organização. Dessas cidadezinhas que a gente se apaixona à primeira vista. O mar, a Boca do Inferno com suas rochas ali recebendo o mar que quando bate – não é mesmo, Caymmi? – é bonito, é bonito. Suas ciclovias impecáveis, seus casarões, suas flores para todos os lados. E a praia! Ver o mar de Portugal é sempre um colírio para os olhos. Vontade de viver aqui o resto da vida, logo eu tão apaixonado pelas metrópoles, já tão acostumado com o cheiro insuportável da fumaça, com os engarrafamentos, desrespeito no trânsito, filas de espera para tudo, essas coisas. Cascais caiu no nosso gosto, virou daquelas cidades que vamos lembrar para sempre, como a pequena Rennes, na França, como a gigantesca Tóquio, no Japão. Você já foi a Cascais? Não? Então vá!

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[fotos ALBERTO VILLAS]

 


CAMINHANDO

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Viajar é caminhar, caminhar, caminhar. O que vimos hoje em Lisboa?

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Alguém torcendo pelo nosso país

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Um picolé chamado Perna de Pau

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A rua cor de rosa

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Livros numa estação de metrô

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Uma portuguesinha aflita esperando o Oceanário abrir

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Peixes maravilhosos no maior oceanário da Europa.

[fotos ALBERTO VILLAS]


NOVE MIL QUILÔMETROS

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Nos anos 70, que passei fora do meu país, sentia-me angustiado de estar a 10 mil quilômetros de distância dele. Sofria. O Brasil vivia uma ditadura cruel e sentia-me um pouco culpado de não estar no olho do furacão. De longe, lutava como podia, com uma pequena máquina de escrever Hermes Baby, adapatada com o nosso teclado, entrevistando exilados, cobrindo manifestações em favor da democracia, reuniões feministas, essas coisas, pros jornais alternativos que resistiam bravamente. Agora, mais precisamente hoje, a 9 mil quilômetros de distância, confesso, não sei se por egoismo, talvez seja, me sinto aliviado de estar tão distante desse tal de Lava-Jato. Que coisa mais chata. Aqui em Portugal, a crise pegou em cheio uma grande parte da população. Agora começam a sair dela, começam a respirar um pouquinho mais aliviados. Os jornais, os telejornais falam disso. Mas o que sinto é que aqui não existe o objetivo de derrubar o presidente da República. Querem sair da crise o mais rápido possível. No Brasil sinto que existe um ódio focado contra uma mulher e contra um homem. E não somente contra os dois, contra quem os entrevista e  contra quem não os odeia. Querem matar o Jô Soares e querem matar também o jornalista Fernando Moraes. Aonde vamos chegar com isso? Vim por pouco tempo, pequenas férias e, como aquele passarinho do Tom e do Chico, “sei que ainda vou voltar, sei que ainda hei de ouvir cantar, uma sabiá”. Enquanto isso, vou vendo a cidade florida nesse início de verão, vou vendo os suaves azulelos nas paredes e as coxinhas daqui, que não passam de salgadinhos no bar do portuga.

[Lisboa, 24 de junho de 2015, quarta-feira] 

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As flores…

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os suaves azulejos…

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e as coxinhas.

[fotos ALBERTO VILLAS]

 


ETERNAMENTE SINTRA

 

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Pegar o trem cedinho e voltar a Sintra é sempre uma emoção. A cidade está lá, a mesma, cheia de flores e cheiro de natureza. Com os seus cafés, suas delícias. Quem resiste a uma queijadinha de Sintra ou a um travesseiro de Sintra. O café Periquita sempre bombando e não é pra menos. Os docinhos na vitrine chamam o povo. O fôlego precisa estar em dia para subir até o Castelo dos Mouros, depois descer e ir se perder na Quinta da Regaleira, um lugar cheio de mistérios, inclusive grutas e labirintos escuros pra quase se perder. Liberado pra sardinha na brasa, hoje foi o dia. Que delícia. O trem que nos leva a Sintra custou 5 euros, ida e volta. Isso não é preço porque passar o dia na cidade nesse início de verão, é um desses prazeres da vida que a gente não se esquece. Hoje, caminhando pelas ruelas, ainda me veio à memória uma historinha engraçada. Da minha cama no hospital, via, todo dia cedo, um idoso caminhando pelo corredor. Ia pra lá, voltava, ia pra cá, voltava. Passou uma enfermeira e perguntou: “O senhor dormiu bem esta noite?”E ele: “Muito bem. Como um processo no Tribunal de Justiça”. Fiquei imaginando que ele dormiu como uma pedra, lá quietinho, sem ninguém mexer com ele. Já se foi o tempo em que saíamos do Brasil e ficávamos sem rádio e sem notícia. Entro online nos jornais brasileiros e confesso, novamente, preguiça. Aqui hoje, o notíciário foi a Grécia, inclusive com manifestações que vimos no Chiado, ao voltar pra casa. Amanhã tem mais.

[Lisboa, segunda-feira, 22 de junho de 2015] 

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O moreno de Angola suou pra dançar a quadrilha na pracinha.

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E alguém desenhou o velho símbolo comunista numa lata de lixo enferrujada.

[fotos ALBERTO VILLAS]

 


É VERÃO, BOM SINAL

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O sol de 32 graus ontem, já anunciava mas, oficialmente, o verão começou hoje em Portugal. Foi o dia mais longo do ano, garantiu a taxista Isabel que nos levou ao lugar mais descolado de Lisboa, a LXFactory, uma antiga fábrica transformada num espaço público com lojinhas e bares. O primeiro dia do verão amanheceu meio cinza mas, aos poucos, como os portugueses, foi colocando suas manguinhas de fora. O sol apareceu e todos foram pras praças se esparramar nos gramados. Ou foram pra beira do Tejo apreciar a circulação dos barcos a vela, com um copo de Bock nas mãos, Nas bancas de jornais, as maravilhosas edições de domingo. São tantos jornais do mundo inteiro que a gente até esquece que a imprensa está em crise. O “Público”com sua revista 2, o El País com sua revista semanal e o “Libération” com sua edição week-end, sem contar os jornalões ingleses e alemães cheio de reportagens, de olhos abertos pro mundo, longe de picuinhas. É o que sinto. Andando por aqui, vejo como Lisboa tem espaços públicos e o povo os aproveita. Que maravilha. Os cafés cheios, todo mundo falando e falando e falando. A crise se instalou aqui também mas não sinto nenhum ódio das pessoas contra o país, querendo que ele se foda. Nada disso. Uma visita a Belém, claro, para comer um pastel de nata. Eu – ó regime, ó dieta, ó vida – só espiei. O almoço foi um atum com batatas cozidas, tudo muito light. Mas achei uma maravilha. Tarde no LXFactory, onde encontramos Didi Wagner gravando seu Lugar Incomum pro Multishow. Falamos muito do Japão, das dicas preciosas que ela nos deu no final do ano. Numa loja de brinquedos, comprei um bomba de gasolina dos anos 50, paixão minha por brinquedos antigos, quiçá um livro novo, Os Brinquedos que sumiram do mapa. No trem de volta, as pessoas voltando da praia. Umas cochilando, outras ligadas nos smartphones. Chego em casa e vejo, online, a manchete da Folha, uma pesquisa eleitoral do DataFolha para as eleições de 2018. Faltam só três anos e meio, não é mesmo? Que preguiça…

[Lisboa, domingo, 21 de junho de 2015]

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Enquanto uma inglesinha come macarrão com as mãos num restaurante em Lisboa…

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… um canarinho pousa numa antena de TV.

[fotos ALBERTO VILLAS]


FADO TROPICAL

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De repente, o amanhã. A manhã. Abri a janela do nosso apartamento, senti uma brisa quente, olhei pro céu que nos protege e lá estava ele, azulzinho. O sol já havia despertado, antes de mim. Deixe pra trás, arquivadas na memória, aquelas luzes amareladas que me conduziram até o hospital. No meio do caminho, a cidade enfeitada para a festa de Santo Antônio, as bandeiras de Volpi espalhadas por todos os cantos. Ficou tudo pra trás. Sai andando pelas ruas de Lisboa, virando do avesso  uma velha canção do Chico, aquela que diz assim: “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal/Ainda vai tornar-se um imenso Portugal!” Ruas e ruelas transbordando de pessoas de todos os cantos e nação. Portugal é uma festa. Fui até a Igreja de Santo Antônio, me emocionei. Subi até o Castelo de São Jorge, que tantos anos não ia. Lá está ele, imponente, firme e forte. Na Feira da Ladra, comprei uma imagem antigo de Buda em porcelana e coloquei cuidadosamente na mochila, que já tinha uma garrafa de água, minha companheira de toda hora nesses tempos de recuperação. Andar, devagarinho, andar. O por do sol à beira do Tejo nos encheu de alegria e preguiça. Hoje, mais uma vez, percebi que a vida é aqui lá fora onde todas as coisas acontecem. Não apenas porque hoje é sábado. 

[Lisboa, sábado, 20 de junho de 2015]

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Um idoso observa moedas antigas numa vitrine…

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… enquanto uma turista francesa descansa seus pés numa Havaianas verde e amarela.

[fotos ALBERTO VILLAS]


AFINAL, O QUE VIEMOS FAZER EM LISBOA?

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A primeira semana em Lisboa foi num confortável quarto, o de número 404, do Hospital da Cruz Vermelha, que fica no bairro do Benfica. O primeiro dia, na verdade, foi na sala de emergência, passando por todos os tipos de exames possíveis e imagináveis. Sendo muito bem cuidado pelas enfermeiras Rita, Vera e Sofia e pelos doutores Eduardo e Silvia. O lençol da minha cama era lindo, lembro bem, azul e branco de listras. No armário ao lado, a Rita acomodou a minha mochila, o meu tênis, a minha roupa. Ganhei uma camisola branca com uma cruz vermelha ao lado, que me lembrou as fotografias em preto e branco da Segunda Guerra Mundial. Rita foi tão simpática que providenciou um carregador de iPhone para que eu não ficasse sem notícias da família. Depois de 24 horas na emergência fui transferido para o tal quarto 404, à base de soro, remédios e chá. Quando chegava o chá, para mim, era a festa, como se fosse um banquete. No quarto havia uma televisão, onde vi a final do MasterChef Nova Zelândia e o jogo Brasil 2, Peru 1. Lá, soube da morte de Fernando Brant e aquilo ficou na minha cabeça: Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. No terceiro dia, a doutora Silvia liberou um pouco a dieta e aquela primeira torrada com geleia de laranja amarga, a gente nunca esquece. Depois veio a massa com cenouras baby e um grelhado de frango. De sobremesa, uma maçã cozida que, para mim, sonhei, estava flambada no vinho português. Da janela do meu quarto, uma árvore frondosa era o paraíso dos passarinhos, que gosto tanto. No final da tarde, eles faziam uma grande algazarra, procurando um galho para se acomodar e passar a noite. No quinto dia, alta! Voltei para o apartamento no ChiaDo, feliz da vida mas ainda apreensivo com o resultado da biópsia, que sairia dentro de três dias. Voltei ao hospital para uma consulta com a doutora Silvia e para saber a nova dieta, os novos remédios a tomar e o resultado da biópsia. Negativo! Lisboa, aqui vou eu!

[Lisboa, sexta-feira, 19 de junho de 2015

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[foto ALBERTO VILLAS]



DIÁRIO DE LISBOA 1

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10.06.15 quarta

A primeira vez que pisei em terras portuguesas, vivia-se aqui uma ditadura cruel. Longa e agonizante. Senti que as pessoas andavam suspirando pelas alcovas, sussurrando em versos e trovas e andavam combinando no breu das tocas. Lembro-me bem que um funcionário do Serviço de Meteorologia foi nos pegar no aeroporto. Ele tinha nas mãos uma fotografia minha, o retrato do artista quando jovem. Era uma foto 3X4 em preto e branco, eu com minha juba de leão. O inverno era rigoroso e o país, cinza, nunca me esqueço. A primeira noite foi num pequeno hotel no centro da cidade. Foi nesse dia que aprendi a tomar água da torneira. Tarde da noite, percebemos que não havia frigobar no quarto, portanto, não havia água mineral. Foi a camareira quem disse: “Pode beber da torneira!” Bebemos. Voltei alguns meses depois pra participar da festa, pá! Havia cravos por todas as partes, nas lapelas, nas janelas e nos fuzis. Voltei algumas vezes a Portugal, sempre apaixonado pelo país, por esse povo, tentando entender o que pode essa língua. Depois de dez horas de voo até Madri, duas horas no aeroporto Barajas, mais uma hora e vinte de Madri até aqui, cheguei a Lisboa. Exausto. Mas ainda com forças de dar uma volta pelo Chiado, onde estou hospedado. Foi um tempo curto mas que deu  para observar pequenos detalhes importantes de nós dois.

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Beija eu, pro exemplo.

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O PC pedindo a volta do escudo.

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No meio do caminho, um caminhão.

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Na Rua Garrett, uma livraria toda enfeitada de Laurentino Gomes.

[fotos ALBERTO VILLAS]

 











A LEITURA DO DOMINGO

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Semana passada, no Rio, tive o privilégio de participar, no Oi Futuro, em Ipanema, do lançamento de quatro livrinhos deliciosos, frutos do programa O Som do Vinil, apresentado toda quarta-feira por Charles Gavin, no Canal Brasil. Os quatro primeiros volumes da coleção são: Clube da Esquina (1972),  uma entrevista com Milton Nascimento e Lô Borges. O segundo, Academia de Danças (1974), entrevista com Egberto Gismonti e Geraldo Carneiro. O terceiro, Nervos de Aço (1973), entrevista com Paulinho da Viola e o quarto, Quem é Quem (1973), entrevista com João Donato. São verdadeiras aulas de história da música popular brasileira. De primeira.