AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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O Brasil agora tinha apenas dois partidos políticos, a Aliança Renovadora Nacional, a Arena, e o Movimento Democrático Brasileiro, o MDB. A Arena, que surgiu da UDN, do PSD, do PSP e do PDC, era o partido do governo, que apoiava o regime militar que tomou conta do Brasil desde aquele primeiro de abril. O MDB, de oposição, veio do PTB e do PSB, principalmente. As eleições para presidente da República, marcadas para 1965, ficaram para trás e não se falava mais nisso.

Aqueles adesivos de plástico escritos “JK65”, que o meu pai trouxe de Brasília, estavam jogados dentro de uma das gavetas do móvel da sala, meio escondidos debaixo das toalhas de mesa.

Bob Dylan colocava nas paradas de sucesso uma música chamada “Like a rolling stone”, aquela que ouvi pela primeira vez nas Lojas Gomes. Ele deixava um pouco de lado a política para investir na poesia. O mundo perdia Nat ‘King’ Cole, e nós, brasileiros, Ary Barroso, o mineiro de Ubá, compositor de “No tabuleiro da baiana”, aquele que inventou o tal do “meu Brasil brasileiro, meu mulato inzoneiro”.

Toda vez que morria um compositor, o meu pai anotava num caderno de capa dura, o ano em que nasceu e o ano em que morreu. Era um ritual. Pegava um disco do cantor morto e colocava na vitrola. No dia em que Ary Barroso morreu, ele colocou pra rodar “Isto aqui o que é”: “Isto aqui ô ô/É um pouquinho de Brasil, iá iá/Desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz/É também um pouco de uma raça/Que não tem medo de fumaça, ai ai/E não se entrega, não”. O meu pai tinha uma paixão por Ary Barroso e se orgulhava muito dele ter nascido em Ubá, cidade vizinha a sua Cataguases.

Enquanto os negros americanos lutavam nas ruas dos Estados Unidos por seus direitos, em Estocolmo, o líder negro Martin Luther King recebia, aos 35 anos de idade, o Prêmio Nobel da Paz. Os Beatles faziam a América, conquistando corações e mentes das sobrinhas do Tio Sam. Arrastavam quarteirões para os seus shows, cantando “Day tripper”, “Nowhere man” e “Yesterday”. As meninas iam à loucura quando os quatro cabeludos subiam ao palco.

No Brasil inteiro se espalhava, pela televisão, um espetáculo em videoteipes em preto e branco. Só em São Paulo, o Ibope registrava que mais de três milhões de pessoas assistiam ao programa Jovem Guarda na TV Record, nas alegres tardes de domingo.

Nas bancas de jornal, o sucesso era a Realidade, uma revista mensal de reportagens publicada pela Editora Abril. Feita por uma equipe de bravos jornalistas de esquerda, a Realidade falava em 1966 de maconha, aborto, racismo, religião, política, liberdade, sexo livre, comportamento geral.

A censura, de olho na nossa realidade, recolheu das bancas o número 10 da revista, assim que começou a chegar às bancas de São Paulo. O motivo alegado foi uma fotografia em preto e branco de uma mulher no momento do parto. Foi considerada obscena pelos censores do regime militar de plantão.

Tínhamos três revistas semanais de atualidades. A Manchete, com seus cronistas geniais como Rubem Braga, Fernando Sabino, Manuel Bandeira e Paulo Mendes Campos; a Fatos & Fotos, irmã pobre da Manchete, editadas, pela Bloch; e O Cruzeiro, com David Nasser e suas reportagens sensacionalistas, Rachel de Queiroz com suas crônicas deliciosas e Carlos Estevão com o seu Amigo da Onça.

A Fairplay era a única revista masculina. Era vendida dentro de um envelope pardo, proibida para menores. Trazia ensaios com Ítala Nandi, Florinda Bulcão, Rejane Medeiros, Irma Álvarez e outras beldades da época, que mostravam apenas um seio, porque dois à vista eram proibidos. Nu frontal, nem pensar. A revista tinha textos de Ruy Castro, Paulo Francis, Rubem Braga, Jô Soares, Lêdo Ivo e outros bambas, com ilustrações de Ziraldo, Jaguar e Juarez Machado.

As fotonovelas eram a coqueluche das adolescentes. A Querida, a Grande Hotel, a Ilusão e a Contigo eram disputadas nas bancas. Bancas que tinham a Quatro Rodas fazendo testes da Rural Willys, do Renault Gordini, do Dauphine e do Karman-Ghia, e a Autoesporte cobrindo as vitórias de Jim Clark nas pistas de Fórmula 1.

Os jovens se divertiam com as aventuras do Flash Gordon, do Mandrake e do Capitão Marvel. As crianças adoravam o Pato Donald, o Mickey, o Tio Patinhas, a Luluzinha e o Bolinha. A revista Casa & Jardim estampava, nas capas, salas coloniais com bandejas de prata em cima de cada móvel. A revista Claudia ensinava como fazer um coquetel de camarão, um cuscuz com sardinha e ovo cozido e um manjar de coco com ameixas pretas por cima.

Mas havia uma revistinha que era o máximo do máximo, a Intervalo. Era uma revista em formato de bolso que trazia verdades e mentiras sobre a vida das estrelas, numa época em que ainda não se usava a palavra “celebridades”.

Toda semana a Intervalo chegava às bancas com mil e uma novidades, notícias das novelas O direito de nascer e Se o mar contasse, dos programas de televisão que estavam com tudo no Ibope: Programa Silvio Santos, Família Trapo, Hebe, Moacyr Franco Show, Lanceiros de Bengala, A Grande Chance. Mas o forte da Intervalo era a vida íntima, as fofocas de cada uma das estrelas.

Criava factoides e intrigas que deixavam toda a Jovem Guarda de cabelo em pé. Na verdade, ninguém neste país perdia o programa apresentado pelo recém-empossado rei Roberto Carlos, com o auxílio luxuoso do tremendão Erasmo Carlos e da ternurinha Wanderléa.

Passavam toda semana pelo programa, o bidu Jorge Ben, o queijinho de Minas Martinha, o bom Eduardo Araújo e sua mulher Silvinha, os pobres meninos Leno e Lilian, Sérgio Murilo, Rosemary, o doce de coco Wanderley Cardoso, Jerry Adriani, Agnaldo Rayol, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps, os Golden Boys, o Trio Ternura e o Bobby de Carlo cantando “Você é meu amorzinho/Você é meu amorzão/Você é o tijolinho que faltava na minha construção”.

Depois chegou Ronnie Von, o pequeno príncipe encantado, cantando versões dos Beatles e estraçalhando corações quando jogava o cabelão pra trás dizendo “Meu bem… meu bem…”. O sucesso de Ronnie foi tão grande que acabou ganhando um programa só seu, O Pequeno Mundo de Ronnie Von, menos Jovem Guarda e um pouquinho mais rock and roll. Por lá passaram Caetano, Gil e os Mutantes.

Os Mutantes, quem batizou, foi Ronnie, que estava lendo um livro chamado “O Império dos Mutantes”, de Stephan Wul. Eram três garotos de São Paulo – Arnaldo, Sérgio e Rita – que fizeram uma alquimia, misturando música popular brasileira com rock and roll, com pitadas de som nordestino, psicodelismo e um pouco de anarquia. Eram os nossos Beatles.

Mas a Jovem Guarda era a menina dos olhos da Intervalo, que não deixava escapar nada, fosse verdade ou fosse mentira. A Intervalo chegava às bancas com manchetes que nenhum fã queria perder. Manchetes como estas:

Agnaldo Rayol está amando Elis?

Jair Rodrigues está rico, mas ainda não pode casar.

Vandré: Minha luta é assim.

A Pimentinha volta brava.

Eduardo está ficando louco
.

Edu sempre gostou de Marília
.

Samba separa Leno e Lílian
.

Amor de Lílian usa rabo de cavalo.

Caetano Veloso sem muita alegria.

Roberto e Nice, a hora do ciúme.

Gal Costa briga por Roberto Carlos.

Wanderley Cardoso: Eu amo Vanusa
.

Bobby já tem boneca que diz sim.

O guerrilheiro Simonal
.

Beatles: Papa poderá ouvi-los na igreja.

Erasmo e Wanderléa: Tremendão ama Ternurinha
.

Roberto Carlos tem quatro amores.

Ronnie cortou o cabelo a zero
.

Wanderley e Rosemary: Amor proibido.

Tentaram matar Wanderley.

Martinha: Eu amo Roberto Carlos
.

Wanderléa tem amor secreto
.

Os olhos de Wanderley Cardoso escondem estranho segredo.

O caderno secreto de Jerry Adriani.

Por que Roberto Carlos resolveu deixar a Jovem Guarda.

Eu comprava a Intervalo todas as semanas e ia fazendo uma pilha ao lado do meu aparelho de som portátil. Colecionava as figurinhas que vinham dentro, colava tudo com goma arábica, deixando todos os meus ídolos juntos, catalogados.

[Segunda-Feira que vem: Capítulo 5 – O BANQUETE DOS MENDIGOS]

 

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