AVISO

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A revista italiana Internazionale anuncia, na capa, que “o fim do capitalismo começou”. Segundo a revista, a responsável pela morte é a tecnologia digital.

[Reprodução]

VENUS AND MARS

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Se a lua inspirou poetas, namorados e seresteiros, o planeta Marte correu atrás. A quarta-feira ainda amanhece sob o efeito do anúncio da Nasa de que há água por lá, coisa rara em São Paulo. Começar o dia com música é sempre bom. “Venus and Mars”, por exemplo, com Sir Paul McCartney.

AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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Tenho a impressão de que tudo aconteceu ao mesmo tempo naquele ano. Os trens pararam, os aeroportos fecharam, as cartas e telegramas não chegavam mais, e telefonar era um sacrifício. Paris estava em chamas. Nas ruas, milhares de estudantes, barricadas, carros pegando fogo e a polícia reprimindo. A greve era geral e, nos muros da Sorbonne, uma palavra de ordem: É proibido proibir!

Enquanto os Beatles voavam para a Índia ao encontro do guru Maharishi Mahesh Yogi, em busca de paz, dois dos oito tiros disparados por Sirhan Bishara Sirhan acertavam em cheio Robert Kennedy no salão do Hotel Ambassador, em Los Angeles. Assim acabou a vida de Bob, irmão de John, o provável futuro presidente dos americanos.

Na sacada do Hotel Lorraine, em Memphis, tiros acertavam também em cheio Martin Luther King, o homem que lutava para provar que o homem negro era igual ao homem branco. Ele tinha um sonho e esse sonho acabou ali naquela sacada de hotel.

Por aqui, era um estudante de 16 anos, o Edson Luiz de Lima Souto, que caía morto, com balas no corpo disparadas pela repressão militar. Na fila do restaurante Calabouço, no Rio, ele esperava a hora do almoço barato, para não passar fome na Cidade Maravilhosa. O seu sonho de vencer na vida acabou ali. Milhares de brasileiros saíram às ruas pedindo o fim da repressão numa passeata que ficou conhecida como a Passeata dos 100 Mil.

O meu pai estava na América do Norte com duas encomendas. A minha era o novo disco dos The Mamas & The Papas, chamado The Papas & The Mamas e o do meu irmão era Magical Mystery Tour, o novo disco dos Beatles que o Diário de Minas anunciara que não seria lançado no Brasil como long-play mas como dois compactos duplos.

Não via a hora de ouvir Shirley Temple recitando os versos na canção “The right somebody to love”, que abria o disco dos Mamas & Papas. Eu tinha lido no Globo e o meu irmão esperava ansioso o Magical Mystery Tour para ouvir “The Fool on the Hill”, que já tocava nas rádios de Belo Horizonte.

Mas esse ano de pau e pedra, de tiros, não tinha acabado ainda. No Hospital das Clínicas, em São Paulo, João Ferreira da Cunha, um boiadeiro de 23 anos, recebia um coração novo das mãos do doutor Euryclides de Jesus Zerbini, com a ajuda de 41 médicos.

Jacqueline, a Jackie, viúva do presidente John Kennedy, assassinado como o irmão Bob, surpreendia o mundo casando-se com o magnata grego Aristóteles Onassis. Em Praga, a primavera não chegou com flores. Os tanques da União Soviética ocuparam as ruas da cidade, e lá também um estudante, Jan Pallach, morria ateando fogo no corpo em protesto contra a repressão.

O ano só terminou com o Ato Institucional número 5 – o AI-5 -, que calou de vez a voz dos brasileiros. Sentados, juntamente com Gilberto Gil, ali na grama do Aterro do Flamengo, observávamos hipócritas andando ao redor. Víamos amigos presos, amigos sumindo pra nunca mais. Mas tínhamos certeza de que tudo iria dar pé.

Ouvíamos muito Jefferson Airplane, Cream, Bee Gees, Buffalo Springfield e Aretha Franklin. Ouvíamos o som delicado de Leonard Cohen, mas alguma coisa intrigava: The Velvet Underground & Nico e as experiências de Jimi Hendrix. Are you experienced?” perguntava ele.

Delirávamos com todas as outras canções de Magical Mystery Tour e com aquele filme sem pé nem cabeça, tão criticado. Ainda ouvíamos e viajávamos muito ao som de cada faixa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O delírio era tão grande que pintávamos desenhos psicodélicos nas paredes do nosso quarto para desgosto dos nossos pais. Até Lucy no céu com diamantes estava lá, num desenho bem primitivista.

Mas de uma hora pra outra, não havia mais canções, letras e músicas. Fora do tom, sem melodia! Não sei como chegou a Belo Horizonte aquele disco proibido de John Lennon e Yoko Ono, o primeiro trabalho solo da dupla. Era uma capa toda branca com os dois completamente nus na frente, e, no verso, os dois de costas.

Two Virgins era uma gravação cheia de ruídos, barulhinhos bons e ruins, o registro da lua de mel do casal. Não adiantava procurar ali, porque não ia achar, nenhum acorde, nenhum sinal de “With a little help for my friends”, “Getting better” ou “Fixing a hole”. Tampouco “Good morning, good morning” ou “A day in the life”. Nenhum sinal de “Hello goodbye”, “All you need is love” nem “The fool on the hill”.

As curtições baratas, as experiências de John & Yoko atravessaram os sete mares, subiram as montanhas, derrubaram as prateleiras, louças, livros sim. Quem pagou uma fortuna para ouvir barulhos, ruídos, grunhidos de Yoko Ono? Teve quem achou aquilo muito ousado, moderno, surpreendente, underground e revolucionário. E muito chato.

Mas a história não parou aí. Um dia chegou a Belo Horizonte Living with the Lions, o segundo disco solo deles. Na capa, Yoko deitada na cama de um hospital debaixo de um lençol branco com uma maçã verde no colo. John, de plantão, cara séria e preocupada, sentado numa almofada no chão.

Living with the Lions é um disco de cinco momentos. De um lado do vinil, Cambridge 1969”, que dura exatos 26 minutos e 28 segundos, e do outro, quatro peças: “No bed for Beatle John”, quase uma canção de ninar recitada por Yoko, “Baby’s heartbeat”, onde escutamos por 5 minutos e 29 segundos o coração de um bebê que Yoko guardava na barriga, “Two minutes of silence”, que dura exatos 2 minutos do silêncio absoluto e sepulcral do casal, e encerra com “Radio play”, 12 minutos e 34 segundos com o barulho de vários aparelhos hospitalares.

Sim, John e Yoko estavam vivendo com os leões. Gravaram o disco no Queen Charlotte’s Hospital, de Londres, onde Yoko passou alguns dias até perder o bebê que esperava. O mundo estava aberto para loucuras assim. Experiências, baratos, curtições, que gente maluca gostava de sonhar. Aquele ano estava mesmo fadado a não terminar.

[Segunda-feira que vem: Capítulo 9 – Senta que lá vem história]

 

Jornalismo independente

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Jornalismo independente pra mim tem tamanho. Exatos 17 centímetros de comprimento por 8,5 centímetros de altura. Trata-se do espaço que o jornal Folha de S.Paulo dá aos cartunistas Angeli e Laerte. Ali, naquele pequeno retângulo, todos os dias, sentimos que existe liberdade de expressão. É o espaço mais livre do jornal. Livre de qualquer interferência. Duvido que algum editor-chefe tem coragem de dizer aos dois “isso pode”, “isso não pode”. Os cartuns de Angeli e Laerte valem mais que qualquer editorial. Viva a liberdade de expressão!

 

A LEITURA DO DOMINGO

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O livrinho não é novo, é do ano passado, mas só agora caiu nas minhas mãos. Me interessei por ele porque me amarro em Maria Ribeiro toda quarta à noite, no GNT, numa Saia Justa, em companhia de Astrid Fontenelle, Bárbara Gancia e Mônica Martelli. Em “Trinta e Oito e Meio”, Maria faz uma espécie de diário íntimo, confissões para ela mesmo de assuntos sempre interessantes. Uma delícia de livro, desses que a gente vai virando uma página atrás da outra até chegar ao final. Não dá pra parar no meio. Adorei.

[Trinta e Oito e Meio – Maria Ribeiro – Editora Língua Geral – 160 páginas – 23.70 reais]