JE T’AIME!

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PARIS 31 DEZEMBRO 15 QUINTA

São coisas simples, mas que gosto de sair andando por Paris e…

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Encontrar uma cidade com cara de cidade do interior

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Andar pelas ciclovias gastas pelo tempo

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Fotografar a Torre Eifell de um ângulo novo

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Saber que a Prefeitura dispõe lugares para as pessoas reciclarem árvores de Natal

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Sair de uma estação de metrô e dar de cara com um prédio assim

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Saber que um irlandês passou por aqui e colou um adesivo contra as usinas nucleares

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Ver que, debaixo de uma cadeira de um café, tem uma bolsa com os dizeres: Liberté Egalité Beyoncé

[fotos Alberto Villas]

LEMBRANDO: 89 DIAS E CUNHA CONTINUA SOLTO

 

 

 

 

 

 



SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

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PARIS 29 DEZEMBRO 15 TERÇA

Em janeiro de 1974, quando pisei em Paris pela primeira vez, lembro-me bem que fazia um frio descomunal na estação de trem de Austerlitz. Lembro-me bem de outras coisas também: Eu não falava sequer merci, as pessoas estavam todas de casacos pretos, inclusive Sãozinha, que me recebeu de braços abertos. Tomamos um chocolate quente ali mesmo, acompanhado de um croissant, o primeiro, o mais gostoso do planeta. Sãozinha me levou direto para o quarto onde morava, no número 4 da Rue Paillet, sétimo andar. Era um quarto quatro por quatro que me coube, por incrível que pareça. Foi nesse endereço que passei os primeiros dias, meses da minha longa temporada por aqui. Dei um jeito de acomodar as minhas coisas naquele pequeno espaço que, lembro-me bem também, tinha vista para a torre Eiffel, lá longe. Sãozinha me ensinou todos os truques da cidade. Como fazer para tomar banho em algum lugar, já que aquele quarto era um quarto muito engraçado, não tinha chuveiro, não tinha nada. Ela me ensinou o caminho da Aliança Francesa – era só atravessar o Jardin du Luxembourg inteiro – e foi lá que aprendi o primeiro merci, o primeiro bonjour, o primeiro au revoir. O meu primeiro emprego em Paris foi ali mesmo naquele prédio na Rue Paillet, no segundo andar. Acordava às seis da manhã, descia a escada e despertava duas menininhas – Celine e Elodie – que tinham hora marcada para ir pra escola. Os pais cineastas trabalhavam até altas horas e não tinham como acordar às seis da manhã, escuro ainda, para colocar as filhas pra escola. Foi com elas, mais do que com a Aliança Francesa, que comecei a engatinhar no francês. Elas se divertiam com o meu sotaque falando pain, chocolat, lait, l’eau, essas coisas. Ela corrigiam uma, duas, várias vezes. Foi com elas que aprendi a falar ganso, pra mim tão difícil: Oie! Foi com elas que aprendi a diferença da pronúncia de Áustria e Avestruz: Autriche e autruche. Toda vez que venho a Paris, volto na Rue Paillet e acabo fazendo uma foto. Sempre vou lá conferir na portaria se o sobrenome delas – Saunier – está na lista dos moradores. Sim, está. Sei que Celine e Elodie viraram duas mulheres formidáveis. Me escreveram uma carta emocionada outro dia e colocaram no envelope uma fotografia em branco e preto, eu cuidando delas numa praia no interior da França. Dessa vez – e mais uma vez – o sobrenome delas estava lá. Se antigamente era um papelzinho, uma pequena etiqueta escrita à mão, agora está iluminado pela modernidade da tecnologia, ali na parede do prédio de número 4 da Rue Paillet. E como dói.

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[fotos Alberto Villas/Maria Clara Villas]

LEMBRANDO: 87 DIAS E CUNHA CONTINUA SOLTO


QUE CIDADE É ESTA?

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…em que ônibus circulam a 30 quilômetros por hora, em perfeita harmonia com as bicicletas?

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… em que alguém anda colando porta-retratos com fotos de crianças nos muros?

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… em que uma pessoa passou por aqui e colou um adesivo com o rosto de Djavan, o mesmo estampado na capa do seu primeiro disco, Alumbramento?

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… em que um cisne passeia tranquilamente nas águas do rio despolido que cruza a metrópole?

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… em que cartazes anunciando espetáculos de música clássica, ópera, jazz e gospel, estão colados nos muros por toda parte?

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… em que a street-art virou uma exposição a céu aberto?

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… em que as árvores, firmes e fortes, sem folhas, resistem a uma estação inteira e só vão ficar verdes quando a primavera chegar?

PARIS 28 DEZEMBRO 15 SEGUNDA

[fotos Alberto Villas]

LEMBRANDO: 86 DIAS E CUNHA CONTINUA SOLTO!


CLIQUES

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PARIS 27 DEZEMBRO 15 DOMINGO

Alguns cliques da cidade:

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ASSINO EMBAIXO. Alguém passou por aqui e deixou claro: Palestina viverá!!!

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CENA RARA. Homem lendo livro de papel no metrô.

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A CARA DE PARIS. A padaria da esquina.

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TEMPO TEMPO TEMPO. O cartaz sobrevive na parede, desde julho.

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ARQUITETURA. A nova Philarmonie de Paris.

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GÊNIO. Na Philarmonie, 300 obras de Marc Chagall.

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ARTE NA RUA. Ao ar livre, numa rua de Belleville.

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POESIA. Um muro do Marais.

[fotos Alberto Villas]

LEMBRANDO: 85 DIAS E CUNHA CONTINUA SOLTO

 

 

 

 

 


E A VIDA CONTINUA…

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PARIS 26 DEZEMBRO 15 SÁBADO

“e a vida continua…
esse é um dito que todo mundo proclama
o consolo dos aflitos
e a desilusao de quem ama”

(Paulinho da Viola)

Como uma cidade sobrevive a uma tragédia, a um pesadelo? É o que nos perguntamos todos os dias aqui, assim que colocamos os pés do lado de fora da pesada porta que protege o nosso apartamento na Rue de Turenne. A cidade circula, as pessoas entram e saem das padarias, estão sentadas nas cadeiras – cada uma diferente da outra – nas calçadas, tomando um drink, um café ou simplesmente uma água Perrier. No metrô, continuam conferindo nos luminosos dentro dos trens, as próximas estações, aquela em que vão descer. Ninguém mais lê jornal de papel como antigamente, como no tempo em que aqui estive lavando panelas, construindo autoestradas e estudando jornalismo. Os olhos agora estão voltados pro smartphone, com as mais variadas capinhas. Vai da cerveja 1664 a Hello Kity. Passeando pelas charmosas ruas do Marais, observamos os delicados grafites nas paredes, como se nada tivesse acontecido aqui há um mês e tanto, quase dois.

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Nas bancas de jornais, as revistas ocupam menos espaço mas continuam maravilhosas. Os melhores jornais do mundo, enfileirados um ao lado do outro: El País, La Repubblica, Süddeutsche Zeitung, Público, The Gardian. Comprar o Libération logo cedo, fresquinho, é um grande prazer. Quando, nós brasileiros,  teremos Darwin na manchete?

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Quando teremos Chagall ocupando um quarto da primeira página, a exposição que pretendemos ir hoje, na Philarmonie?

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Andar por essa cidade hoje é o nosso sonho, não simplesmente porque hoje é sábado. Andar por Paris é sempre uma surpresa a cada rua, a cada esquina, a cada parque. Quem poderia imaginar que encontraríamos, assim um pato tão exótico, em pleno jardim de uma cidade luz?

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Amanhã, quem sabe, eu conto do prazer que é percorrer todo o Sena, parando em cada banquinha de buquinista? Encontrar nessas banquinhas verde musgo, aquela velhas revistas dos anos 70 – Pilote, Actuel, Charlie Mensuel, Le Sauvage – e livros, alguns a preço de banana, como esse que comprei hoje: Chroniques de Jazz, de Boris Vian, por apenas 5 euros. Amanhã tem mais.

[fotos Alberto Villas]

Lembrando: 84 dias e Cunha continua solto

 

 

 

 



PÃO FRANCÊS

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Não existe pão melhor no mundo que esse vendido aqui nas padarias. O primeiro pão francês a gente nunca esquece. Dá vontade de comer puro, caminhando pra casa. O cheiro de cada padaria, a pequena fila que sempre existe, os pãezinhos na vitrine são de comer de joelho. Pain au raisin, pain au chocolate, croissant au beurre, chausson au pomme ou a irresistível baguete. A qualidade da farinha é controlada pelo governo e o padeiro aqui parece que fez doutorado na Sorbonne das massas. O dia começa sempre assim, com um manjar dos deuses.

Antes do dia  clarear, uma surpresa via e-mail. A capa da edição do final de ano da revista Carta Capital, que ajudei a fazer. 2015 foi um ano que a gente riu, pra não chorar.

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O Museu Quai Branly, que está prestes a fazer dez anos, foi nossa primeira parada do dia. O Museu das Artes e Civilizações da África, Ásia, Oceania e Américas, é cercado de verde por todos os lados, uma arquitetura inesperada no coração do VII quarteirão.

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Uma pausa pra um cafezinho na lanchonete moderninha do museu, onde o chefe já nos propunha o almoço.

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Pertinho dali, o MAM e o Palais de Tokyo nos esperavam. No MAM, uma grande exposição mostrava o Andy Warhol pintor, performático, cineasta, animador cultural e produtor de uma banda que entrou para a história: Velvet Underground. Uma sala inteira dedicada ao Mao.

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O Palais de Tokyo é uma visita sempre recomendável e inesquecível. Em cartaz, I Love John Giorno, o poeta ligado aos beatniks. Almoço no EAT. Lembrei de Bela Gil quando vi a folha de bananeira embrulhando o meu frango caramelado.

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Na saída, veio à cabeça o Museu da Língua Portuguesa nessa quarta-feira de cinzas, quando vi no chão do estacionamento os lugares reservados aos caminhões de bombeiros, em caso de incêndio.

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Paris é sair caminhando, caminhando, sempre um colírio para os olhos. Alguns policiais em algumas esquinas. Todo lugar que entramos, somos obrigados a abrir bolsas e mochilas. Com detector de metais nas mãos, os seguranças agradecem e nos desejam um bom dia. Uma parada na Sheakspeare & Company, que agora tem um café mas que, pena, fecha às seis e meia da tarde. Na vitrine, Barba Ensopada de Sangue, do Daniel Galera, que ainda não li mas que minha filha amou.

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No caminho para casa tinha um Serge Gainsbourg grafitado, tinha um Serge Gainsbourg grafitado no meio do caminho. Sou apaixado por ele não é de hoje. Lá nos anos 1970, engatinhando na língua francesa, me intrigava uma canção que fez – talvez a que eu mais goste – chamada “Eu vim pra te dizer que estou indo embora”.

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Percorremos toda a Rue du Bac com suas lojas maravilhosas. Paramos na Igreja da Medalha Milagrosa, onde uma freira dava uma bronca numa jovem que já ia entrando e falando ao celular: “Já pra rua. Aqui é a casa de Deus, aqui não é lugar de conversar ao telefone!” A mocinha foi saindo – literalmente – à francesa. Ao lado da Igreja, La Grande Épicerie, um dos supermercados mais deslumbrantes do mundo. Impossível entrar nesse 23 de dezembro.

Noite de vinho & papo em casa. Ao som de Stan Getz e João Gilberto, um disco raro relançado aqui, ao preço de 7 euros.

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O tempo continua bom. Chegamos a ver pessoas de manga de camisa e bermuda na rua, em pleno dezembro de solzinho e céu azul, a grande surpresa do ano para os franceses. Amanhã tem mais.

Lembrando: 82 dias e Eduardo Cunha solto!

[fotos Alberto Villas]


CHICO BUARQUE DE PARIS

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PARIS 23 DEZEMBRO 15 TERÇA

Sempre que viemos por aqui, procuramos Chico Buarque pela cidade. Principalmente quando cruzamos a Île de Saint Louis, onde sabemos que ele tem um apartamento. Espiamos dentro dos cafés, dos restaurantes, nas bancas de jornal, nas pequenas floriculturas, confesso que a gente procura Chico por todos os cantos. Nunca o vimos. Bobagem procurá-lo por aqui. Hoje soubemos que o compositor de Construção está sendo xingado na República do Leblon. Fica aqui o recado: Já que estão te mandando, vem pra cá, Chico. Você vai ser recebido de braços abertos.

Nossa primeira parada hoje foi na Fondation Cartier, onde vimos uma exposição maravilhosa de artistas do Congo, que eu continuo chamando de Congo Belga. Os quadros, alguns quase naifs, nos encheram de vontade de conhecer a África, tão colorida, tão sofrida. A alegria estampada nas obras nos deram força. Ver Obama e Mandela dançando juntos, por exemplo.

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Antes de sair, um clique na japonesinha querendo rabiscar no seu caderninho, a imagem da África que ela vê na parede.

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Caminhar, caminhar. No Jardin du Luxembourg, já sem flores, mas sempre lindo, as pessoas aproveitam os últimos raios de sol se despedindo de uma estação para entrar em outra, mais rigorosa. Um pitstop na Igreja de Saint Germain dês Près é sempre bom pra alma. Me impressiona a Paris que não muda nunca. A Librairie Polonaise continua lá no Bulevar Saint Germain com seus livros nas vitrines, rodeados de galinhas d’Angola. Do mesmo jeitinho que nos anos 1970, quando aqui estive como se ter vindo fosse necessário para voltar.

Uma passagem pela Fnac Rennes. A versão de Dois Irmãos, de Milton Hatoun, está na vitrine.Captura de Tela 2015-12-22 às 18.52.10

A surpresa maior foi encontrar um disco de vinil raríssimo de João do Vale. Não tem preço, foi pra sacola.

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Bem como um CD de Vinicius Cantuária cantando Tom Jobim, saindo do forno.

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A cidade está cheia de avisos para ficarmos sempre alertas. Mas todos resistindo aos terroristas. Vamos ao cinema! Vamos dar vida a cidade! Vamos ao teatro! dizem os cartazes espalhados por todos os cantos de Paris.

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Se no metrô de São Paulo os avisos são de “Mantenha a direita livre”, por aqui os avisos nas faixas de pedestres dizem “Perigo à esquerda”… hehe!

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Um fim de noite emocionante. Jantamos no Madonina, um pequeno e charmoso restaurante italiano, perto do Le Petit Cambodge, palco do massacre do 13 de novembro. O garçon nos conta com detalhes como foi aquela noite, em que encurralou todos os clientes no fundo do restaurante, esperando as rajadas de metralhadora pararem. Um pânico generalizado. Ele conta que desde aquela sexta-feira, o seu restaurante nunca mais foi o mesmo. Tem dias que enche, tem dias que está vazio. Mas não sentimos medo no ar. Apenas uma angústia muito forte com tantas flores e velas e mensagens por ali.

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Na Place de la Republique, o monumento foi tomado por velas, muitas acesas, outras apagadas pelo vento e pelo tempo. Sempre tem alguém acendendo uma vela na Place de la Republique.

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Noite em casa. Ouvindo Vinicius Cantuária cantando “tristeza não tem fim/felicidade sim”. Amanhã tem mais.

[fotos Alberto Villas]

 


PARIS 12 GRAUS

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PARIS 21 DEZEMBRO 15 SEGUNDA

Doze graus é uma temperatura surpreendente para o inverno que bate à porta anunciando que é o frio. O céu que nos protege chega a ter lances de azul, apesar de mil tons de cinza. O primeiro passeio foi na Placê des Voges, como se estivéssemos pingando colírio nos olhos. Foi aqui que as hoje moas feitas brincaram crianças no banco de areia. Foi aqui que os filhos mais velhos entraram nas fontes de água e receberam apitos estridentes de guardinhas sempre alertas. A praça continua linda. Captura de Tela 2015-12-21 às 20.47.05

Andar meio se perdendo pelas ruas de Paris é o prazer. As filas são enormes nessa cidade às vésperas do Natal. Na Fnac Les Halles são mais de 30 pessoas carregadas de livros e discos nas filhas. Dá desânimo entras numa delas para pagar o novo CD da Laurie Anderson e um exemplar da extraordinária revista Câmera. Fica pra próxima. Vamos enfrentar a filha do Beugoug, onde a fila quase dobra a esquina. Além do acervo maravilhoso, temos três exposições que queremos ver: O cubano Wilfredo Lam, Anselm Kiefer e a cartunista Claire Bretécher, que adoro. Os seus personagens Les Frustrés (Os Frustrados) ocupavam uma página inteira na revista Le Novel Observateur, levantando questões existenciais. Sofria com os frustrados no feminismo, nas relações do casal, na vida solo das mulheres de peito. Ali revi capas de revistas que comprava quando aqui vim parar: Le Sauvage, F Magazine, Echo dês Savanas, Pilote, essas. Fotografei obras que não conhecia.

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Fotografei os globos de Thomas Hirschhorn…

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.. e as latas enferrujadas e iluminadas de Chistian B.

O almoço foi no Marie Stuart na Rue Montorgueil, um dos calçadões mais simpáticos da cidade. Andar, andar. Os muros da cidade estão cheio de grafites, cheio de palavras de ordem.

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As bancas de jornais, deferentemente do Brasil, ainda estão cheias de jornais e revistas, principalmente revistas. Novas, grossas, volumosas, cheias de propagandas. Anúncio da Sephora de página inteira no L’equipe, o Lance daqui. No final da tarde, 4 horas, já fazendo noite, chove lá fora. Aquela chuva bem a cara da cidade. Dura um tempo e passa. Supermercado, para comprar coisas pro jantar. O prato do dia hoje é uma especialidade minha. Arroz e vitela com cogumelos. Modéstia à parte, acho que passaria pra segunda fase do MasterChef. Para tudo! Um minuto para tomar uma Fanta Framboesa. Quem é viciado em Fanta não poderia perder essas.

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Quando a noite caiu e abrimos o computador, só tristeza ao ver o Museu da Língua Portuguesa em chamas. O que diria Câmara Cascudo, em exposição lá. Vontade de chorar.  A última vez que fui lá foi com o Marcelo Dantas, véspera de Copa do Mundo. Sai de lá, mais uma vez, orgulhoso de morar numa cidade com um museu assim. Agora, só vontade de chorar. Amanhã tem mais.

[fotos Alberto Villas]

 


A CIDADE PULSA

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PARIS 19 DEZEMBRO 15 DOMINGO

No caminho de casa para o aeroporto de Guarulhos, chovia canivetes. O motorista Adriano não se intimidou com o toró e, em poucos minutos, estávamos no aeroporto, prontos pra pegar o primeiro avião com destino a felicidade.

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O voo da Air France saiu com uma hora de atraso porque tiveram que deslocar nove poltronas, no fundo da aeronave, para instalar uma maca que transportaria uma paciente de São Paulo até Paris, em quase doze horas de voo. Depois de muita turbulência na madrugadas, meio-dia e meio chegamos aqui. Um aeroporto Charles De Gaulle sossegado nesse domingo, o último antes do Natal. Nenhuma polícia nos corredores ou nos saguões. Apenas a Federal, que olhou para a nossa cara, para a foto do passaporte, carimbou e deu um bonjour. As malas chegaram sem problema e, confesso, ficamos procurando os policiais armados até os dentes que imaginávamos estarem à postos a cada metro de aeroporto. Nada disso. A vida seguia. Em menos de uma hora estávamos instalados num pequeno apartamento no Marais, um dos bairros mais charmosos dessa cidade. O primeiro dia foi de reconhecimento de terreno. A cidade fervendo de gente, o comércio aberto, as luzes da cidade piscando. Os franceses deram a volta por cima, deixaram pra trás o 13 de novembro, aquela sexta-feira certamente inesquecível dentro de cada morador dessa cidade. Sentimos que a vida continua e a resposta aos terroristas foi deixar a cidade viver o seu cotidiano. Os cafés transbordando, os restaurantes animados, os músicos de jazz espalhados pela Ile de Saint Louis, crianças com balões coloridos, aquele charme de ver um casal apaixonado tomando um drink, acompanhado de uma Perrier borbulhante em cima de mesinhas minúsculas. nas calçadas Fim de tarde de quase inverno oficial, as luzes amareladas começaram a acender, lembrando aquelas cenas de Meia-Noite em Paris. O primeiro grafite numa rua me chamou a atenção.

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Sim. Haute Couture is Dead. O que significa isto? A noite caiu. Num outro muro, o retrato em branco e preto de Frank Sinatra anunciava uma homenagem ao centenário. Uma entre as quinhentas exposições da cidade.

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Cansaço. Noite em casa, recuperar as forças para os próximos dias. Paris não tem jornais no domingo. Procurei o El País e não encontrei bancas abertas. Abrir o computador e fui ler, na capa do Segundo Caderno do Globo, o encontro entre Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé. Puro tropicalismo, entre palmeiras, bananeiras e juritis.

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Quem não leu, vale a pena ler. Dormir tranquilo o sono dos justos, a dez mil quilômetros do Lava-Jato, foi um alívio. Amanhã tem mais.

[fotos Alberto Villas]

LEMBRANDO: 79 DIAS E CUNHA SOLTO









O BISBILHOTEIRO DE BIBLIOTECAS

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O primeiro livro que comprei na vida, nunca me esqueci. Era menino ainda quando entrei na Livraria Amadeu, na rua Tamoios, no centro de Belo Horizonte e sai de lá com aquele livrinho de 148 páginas, embrulhado num papel que parecia papel de pão. VooNoturno, de Antoine de Saint-Exupéry, publicado pela Difusão Europeia do Livro, tinha uma capa azul e branca, meio modernista. Uma joia que despertou a minha atenção porque sonhava em ser aviador, antes de sonhar em ser piloto de Fórmula 1, logo eu que, tantos anos depois, sequer sei ligar um automóvel.

Com muito capricho, escrevi o meu nome na página 7, a do prefácio assinado por André Gide, e registrei: Livro número 001. Tinha certeza que, na minha vida, compraria muitos e muitos livros, uns cem. Era o meu sonho ter uma casa forrada de livros por todos os lados.

A minha, naquela época, não tinha muitos. No escritório do meu pai, ele guardava na estante, muitos compêndios técnicos sobre meteorologia, sua profissão, e algumas enciclopédias: O Tesouro da Juventude, oMundo da Criança, a Delta Larousse e uma, com apenas dois volumes: Como CriarMeninos e Como Criar Meninas.

Um dia perguntei ao meu pai porque ele não comprava a Enciclopédia Britânica, aquela com a lombada gravada em ouro, meu sonho de consumo de menino. Ele disse que era muito cara e eu entendi perfeitamente que criar cinco filhos e ainda comprar uma Enciclopédia Britânica em 30 volumes, não dava mesmo.

Depois de me apaixonar com as aventuras do piloto Fabien do Voo Noturno, parti pro segundo livro, A Filha do Diretor do Circo, que o meu pai tinha, escondido, na sua pequena biblioteca. O livro era meio esquisito porque veio com as páginas coladas e minha mãe teve de abrir, uma a uma com a faca. Nunca mais parei de ler livros.

Jornalista formado, toda casa que ia – e ainda vou – entrevistar pessoas, adoro quando vejo uma estante cheia de livros. Outro dia mesmo fui na casa do Marcelo Dantas e fiquei encantado com a biblioteca que ele tem na cozinha, transbordando de livros de culinária:Nobu, the cookbookPeru, uma aventura culináriaÀ mesa com Burle MarxO livro essencial da cozinha vegetarianaSaltedWok e muitas outras preciosidades.

Curioso que sou, hoje sempre fotografo com o meu smartphone as bibliotecas dos outros. Adoro ver fotos nos jornais e revistas, em que as pessoas posam na frente de uma estante. Foi assim que descobri um livro meu – O Mundo Acabou – na casa do escritor Moacyr Scliar.

Outro dia, fui ver o filme Que horas elas volta? pela segunda vez, só pra descobrir que livro era aquele que a Jessica se interessou, quando viu a estante do patrão da sua mãe, a Val. Foi prestando muita atenção que tive certeza se tratar de Viva o Povo Brasileiro, do João Ubaldo Ribeiro.

O filme Chico, um Artista Brasileiro, também já vi duas vezes, só pra bisbilhotar a biblioteca do compositor de Vai Passar. O lance é muito rápido mas deu pra ver que Chico tem na casa dele, além do volumoso Dicionário Houaiss, os dois volumes da Mitologia do Kaos, um total de 1.304 páginas que reúne a obra do compositor Jorge Mautner, aquele do Maracatu Atômico, do Samba Japonês e do Me segura que eu vou dar um troço.

Bisbilhotar bibliotecas é bom por isso. Eu nunca poderia imaginar que o filho do Sergio Buarque de Hollanda guardava em casa, escritos de Mautner, como esse:

“Minha missão é a de acordar as pessoas. Pouco a pouco vou virando cada vez mais pregador do que escritor. Na conversa confessional, tudo é diferente e propício! O momento existencial inescapável, as mudanças da face com quem se fala, a respiração, a noite ou o dia que nos envolve”.

[O cronista está saindo de férias mas promete voltar no dia 8 de janeiro com boas histórias]

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br


MORO NO MONDE

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A edição de hoje do jornal francês Le Monde publica um perfil de página inteira do juiz Sérgio Moro. O jornal diz que o temível juiz é “uma pessoa perigosa e em perigo”. Segundo o Monde, ele é o “Eliot Ness brasileiro”. O Wikipédia diz que Ness “foi um agente do Tesouro Americano conhecido como um detetive insano”.