MEMÓRIA

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Em 1967, a extinta Editora Bloch colocava, todos os meses, uma revista mensal de cultura muito interessante chamada Enciclopédia Bloch. Era uma espécie de Superinteressante de hoje. No número de setembro, a revista fez uma longa reportagem anunciando que os tucanos estavam em extinção.

[foto Coleção Alberto Villas]



AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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Sempre gostei de listas, os melhores discos do ano, as melhores canções de todos os tempos, os melhores guitarristas, cantores, cantoras. Mas nunca tinha pensado em fazer uma lista de discos para levar para uma ilha deserta. A encomenda chegou através de um e-mail curto e grosso: “Você tem 30 dias para escolher um disco, apenas um, o disco que você levaria para uma ilha sem ninguém. Você tem toda liberdade para escrever o que quiser sobre ele”. Achei a ideia ótima, topei na hora. Mas, algumas horas depois, começou a minha angústia, a minha dor de cabeça.

Quando cheguei em casa, entrei no escritório e vi aquelas paredes cobertas de CDs, todos rigorosamente arrumados em ordem alfabética, me veio o primeiro frio na barriga. Como tinha 30 dias pela frente, me acalmei, e comecei a viajar. Que ilha seria essa? Uma ilha como aquela dos desenhos animados, com apenas alguns metros quadrados de areia? Ou seria aquela ilha do Carlos Estevão nas páginas da revista O Cruzeiro? Um coqueiro, um homem e uma sereia do lado?

Delirei. Pensei numa ilha paradisíaca com uma pousada dessas cor de tijolo, deslumbrante, com uma piscina azul, uma rede branca bordada no interior do Ceará, uma caipirinha de figo como a do Hotel Hyatt e um copo de água Perrier com uma rodela de limão siciliano, coisas assim. Isso sem contar com uma aparelhagem de som de última geração para ouvir o tal disco escolhido. Coloquei novamente os pés no chão e retomei a missão de escolher o disco que levaria para a tal ilha deserta.

A ordem alfabética dos meus discos é uma coisa curiosa, eclética e cheia de surpresas. Vai de A a Z, claro. De Abel Ferreira, o bamba do choro, a Zizi Possi. Ali convivem, na mais perfeita harmonia, Walter Franco ao lado de Wanderléa, Tom Zé ao lado de Tom Jobim. Djavan com Daúde, Adoniran Barbosa com Adriana Calcanhoto, Os Mulheres Negras com O Som da Pilantragem. Carlinhos Brown está pertinho do ex-sogro, Chico Buarque, que está ao lado de Chico César, Chico Maranhão e Chico Science. E Gonzaguinha está ao lado do pai, Gonzagão.

Na primeira fornada, escolhi uns 80. A missão agora era eliminar 79. Comecei a sentir uma dor no coração em deixar de fora Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Geraldinho Azevedo, Chico Maranhão. Como deixar de fora Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Edu Lobo, Tom Jobim e Haroldo Lobo, o compositor que escreveu “podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais”.

Acordava no meio da madrugada, angustiado com aquela lista infernal. Acrescentava um, mais um, e outro mais. A lista chegou a 110. Resumo da ópera: Tinha aumentado e agora era preciso eliminar 109.

Durante quinze dias, resolvi acordar bem cedinho e ouvir os finalistas, uma a uma. Apostava em um, separava, pesquisava, decidia. Até que, no dia seguinte, escolhia outro e ficava ainda mais cheio de dúvidas. E dessa maneira a tormenta foi tomando conta de mim. Impossível escolher um disco, apenas um, para levar para uma ilha deserta. Cheguei a desistir de embarcar. Preferi continuar vivendo aqui nesta cidade maluca com mais de 20 milhões de habitantes e todos os discos do mundo. Mas fui em frente.

Ouvi Zé Renato, Zé Ramalho, Zeca Baleiro e Zeca Pagodinho. Ouvi Naná Vasconcellos e Nana Caymmi, João Bosco e João Donato. Ouvi mano Décio da Viola, Jacob do Bandolim, Edu da Gaita e Jackson do Pandeiro. Ouvi Martinho da Vila, Paulo da Portela e Neguinho da Beija-Flor. Mas não cheguei ao disco que levaria para aquele lugar distante para passar o resto da minha vida.

Às vezes me perguntava: o que será que BNegão está fazendo ao lado de Bobby de Carlo? O que Paula Lima está ali fazendo encostada na Patife Band? E a Velha Guarda da Portela ao lado da Velha Guarda da Mangueira? Gostei de ver Arnaldo Dias Baptista ao lado de Arrigo Barnabé, e Rita Lee ao lado de Riachão.

Quando estava chegando ao disco escolhido, me cai nas mãos a revista Rolling Stone com a lista dos 500 melhores discos de todos os tempos. Foi aí que me lembrei de Bob Dylan, dos Mamas & Papas, do Clash, de Serge Gainsbourg, de Tom Waits, Alpha Blondy, de John, Paul, George e Ringo. Mas não pensei duas vezes, o disco que levaria comigo seria um disco de música popular brasileira.

De repente, caiu a ficha. Não tinha pensado nos discos clássicos que ocupavam toda uma estante, ao lado dos discos de jazz. Será que levaria comigo o Chopin, o Wagner, o Beethoven, o Stravinsky? Ou será que me acompanharia o Thelonius Monk, o Louis Armstrong ou o Miles Davis?

Numa dessas noites de insônia e tormenta, eu estava ali sentado no chão do escritório da minha casa quando, mais uma vez, a Marilia, minha filha que tinha 9 anos na época, entrou em ação. Ela ouviu o barulho, levantou da cama e, com a Camila, sua cavalinha de pelúcia de estimação na mão, perguntou:

– O que você está fazendo aí com essa pilha de CDs?

Disse que estava escolhendo um para levar para uma ilha deserta e só poderia ser um. Ela não perguntou onde ficava a ilha, nem que dia eu partiria mas deu uma sugestão na lata:

– Por que você não leva o Estamos Adorando Tokio, do Karnak?

[Semana que vem: Capítulo 28: ALL THAT JAZZ]

 





A LITERATURA DO DOMINGO

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No Brasil, quando se fala no escritor russo Vladimir Nabokov, o que vem logo à cabeça de todos é “Lolita”, o livro que fez sucesso – e ainda faz – no mundo inteiro. “Fala, Memória”, esta edição da Alfaguara, lançada no ano passado, é um verdadeiro autorretrato falado – ou melhor, escrito – de um dos grandes escritores do século XX. Nabokov reúne em textos, tudo o que se passa na sua cabeça, tudo que se passou. Memórias vividas e bordadas. Lembranças sutis, que começam no berço e vão embora. Uma leitura e tanto pro domingo.

[Fala, Memória – Vladimir Nabokov – Alfaguara – 328 páginas – 39.90 reais] 









AS TAIS FOTOGRAFIAS

Alberto Villas e Mylton Severiano

Eu e Mylton Severiano da Silva observando atentamente o número zero da revista Brasil Extra

Em 1969, quando o homem pisou na lua pela primeira vez, Caetano Veloso estava na cadeia. Foi na prisão que chegou às suas mãos um exemplar da revista Manchete com as primeiras fotografias da lua, feitas pelos astronautas americanos. E também fotos maravilhosas do nosso planeta, visto assim do alto. Foi atrás das grades que Caetano compôs Terra.

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens

Nos anos 1950, o biólogo, cronista  e compositor Paulo Vanzolini, escreveu um poema e, logo em seguida, colocou música. Muitos anos depois, Chico Buarque gravou a canção chamada Praça Clóvis. 

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
Vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida

 Em 1968, Chico Buarque e Tom Jobim sentaram no piano, numa tarde de papo e whisky, e fizeram uma música  que ganhou o nome de Retrato em Branco e Preto.

Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

No auge da Jovem Guarda, naquelas alegres tardes de domingo, a dupla Leno e Lilian fazia  muito sucesso na televisão cantando O Retrato.

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver, devolva-me

Eu sempre fui fascinado por fotografia e tudo que fala de fotografia. Músicas, crônicas ou contos.Herdei dos meus pais, um baú de retratos em branco e preto e é raro o dia em que não trabalho em cima deles.Catalogando, digitalizando, organizando uma vida inteira que o meu pai, Rolleiflex a tiracolo, foi registrando.

De vez em quando, amigos me enviam inbox, fotos perdidas no tempo e eu passo horas analisando, uma a uma.Outro dia chegou aqui, em péssimo estado, a primeira feita no meu exílio. Eu estava numa praia na França, magérrimo, com uma juba de leão, cajado na mão, sei lá porque.

Alberto Villas na França
A primeira foto do exílio: numa praia na França, magérrimo, com uma juba de leão, cajado na mão, sei lá porque

Tentei melhorar a qualidade, em vão. Mas ela está aqui revelada, guardada como documento, como peça de um museu particular de fotografias.

Há alguns dias, foi uma foto dos anos oitenta que entrou na minha caixa. Eu e Mylton Severiano da Silva, o Myltainho, observando atentamente o número zero da revista Brasil Extra, lá na redação da Gazeta de Pinheiros.Passei horas observando aquela fotografia, rindo da gola enorme da minha camisa, dos meus óculos, da minha magreza.

Da elegância discreta de Myltainho,de echarpe e tudo mais. Devia ser inverno. Em cima da mesa, o número zero da Brasil Extra com a manchete “Os prostitutos do Brasil”. Eram outros tempos.

Fotografia pra mim não é apenas um pedaço de papel, uma imagem no computador ou um quadro na parede. É memória, memória pura. E às vezes dói.

Semana passada, um amigo, o Aloísio Morais, postou no Face uma foto bem antiga, dos anos 70, de um personagem folclórico de Belo Horizonte. No registro de Washington Alves, uma foto do Tostão, mais conhecido como Sapo.

Sapo
A fotografia chegou junto com a notícia da morte dele

Sapo era famoso na cidade, circulava na madrugada de BH, de bar em bar, vendendo jornais. Sapo era uma figura única. Ninguém sabia o seu nome de batismo, de onde veio, para onde ia.

Ganhou esse apelido devido aos olhos esbugalhados, sempre atendo aos jornais que vendia, ao dinheiro que levava dobradinho entre os dedos e também às manchetes que ele inventava, incrementando pra vender o seu peixe.

– Extra! Extra! Exposição de Belo Horizonte só reúne animais de raça. Figueiredo e Francelino estarão presentes!

Todo mundo ria, todo mundo comprava o jornal do Sapo, jornal quentinho, saindo do forno, que chegava a sujar nossas mãos de tinta.

Na fotografia, Sapo está de pé, calça e camisa brancas, chinelo de dedo, cabelos em caracóis, olhando para algum cliente ou alguma moça tomando cerveja no Bar do Lucas, Edifício Maleta, centro da cidade. Esse era o seu jeito, assim meio largado, meio riponga, de boa.

A fotografia chegou junto com a notícia da morte dele. Carlos Avelin conta, no Face, que Sapo foi morto a pontapés, numa madrugada suja quando retornava pra casa, no bairro Cabana.

Ele se negou a entregar o dinheiro arrecadado no dia, foi derrubado e bateu com a cabeça numa boca-de-lobo, numa esquina da Avenida Amazonas. Não sei quando isso aconteceu.

Triste, imprimi a foto do Sapo e coloquei numa das pastas do meu museu particular de fotografias, onde pessoas especiais repousam em paz.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br