QUARTA-FEIRA DE CINZAS

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O jornal de manhã chega cedo
Mas não traz o que eu quero saber
As notícias que leio conheço
Já sabia antes mesmo de ler

(Gilberto Gil, 1968, em Domingou)

Os anos 70 ainda não tinham chegado quando recebi o meu primeiro ordenado de carteira assinada. Eram 247 cruzeiros e nada mais. Na carteira, estava escrito que eu era Auxiliar de Agrônomo, funcionário CLT do Serviço de Defesa Vegetal do Ministério da Agricultura.

Eu trabalhava de guarda-pó (esse era o nome do jaleco), separando folhas bichadas de laranjeiras que seriam analisadas pelos Biólogos e Engenheiros Agrônomos do Ministério

O dia em que recebi o primeiro ordenado (esse é o nome do salário, em Minas), eu nunca vou esquecer. Primeiro, fui até o Mercado Central de Belo Horizonte, comprei uma caixa de morangos e comi inteira, sentado no meio-fio da Avenida Augusto de Lima.

Era um desejo, quase uma promessa. Os morangos custavam caro e eram divididos na minha casa, um pouquinho para cada filho. Eu sonhava em comer muitos, muitos, sem parar.

Segundo, fui até a Lojas Gomes, que ficava na avenida principal da cidade, a Afonso Pena, e comprei dois discos: O Álbum Branco e o Banquete dos Mendigos. Eu era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones.

Por fim, fui até a Praça Raul Soares e fiz uma assinatura semestral do Diário de Minas. O dinheiro era curto e não dava para uma assinatura anual. O meu pai assinava O Globo mas eu, naquela rebeldia toda, levava a sério o poema de Carlos Drummond e enfiei na cabeça que eu seria gauche na vida.

Não que o Diário de Minas fosse um jornal de esquerda, mas era bem diferente do Globoque o meu pai lia. Achei que ele era mais a minha cara, uma cara com uns óculos redondos de John Lennon, algumas espinhas e uma juba de leão.

O meu pai vivia martelando na nossa cabeça que tínhamos que ler jornal todo dia para ficarmos atualizado.Se alguém perguntasse quem foi o astronauta que pisou na lua pela primeira vez, por exemplo, a gente tinha de saber. E ficava sabendo lendo jornal. Essa era a filosofia do meu pai.

Fiquei todo orgulhoso quando abri a porta da minha casa e vi, no capacho, o primeiro Diário de Minas com o meu nome. Os jornais vinham com o nome dos assinantes lá em cima, perto do logotipo.

Nunca mais deixei de assinar jornal.Em Paris, mesmo nos anos de vacas magras, assinei oLe Monde, no primeiro dia que cheguei na faculdade e vi uma banquinha anunciando assinaturas pelas metade do preço para estudantes.

Quando a vida melhorou um pouco, quando parei de descascar batatas e fui promovido a caixa do restaurante Les Hauts de Belleville, assinei, além do Le Monde, o Libération e o Le Matin.

Três jornais? Sim, virou um vício. Eu não só lia como recortava as principais notícias. Umas iam pra pastas e outras eu enviava pro Brasil, em envelopes verde e amarelo.

Muitos anos depois, de volta ao Brasil, instalado em Higienópolis, fiz as contas e as assinaturas: Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo e o Jornal do Brasil, tamanho era o vício de Jornalista formado, ex-Auxiliar de Engenheiro Agrônomo.

Até hoje costumo acordar por volta das seis horas, quando ouço o elevador chegando no meu andar e o porteiro jogando o jornal no capacho.

Um jornal apenas, a Folha de S.Paulo. Sim, as assinaturas foram sendo canceladas assim que os anos foram passando. O Jornal do Brasil, porque acabou, o Estadão porque me irritei com as cartas dos leitores e O Globo por causa da coluna do Merval Pereira.

Folha resistiu bravamente até a semana passada, quando contratou Kim Kataguiri para ser colunista online.Dois dias depois que despachei o e-mail pedindo o cancelamento da minha assinatura, o telefone tocou.

Era da Folha de S.Paulo querendo saber porque eu iria cancelar uma assinatura que estava em vigor desde 1980. Expliquei que a gota d’água tinha nome: Kim. Fiquei exatos 78 minutos no telefone. Não teve jeito.

Depois dos 78 minutos, o funcionário da Folha desistiu e me passou o número do protocolo de cancelamento.

Avisou que vou receber o jornal até o dia 9 de fevereiro, que é quando termina minha assinatura. Olhei no calendário e vi que cai numa terça-feira de carnaval.

Isso significa que a partir da quarta-feira de cinzas, depois de 40 anos, eu não vou mais ouvir o elevador chegando no meu andar e o barulho do jornal sendo jogado no capacho.

Agora, se alguém me perguntar quem foi o astronauta que pisou pela primeira vez na Lua, vou responder na lata: Neil Alden Armstrong! Sei porque eu li, um dia, no Diário de Minas.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br

[foto Alberto Villas]

2 comentários em “QUARTA-FEIRA DE CINZAS

  1. Adorei a crônica e me identifiquei muito com seu texto. Ainda estudante de jornalismo só conseguia ler jornais do centro do país quando comprava nas bancas do centro de Porto Alegre pois na época ainda não havia assinatura disponível. Anos depois consegui e assinei a Folha por longos 24 anos apesar das mudanças e dos editoriais. No dia que fiquei sabendo da contratacão guri, cancelei minha assinatura direto da Praia do Rosa onde estava. Agora pensando em alternativas. Será que El País? Ou talvez Carta Capital? Abcs

  2. Compartilhei sua crônica, Villas, com o seguinte texto introdutório.
    Linda crônica do Alberto Villas, que retrata como parte da geração dos anos 70 aprendeu a entender o mundo por meio da leitura de bons jornais. As palavras de seu pai eram as do meu:” é preciso estar informado para entender o mundo em que você vive”. Quem leu, quem se informou , não consegue compactuar com a parcela de sua geração que vomita as besteiras transmitidas por uma imprensa rasa, sem lastro, que povoa as TVs, jornais e revistas de ampla circulação na atualidade. O mundo não é para iniciantes, amigos. É preciso ter lastro para saber e ser responsável pelo que se diz.

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