AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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Aos 56 anos de idade, João Belchior Marques Goulart tomava, todas as noites, três remédios para o coração, já meio baqueado. Numa dessas noites, ele estava em sua fazenda La Villa, em Mercedes, na Argentina, quando um enfarto fulminante o levou. A notícia chegou envergonhada ao Brasil. O jornal Le Monde noticiou numa nota que ia de alto a baixo na página de Política Internacional. Agora, o ex-presidente deposto pelos militares podia voltar ao seu país. Morto

O mundo, horrorizado, via pela televisão as imagens de um Boeing da KLM chocando-se com um outro da Pan-Am, na pista do Aeroporto de Tenerife Norte, nas Ilhas Canárias. Depois da explosão, restou aos homens do Corpo de Bombeiros contar os mortos, um a um: 574..

O mundo perdia Vladimir Nabokov, o escritor de Lolita, e ficava bem mais sem graça com a partida do último irmão Marx, o Groucho.

Quando o meu avião pousou no Aeroporto de Heathrow, em Londres, o Brasil de Rachel de Queiroz festejava. Era a primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras. Mas o cinema estava mudo sem Charles Chaplin, a ópera sem Maria Callas e o rock and roll sem Elvis Presley.

Pisei com o pé direito, como sempre faço ao entrar e sair de um avião. Levava comigo a mesma mochila de lona de sempre, algumas roupas e muitas revistas. O pouco dinheiro vivo que levava num dos bolsinhos da mochila, quase não permitiram que eu entrasse no país da rainha Elizabeth, dos Beatles, dos Rolling Stones e agora, dos punks.

Londres fervia. Ao som de God save the Queen, Holidays in the sun e Anarchy in the U.K., os porões umedecidos e cheirando a cigarro, davam as cartas. O ritmo era outro. Nas ruas, os jovens de cabelo moicano de todas as cores circulavam por Piccadilly Circus e Carnaby Street, a mesma Carnaby Street que nos anos 1960 ferveu com os hippies ao som de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan e Joan Baez. Só que agora, não havia futuro, dizia a palavra de ordem.

Os Sex Pistols subiam no palco para soltar os cachorros e espalhar a anarquia. Ao som de London Calling, The guns of Brixton e Lost in the supermarket, os meninos do Clash barbarizavam estraçalhando guitarras como fez um dia Jimi Hendrix, antes de atear fogo.

E não eram só eles. Estavam também na área o Exploited, os Dead Kennedys, os Buzzcocks, os U.K. Subs e o Damned e mais uma porção de bandas espalhadas pela mesma Inglaterra que um dia cantou ao som de With a little help from my friends, When I’m sixty-four, Lovely Rita, e que assustou a rainha com Revolution 9.

Eu perambulava pelas ruas de Londres ouvindo sons que vinham de todos os lado e tentando entender o que significava a minha música. Aquela música popular brasileira que chegava pelo correio em discos de vinil, embalados entre duas placas de isopor para não empenar. Cada aviso cor de rosa que o carteiro deixava naquela caixa de correio bordô na portaria do meu prédio, era uma felicidade, uma surpresa.

Foi assim que um dia ouvi pela primeira vez a voz de Sirlan cantando Viva Zapátria: “Esse meu sangue fervendo de amor/Aterrissam falcões, onde estou?/Carabinas, sorriso, onde estou?/Um compromisso, a sirene chamou/Duplicatas, meu senso de humor/Se perdeu na cidade onde estou”.

Foi assim que ouvi pela primeira vez a voz de Alceu Valença suplicando “Ai, Telminha, ouça esta carta que eu não escrevi”. Foi assim que ouvi pela primeira vez o solo da guitarra de Robertinho de Recife e a voz de Olivia Byington e a Barca do Sol cantando Lady Jane. Um dia, foi a vez de Belchior confessar em alto de bom som naquele apartamentinho da Rue de la Roquette: “Eu sou apenas um rapaz latino-americano/Sem dinheiro no banco/Sem parentes importantes e vindo do interior”.

Foi no meu exílio que ouvi Ronnie Von proclamando a Anarquia, o rei Roberto Carlos cavalgando e os Novos Baianos pedindo: “Mais um, Bahia/ mais um, Buchinha”. Ouvi Chico Maranhão dizendo que ela é bonita como um cavalo e Renato Teixeira, um caipira Pirapora, Nossa Senhora de Aparecida.

Na solidão de um albergue em Holland Park eu me lembrava dos instrumentos e dos silêncios de Anton Walter Smetak, do Milagre dos Peixes de Milton Nascimento e do protesto luxuoso de Paulinho da Viola: “Tá legal, eu aceito o argumento/ Mas não me altere o samba tanto assim”.

Eu me lembrava de Cartola: “Ouça-me bem amor/Preste atenção/O mundo é um moinho/Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/Vai reduzir as ilusões a pó”. E me lembrava de Carlos Cachaça: “A Alvorada lá no morro, que beleza/Ninguém chora, não há tristeza/Ninguém sente dissabor”.

O que significava Arnaldo Dias Baptista dizendo que iria virar bolor e gritando “Eu não gosto de Alice Cooper, cadê meu rock and roll?” O que significava Ney Matogrosso, seminu, pedindo: “Deus salve a América do Sul!”

Na escuridão da noite de Londres eu cantava baixinho naquele beliche em Holland Park: “Omolu/Ogum/Oxum/Oxumaré/Todo o pessoal/Manda descer pra ver/Filhos de Gandhi”.

Vi Johnny Rotten subir ao palco com a calça rasgada cheia de correntes, uma camiseta branca esfarrapada coberta de alfinetes, os cabelos desgrenhados e descoloridos, uma bota Dr. Martens nos pés e uma guitarra na mão. “Eu não sei tocar! Não existe futuro!” Ele cuspia e gritava: “This is a not love song!” Eu já sabia que aquilo não era mesmo uma canção de amor.

Não me assustei porque sabia que esse era o mundo de Joãozinho Podre. Lá fora chovia uma chuvinha fina, sem parar, bem Londres. Mas eu sabia que existia também um outro mundo, um país tropical de Jorge Ben, do Flamengo, da nega Teresa, abençoado por Deus e bonito por natureza.

O mundo era mesmo um moinho e ameaçava triturar meus sonhos tão mesquinhos, um mundo que misturava o lamento de Caetano Veloso cantando Help e Lady Madonna com Joe Strummer arrebentando a guitarra no chão ao som de Revolution Rock.

O mundo era uma mistura de Joyce cantando um país onde um selvagem levanta o braço, abre a mão e tira um caju, com o disco do Damned que chegou às lojas com uma capa cheirando a morango silvestres.

Eu sonhava constantemente com um bilhete da Loteria Federal, com um papelzinho do jogo do bicho anunciando o carneiro, dezena, centena e milhar. Eu sonhava com a volta do irmão do Henfil e com um copo vazio, cheio de ar. Eu sonhava em reencontrar a minha música um dia, nem que fosse na grama do aterro sob o sol.

[Segunda-feira que vem: Capítulo 18 – MEU CARO AMIGO]


STRESS

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A revista de informação alemã “Der Spiegel” tem cinco artistas gráficos contratados somente para pensar a capa da semana. Assunto definido, eles começam a quebrar a cabeça em busca de uma capa perfeita. Não sei se é o caso da revista Superinteressante, publicada pela Editora Abril. Posso estar enganado, mas o que leva um editor a aprovar uma capa cujo assunto é stress e a ilustração é um homem calvo com um ovo frito na cabeça?

[foto Reprodução]







A LEITURA DO DOMINGO

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Felicidade é um livro de Ruy Castro nas mãos, ainda sem ter lido, numa manhã de domingo. Só de folhear dá pra sentir a aventura em que o leitor vai mergulhar. Depois de Nelson Rodrigues, de Garrincha, de Carmem Miranda, da bossa-n0va e do Rio de Janeiro, chegou a hora de “A Noite do Meu Bem”. Com certeza, a mais bem contada história do samba-canção, de uma cidade maravilhosa nos anos 40, 50 e 60.

[A Noite do Meu Bem – Ruy Castro – Companhia das Letras – 512 páginas – 59.90 reais]  






O SOM DO SÁBADO

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Todo mundo que sai da sala de cinema depois de ver “Chico – Artista Brasileiro – sai orgulhoso de viver nesse tempo de um dos mais talentosos compositores da música popular brasileira. Felicidade plena. Quem ainda não viu, não perca. Ao mesmo tempo que o filme estréia, a Biscoito Fino coloca nas lojas o CD com a trilha sonora do filme, literalmente um biscoito fino. Difícil escolher dez canções de Chico Buarque para trilha de um filme, significa uma gota d’água em um oceano. No disco, maravilhas como “Sinhá”, sua parceria com João Bosco, “Sabiá”, cantada por Carminho, “As Vitrines” com Ney Matogrosso, “Sobre todas as coisas”, dueto de Carminho e Milton Nascimento, “Mar e Lua” com Mônica Salmaso, “Biscate” com Adriana Calcanhoto e Martinália, “Uma Canão Desnaturada” com Laila Garin, “Estação Derradeira” com Péricles e “Mambembe” com Moyseis Marques. Veja o filme, ouça o disco. Para sempre, para todos. Veja o trailer.

 




LEITURA RECOMENDADA

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A revista “Serrote”, publicada pelo Instituto Moreira Sales, chega ao seu número 21 com a elegância e a inteligência de sempre. E chega toda prosa com um texto inédito em português – “Sobre sete frases de Bouvard e Pécuchet” – de Roland Barthes, em comemoração ao seu centenário. O cardápio é variado: Lima Barreto por Beatriz Resende, um portfólio magnifico de Richard McGuire e textos com a assinatura de John Ashbery, Ricardo Piglia, Laura Cumming, entre outros. Sem contar o auxílio luxuoso de Marcelo Cips nas ilustrações. Altamente recomendável.


VAI, COELHO!

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Comecei a torcer pro América Mineiro quando ganhei um casal de coelhos. Gostei dos bichinhos, fiz uma casinha de madeira pros dois, coisa bem simples, tipo Minha Casa Minha Vida.

No principio, acho que eles gostaram. Todo o dia, eu e meu irmão subíamos a BR-3 à pé para colher capim meloso que, fiquei sabendo, era o preferido deles. De tempos em tempos, escondido da minha mãe, roubava uma cenoura na geladeira e oferecia ao casal. Gostava de ficar admirando os dois mexendo a boquinha, ruminando, mesmo depois que a cenoura tinha acabado.

Não demorou muito, eles praticamente abandonaram a casinha e partiram pro mundo. O mundo era o terreiro da minha casa, metade cimento, metade terra. Quando abri os olhos, os dois coelhinhos branquinhos já estavam vermelhos de terra, bem à vontade.

Mas eis que, de repente, a fêmea sumiu do mapa. Desconfiei que era alguma trapaça porque, bem no cantinho da parede que dividia a nossa casa com a do vizinho, começou a aparecer montes de terra fofa. Fui pesquisar num livro que tinha na minha casa que se chamava Como criar…,  que ensinava a criar codornas, galinhas, peixes, cachorros, papagaios e no capítulo 4, ensinava a criar coelhos.

Era tudo muito complicado e eu senti que estava criando os bichinhos errado, mas com muita liberdade, soltos no quintal. Lá naquele livro, o autor explicava que coelho em liberdade costuma furar buracos na terra para poder criar um ambiente para se reproduzir. Desconfiei que a fêmea tinha entrado nessa.

O livro dizia ainda que eles costumavam arrancar alguns pelos do corpo para poder fazer o seu ninho quentinho e acolhedor, para receber os filhotes, que poderiam ser mais de meia dúzia de cada vez. Os dias foram passando e foi numa manhã de sol, quando eu e meu irmão chegamos da BR-3 carregando o capim meloso, que tivemos uma grande surpresa.

A coelha reapareceu e com ela, oito filhotinhos, já com pelo e tudo, todos branquinhos, com a cara da mãe e focinho do pai. Não havia nada mais fofo no mundo que aquela coelhada saltitando pelo terreiro.

Preocupada, a mãe coelha foi empurrando um a um para dentro do buraco, que agora estava com a entrada aberta. Eles foram entrando e sumiram de repente. Do lado de fora ficou apenas o pai, orgulhoso, arisco, olhando para todos os lados para ver – acredito eu – se não tinha esquecido nenhum filhote. Nos dias seguintes, eles saíram de novo mas já mais acostumados com o mundo aqui fora.

De repente tínhamos em casa dez coelhos branquinhos de olhos vermelhos. Minha mãe ficou meio assustada com a bicharada porque ela sabia que, nos próximos dias, a danada da coelha poderia estar prenha novamente. Ela disse que tínhamos que separar os machos das fêmeas porque não tínhamos condições nem espaço pra criar tanto coelho.

Fizemos isso mas ficamos chateados de ver os machos de um lado da cerca e as fêmeas do outro. Eles ficavam enfiando o focinho para se tocar uns nos outros, num gesto de muito amor.

O meu pai veio logo com aquela piada do coelho que queria trepar e disse pra coelha: “Vai ser bom, não foi?” O meu irmão gostava dos coelhos mas era Atlético, era Galo desde pequeninho e não passava pela cabeça dele trocar de time só porque gostávamos dos bichinhos. Comigo foi diferente.

Ainda não tinha paixão por time nenhum e resolvi torcer pro América Mineiro bem no dia em que o coelhão pulou a cerca e quando vimos, mais uma ninhada de seis. Tudo isso aconteceu naquele 1957, quando o América foi campeão mineiro com Jardel, Toledo, Cazuza, Fantoni, Moacyr e Gilson. Hernani, Miltinho, Capeta, Wilson e Cyro. Que time!

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

http://www.cartacapital.com.br