PENSE NO NEPAL

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Noticias caem no esquecimento, somem dos jornais, das revistas, dos telejornais. Quem está se lembrando da tragédia no Nepal, que deixou mais de cinco mil mortos? Desde abril, músicos do mundo inteiro estão fazendo shows e campanhas para arrecadar dinheiro e mantimentos para os sobreviventes do terremoto e para a reconstrução do país.

[Paul Lorgerie]

 

ESCÂNDALO!

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A noticia é esta: Aécio Neves e Sérgio Guerra receberam dinheiro de propina, segundo revelação feita ontem pelo doleiro Alberto Youssef. VillasNews está oferecendo um doce para quem encontrar a  noticia na primeira página da Folha de S.Paulo ou de O Globo. E uma lupa para que você encontre a notícia no interior dos jornais. Bom trabalho! Isso não pode ser chamado de Jornalismo. Ainda mais com J maiúsculo.

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[Reprodução UOL/Folha de S.Paulo/O Globo]

RETRATO FALADO

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A caricatura, muitas vezes, é mais perfeita que o próprio retrato. Este ano, o Salão de Humor de Piracicaba deu um show. Destaco aqui, o Cabu (cartunista morto no massacre à redação do jornal francês Charlie Hebdo), no traço de Paulo Sérgio Jindelt, o grande vencedor de 2015…

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… e Evo Morales, visto por Lézio Custódio Junior, que faturou o Prêmio Câmara de Vereadores de Piracicaba.

[Reprodução]

ALVORADA NO MORRO

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Com a manchete do caderno Cotidiano da Folha de hoje, fiquei aqui pensando com os meus botões: Que tristeza essa crise, não é mesmo? Logo agora que as favelas de São Paulo tinham desaparecido… estão ai novamente. Já pensou se a crise se alastra pelo Rio? Se isso acontecer, vamos ter de volta a Favela da Rocinha, o Complexo do Alemão, do Caju, da Maré… a Cidade de Deus, etc, etc, etc…

OS DIAS DE HOJE

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Das três notinhas publicadas em seguida na coluna do Ancelmo no Globo desta segunda, 24 de agosto, as duas primeiras estão absolutamente corretas. FHC foi aplaudido e vaiado, Caetano e Gil cantaram uma nova canção em que falam das “camélias do quilombo do Leblon”, mas na terceira bem, na terceira, ele colocou uma pitada de maldade. Só faltou dizer que o povo brasileiro está passando pelo maior sofrimento dos últimos doze anos…

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[foto Marília Villas]

[reprodução O GLOBO]

AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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Acordei cedo naquele sábado, abri o meu armário e fui buscar, lá no fundo da segunda gaveta, a caixa de sapatos Clark onde guardava o meu diário, uma carta de Vandinha, a foto de Suzana no alpendre da minha casa no dia da sua primeira comunhão e o meu dinheiro.

Era um punhado de cruzeiros que ia juntando todos os meses, vindo da mesada do meu pai, e uns trocados que ele me dava quando eu engraxava os seus sapatos aos sábados. Um pouco era da gorjeta que Seu Darci, generoso, enfiava no bolso da minha calça curta quando eu voltava do Bar Maron com o seu maço de Mistura Fina sem filtro. Tinha também um dinheiro separado num envelope, presente da minha madrinha que morava no Rio de Janeiro e um pouquinho que ganhava da Brasanitas, o meu primeiro trabalho.

Com o catálogo telefônico nas mãos, escolhia aleatoriamente um número e ligava perguntando se a pessoa queria dedetizar a casa, acabar de vez com as baratas, as formigas, os pernilongos, as traças e os cupins. Cada morador que respondia sim e o pedido se concretizava, eu ganhava uma graninha da Brasanitas.

Sábado na minha casa era um dia muito especial. O meu pai acordava às cinco horas da manhã para ir assistir a missa no Mercado Central. Depois fazia as compras e voltava pra casa com dois balaios de vime cheio de frutas e legumes. Ele trazia também um frango vivo, amarrado com barbante pelos pés e embrulhado num jornal, deixando de fora apenas a cabeça. O frango chegava em casa com o bico aberto de sede e muito assustado. No dia seguinte ele iria pra panela. Sábado era um dia de música na minha casa, dia em que o meu pai limpava os seus vinis e escolhia o repertório para o final de semana.

Nesse sábado, eu juntei algumas notas, passei um elástico em volta e fui pra cidade. Fui a pé. Desci a rua Grão-Mogol, tomei um Eskibon na Fornarina, peguei a praça Diogo de Vasconcelos, subi até o Palácio da Liberdade, desci a João Pinheiro, passei em frente à Sociedade Mineira dos Engenheiros e ganhei a avenida Afonso Pena.

Era lá, na avenida principal de Belo Horizonte, que ficava a melhor loja de discos da cidade, a Lojas Gomes. Espaçosa, ela deixava bem à vista na vitrine os longplays recém-lançados, e o seu alto-falante era possante, dava para ouvir a música lá da calçada. O hit do momento era “Quero que vá tudo pro inferno”, com Roberto Carlos. A qualquer momento que você ligasse o rádio, era só ir girando o dial que encontrava o rei pedindo para aquecê-lo no inverno e mandando tudo mais pro inferno. Ele já era rei e estava estampado na capa da revista Manchete, numa banca bem em frente a loja de discos.

Mas nem só de rei vivia a caixa de som das Lojas Gomes. Eles tocavam também Maria Bethânia com aquele vozeirão: “Carcará! Pega, mata e come!”. Chico Buarque cantando coisas de amor, cantando “A Rita”, o “Juca”, o “Meu refrão” e sua primeira música de protesto, “Pedro pedreiro”, aquele que estava sempre esperando aumento para o mês que vem e a mulher de Pedro, esperando um filho pra esperar também.

Meus olhos brilhavam toda vez que entrava naquela loja, que batia os olhos nas novidades na vitrine, mas naquele sábado eu tinha dinheiro para comprar apenas um disco, o primeiro que ia comprar com as minhas economias.

Passei por Elis conclamando os poetas, os seresteiros, os namorados, dizendo que era chegada a hora de escrever e cantar. Passei por Bob Dylan cantando “Like a Rolling Stone”, pelos Herman’s Hermits cantando “No milk today”, pelos Monkees com “I wanna be free”, pelos Mamas & Papas com o “Monday Monday” e acabei chegando onde queria.

Eu tinha visto na televisão aquele menino baiano com um paletó xadrez e uma camisa de gola rolê cantando uma canção que mexeu com a minha vida: “Caminhando contra o vento/Sem lenço, sem documento/No sol de quase dezembro/Eu vou!”.

Gostei dessa ideia de caminhar contra o vento, sem lenço e sem documento. Eu também tinha caracóis nos cabelos e uma camisa de gola rolê como ele, presente que o meu pai comprou na Casa José Silva. Era uma loja meio careta mas eu me senti meio na moda quando vi aquele cantor baiano com uma camisa igual a minha.

Ele falava da deliciosa Claudia Cardinale, da Brigitte Bardot, dos olhos cheios de cores, de guerrilhas, da Coca-Cola e do Sol nas bancas de revistas. Por que não? Fiquei sem saber se o tal Sol era o jornal, difícil de encontrar em Belo Horizonte, se era o sol da Bahia que ele deixou pra trás ou o sol da Cidade Maravilhosa, aquele de quase dezembro. Eu tinha acordado naquele sábado decido a comprar o meu primeiro disco, só meu, e esse disco seria o de Caetano Veloso.

O vendedor me levou até a letra C e puxou o disco de vinil. Lá estava Caetano com uma cara meio preocupada ao lado de Gal, numa varanda talvez em Amaralina, sabe Deus onde, quiçá em Jacarepaguá. Virei o disco e na contracapa não achei “Alegria, Alegria”, encontrei doze músicas desconhecidas, seis do lado A e seis do lado B. Caetano dizia na contracapa que gostava muito de cantar, “mas jamais consegui gostar muito de cantar as minhas composições. Um velho baião, uma canção antiga, o último samba de um amigo, Isso é bom de cantar”.

Paguei e fui-me embora pra casa, de ônibus. Eu tinha uma pequena vitrola no meu quarto que eu gostava muito. Ela era bem compacta e com uma tampa de acrílico. O meu quarto era muito feio. Não gostava daquela cama colonial, daquela colcha de fuxico, apesar de tão trabalhosa de se fazer. O armário, projetado por meu pai, era espaçoso, e do lado de dentro da porta eu colava tudo que gostava.

Uma gravura do Rin-Tin-Tin retirada de uma revista americana, uma foto do tenente Carlos, o Vigilante Rodoviário, junto com o seu inseparável cão Lobo. No espelho, um adesivo do elefantinho do Jornal do Brasil, uma foto da Brigitte Bardot recortada da Fatos & Fotos, e os miniposters de carros antigos que vinham todo mês na revista Autoespote. Lá em cima, onde eu não conseguia alcançar, uma foto colorida de Jim Clark. O meu sonho era ser piloto de Fórmula 1, ser um Jim Clark da vida, quando comprei o disco Domingo, que Caetano dividiu com Gal Costa.

Ouvi uma, duas vezes. Limpei com a flanelinha igual a do meu pai e guardei no plástico que vinha dentro de cada disco, tomando todo cuidado para não arranhar. Pensei comigo mesmo que o meu coração naquele momento não era assim tão bossa-nova quanto aquele disco que acabara de comprar. Mas com as letras na mão, procurei gostar de “Coração Vagabundo”, “Onde eu nasci passa um rio” e “Remelexo”: “Que menina é aquela que entrou na roda agora/Ela tem um remelexo que valha-me Deus, Nossa Senhora”. Mas o que mais me tocou foi “Candeias”, que nem de Caetano era.

A letra da música de Edu Lobo, que Gal começava a cantar com toda a doçura desse mundo, era o que eu mais queria ouvir naquele momento: “Ainda hoje, vou-me embora pra Candeias/Ainda hoje, meu amor, eu vou voltar/Da terra nova, nem saudade vou levando/Pelo contrário/Pouca história pra contar”.

Sim, eu queria ir embora ainda hoje, não pra Candeias, mas para Cataguases, onde morava a menina mais linda do mundo e que eu conheci numa festa de São João. Eu queria saber que menina era aquela que entrou na roda agora. Eu queria falar com ela.

Cada verso de Domingo me levava a Teresa: “Meu coração não se cansa/De ter esperança”. Pronto, era um verso feito para mim e, certamente, para ela também. “Cada palmeira da estrada/Tem uma moça recostada”, cantava Gal para mim. De repente, mais uma: “Minha namorada tem segredos/Tem nos olhos mil brinquedos/…/Minha namorada, muito amada/Não entende quase nada”.

Foi nesse sábado e depois no domingo, quando ouvi o disco pela terceira vez, que fui percebendo que a vida é feita de trilhas sonoras. Teresa não me saía da cabeça, e eu tinha certeza que todas aquelas canções que Caetano tinha composto eram para nós dois. “Adeus, meu bem/Eu não vou mais voltar/Se Deus quiser, vou mandar te buscar/Na lua cheia/quando é tão branca a areia/vou mandar te buscar”.

De noite na cama, ficava pensando nessas canções até pegar no sono. Queria sonhar com a minha Cataguases, com aquela rua de pedras e arborizada chamada Major Vieira, com aquela casa parede-meia que Teresa dividia com a minha tia Luizinha. Queria estar lá para colocar o ouvido na parede e escutar, do outro lado, o barulho do sono de Teresa ou, quem sabe, o seu silêncio.

Na segunda-feira cedo, peguei um papel branco e datilografei na Remington portátil do meu pai, as iniciais do meu nome, acrescentei um Junior, recortei o papelzinho, e com um Durex, com muito cuidado, colei na contracapa do Domingo, por debaixo do plástico: A. V. B. Junior/Disco número 1.

[Segunda que vem: Capítulo 4 – INTERVALO]

 

O GUIA DO DOMINGO

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Quem já foi, quem vai ou quem está planejando ir a Lisboa, aqui vai uma dica. Chegando lá, entre na Livraria Bertrand, a mais antiga do mundo, que fica bem no coração do Chiado, e compre um pequeno livro de capa vermelha chamado “O que o turista deve ler”, assinado por Fernando Pessoa. Escrito em 1925, ele estava prontinho quando Pessoa morreu e ganhou uma nova e caprichosa edição bilíngue no ano passado. Todo dia à noite no hotel, é a leitura recomendada. Passear por Lisboa na companhia do poeta português é um programa e tanto.

[capa em pedras portuguesas/foto Alberto Villas]