O MAIOR BARATO

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Logo cedo, na terça-feira, uma imagem que deixou vários cientistas do mundo impressionados. Publicada na revista Plos One, o raio X de uma barata mostra que ela é capaz de armazenar substâncias que se acumulam no seu interior, tão duras quanto um pedaço de pau.

[foto Reprodução Plos One]

AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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A notícia chegou numa carta dentro de um envelope verde e amarelo escrito via aérea/par avion e com vários selos da Ponte Presidente Costa e Silva, a Ponte Rio-Niterói inaugurada há alguns anos. Lá dentro, além das notícias da família, vieram alguns recortes da revista Veja, cheia de diabinhos por todos os lados. Custei a entender que diabos eram aqueles espalhados pelas páginas de Veja. Era um protesto contra a censura, vim a saber ao ler as últimas linhas da carta do meu irmão.

Além dos recortes e das notícias, a fotografia do primeiro sobrinho que havia nascido e eu ainda não tinha visto sua carinha. Era uma fotografia em preto e branco, ele no colo do meu pai, ambos sorrindo. Pelo ambiente, imaginei que aquela chapa tinha sido feita ainda no hospital.

Eu e meu irmão resolvemos numerar as cartas para o nosso controle e para termos certeza de que nenhuma estava se perdendo nas garras dos censores do regime militar de plantão. Nessa carta, um pequeno recorte, pela tipologia, acredito eu, do Jornal do Brasil, informava que Geraldo Vandré estava fora do país, e que, depois de algumas andanças pelos campos da Bélgica, chegara a Paris. Isso significava que ele estava perto de mim.

Não era mais aquele Vandré de violão em punho, blusa vermelha sem gola, cantando Pra não dizer que não falei das flores. A nota não dizia se ele havia fugido ou fora expulso do país. Hoje, Geraldo Vandré era uma figura com uma cara amargurada, uma barba grande e cabelos nos ombros. A fotografia mostrava Vandré com um casaco de pele marrom, à beira de um jardim muito lindo, passando a mão no cabelo como se fosse um Che Guevara.

Quando pensei em caminhar pelas ruas de Paris à procura de Vandré, soube que ele não estava mais ali. Depois de uma temporada no Chile socialista de Salvador Allende, ele havia voado para Paris e em seguida para a Bélgica. Comprou um carro velho e tinha saído sem rumo procurando Marinela, uma cantora grega que se apresentou no mesmo festival em que ele cantou Caminhando. Marinela era encantadora, cantava em francês, e lá se foi o nosso compositor atrás dela. França, Bélgica, Itália, chegou à Grécia, cruzando até mesmo a Iugoslávia do marechal Tito, e nada de Marinela.

Os meus amigos gostavam de mandar notícias de Geraldo Vandré porque sabiam que eu me encantava com aquele enigma da música popular brasileira. A notícia de que ele havia voltado para o Brasil chegou em outra carta, alguns dias depois. Um recorte do JB dizia que ele tinha sido preso e encaminhado ao Exército para prestar depoimento. De noite, apareceu na televisão dizendo que não considerava sua música de protesto e que o seu negócio era fazer músicas de amor. Geraldo Vandré era outro homem.

Caminhando e cantando, lá fui eu refazer os passos de Vandré em Paris. Entrei em pequenas casas de show no Quartier Latin e fui parar na Igreja de Saint-Germain-des-Prés, onde soube que ele encenara um espetáculo chamado La passion brésilienne, numa época em que ainda não havia Paris para mim.

Olhava aqueles bancos de madeira maciça, os vitrais, o altar, sentia o cheiro de vela e incenso, e não conseguia enxergar ali o Vandré de blusa vermelha cantando “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, nem mesmo o Vandré de casaco marrom, o retrato de Che Guevara.

Foi ali perto, numa esquina, no subsolo de uma loja chamada Raoul Vidal, onde procurava toda semana os raros discos brasileiros que chegavam em Paris, que encontrei Das Terras de Benvirá. O rosto de Vandré dentro de uma gota d’água me encheu de melancolia. Paguei uma fortuna por aquele disco importado e fui pra casa.

Não tinha nada gravado de Vandré nas minhas fitas já gastas e escorregadias. Mas agora tinha um disco de vinil inteiro para ouvir.

“Não viemos por teu pranto/Nem viemos pra chorar/Viemos ao teu encontro/E estamos no teu altar/Por seguir nosso caminho/Que é também teu caminhar/Na força do teu carinho/Esperamos nos salvar.”

A voz amargurada e sofrida de Geraldo Vandré logo na primeira faixa me fez pensar no tempo em que já estava fora do país, contentando-me com as críticas das revistas Rock & Folk e da Best. Notícias de David Bowie, Bob Dylan, Pink Floyd, The Who, do beatle John, longe de Yoko, cantando Be-bop-a-lula, Peggy Sue, Do you wanna dance e Stand by me. Me contentando com aquelas duas revistas que comprava todos os meses para, quem sabe, um dia, ter notícias da música do meu país.

Sim, um dia tive. Notícias de Egberto Gismonti lançando Dança das Cabeças, com uma enigmática foto na capa de um pano de chão dependurado numa janela, na mesma loja em que comprei o vinil de Vandré.

Matou a minha saudade o som do berimbau de Naná Vasconcelos. Ouvi Quarto mundo, Águas luminosas, Bambuzal, mas foi Fé cega, faca amolada que me levou de volta às montanhas de Minas Gerais, ao pão de queijo, à vaca atolada, ao Mate Couro e ao Guarapan.

Às vezes eu acordava no meio da noite e, na cama, ficava pensando de que adiantava eu ter notícias de Serge Gainsbourg, Michael Sardou, Jacques Higelin ou Charlélie Couture, se eu queria saber quem era Belchior, Robertinho de Recife, Ednardo, Alceu Valença, Geraldinho Azevedo, Sirlan, Zé Ramalho, Olivia Byington e Renato Teixeira?

Lia e relia as críticas que chegavam em pedaços recortados da revista Veja e me perguntava todos os dias: Como será a voz de Belchior?

De que adiantava eu me acalmar com as canções de Leonard Cohen ou dançar o rock francês do Télévision, de Les Rita Mitsouko e do Odeurs? De que adiantava passar na porta da boate Balajo e ouvir aquele som latino, se os punks estavam invadindo Londres e era para lá que eu queria ir agora?

[Segunda-feira que vem: Capítulo 17 – London Calling!]

BONJOUR!

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A semana começa com a imagem de um bistrô no Quartier Latin, em Paris, cheio de clientes. Enquanto uns almoçam, uma moça lê a manchete de página, ainda sobre o horror que aconteceu na cidade naquela sexta, 13 de novembro.

A LEITURA DO DOMINGO

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Comecei a ler o livro “Operação Impensável”, de Vanessa Barbara, assim que terminei de ler a contracapa: “Seriam cinco anos juntos, três gatos e duas tartarugas, um tabuleiro de Twilight Struggle”, paredes forradas de livros, um quebra-cabeça inacabado, um casamento, um divórcio e um abismo. Tito jurou que iria me amar, honrar e respeitar até que um de nós matasse o outro por intoxicação alimentar ou fosse atingido por um bólido de uma fruta-pão. (Ambas as alternativas estiveram próximas de acontecer e teriam sido preferíveis aos que acabou ocorrendo.)” Não parei mais, fui até o fim, quase que num gole só. Adorei o livro e recomendo.

[Operação Impensável – Vanessa Barbara – Intrínseca – 224 páginas – 39.90 reais]

UM CHEIRO DE GOIABA

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Eu estava na fila do caixa com o livro Une Odeur de Goyave nas mãos, quando ouvi o estrondo que fez tremer o chão. Um estrondo seco, assustador. A caixa da Fnac Rennes, em Paris, perguntou para sua colega ao lado o que se passava. Ela não sabia, ninguém sabia.

Não houve pânico, algumas pessoas abriram os olhos além do normal, outras desistiram das compras, deixaram os discos e livros por ali mesmo, e saíram – literalmente – à francesa.

Paris já tinha sofrido treze atentados nos últimos tempos mas, confesso, não passou por minha cabeça que aquele estrondo que ouvi na livraria poderia ter sido o décimo-quarto. Até que sirenes começaram a soar, uma, duas, umas dez. Alguma coisa tinha acontecido.

Só quando coloquei os pés na calçada já com algumas folhas secas no chão, naquele final de verão, que me dei conta do que tinha acontecido. A Rue de Rennes já estava fechada, ninguém entrava, ninguém saia. As luzes das sirenes giravam frenéticas e as camionetes do Samu estavam com as portas abertas, já recebendo feridos.

Não havia celular, internet, não havia WhatsApp que nos desse notícias do que se passava. O boca a boca corria.

Atentado!

Atentado!

Aos poucos, fomos sabendo das coisas. Dois homens passaram num velho BMW e jogaram uma bomba na multidão que se aglomerava na porta da Tati, a loja mais popular de Paris, aproveitando a liquidação anunciada na véspera.

Em alguns minutos já sabia que cinco pessoas foram mortas na hora, ali na calçada, uma corria risco de vida dentro de uma das camionetes do Samu e dezenas estavam feridas.

Captura de Tela 2015-11-16 as 17.32.49.pngNão demorou muito o Comitê de Solidariedade com os Prisioneiros Políticos Árabes reivindicou a chacina. Eles vinham anunciando um Setembro Negro para Paris e exigindo, nos últimos dias, a libertação de três terroristas presos na França: Anis Naccache, Georges Ibrahim Abdallah e Varadian Garbidian.

Era uma quarta-feira, 17 de setembro de 1986.

Depois de devidamente revistado dos pés à cabeça e liberado, fui caminhando pela Rue de Rennes no sentido do Boulevard Saint Germain, muito assustado. Apressei o passo para chegar até o hotelzinho onde estava hospedado e pouco tempo depois, estava no Boulevard Pasteur.

No hotel, vi pela televisão as primeiras imagens da tragédia. Flashes entravam de minuto em minuto e as imagens eram assustadoras. A Fnac era a vizinha mais próxima da Tati e por isso tremeu.

Tinha ainda uns vinte dias de férias pela frente e, sentado na cama do Hotel Innova, comecei a refletir o que faria naquele momento e nos próximos dias.

Como sairia nas ruas para flanar o dia todo, como sempre faço quando vou à cidade onde morei durante quase uma década e a que mais gosto de todas elas?

Não teria coragem de entrar no metrô, de parar numa banca de jornal, de visitar um museu, de ir ao cinema, de ir jantar no Chartier.

Na manhã seguinte fui a uma agência da Nouvelles Frontières para decidir o meu destino. Encontrei uma passagem barata e é pra lá que eu vou. Próxima parada: Istambul! Voei para a cidade que conhecera e apaixonara nos meus tempos hippie.

Instalado num hotel vagabundo no centro de Istambul, fui surpreendido por um comboio de ambulâncias que passava lá embaixo desviando dos carros, das motocicletas e dos pedestres, a 120 por hora.

Com o meu inglês ruim e o meu turco nota zero, desci até a portaria do hotelzinho para saber o que se passava. O senhor apenas fazia alguns gestos que pareciam rajadas de metralhadoras.

Só no dia seguinte que soube da notícia, ao ler num jornal francês. Um fanático entrou numa das mesquitas da cidade disparando e matando 17 pessoas.

Paguei a diária e fui para a rodoviária, um lugar que tinha apenas uma pequena casa e muita poeira. Comprei uma passagem para Kaymakli, uma cidadezinha na capadócia, na certeza de que estava fugindo para o fim do mundo, longe das bombas e das rajadas de metralhadoras.

Lá passei quinze dias, sem rádio sem notícia das terras civilizadas. Tive tempo de sobra para ler Une Odeur de Goyave, uma longa entrevista que Gabriel Garcia Márquez deu ao jornalista Plinio Mendoza, e reler Cem Anos de Solidão.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.carta capital.com.br