AS CANÇÕES QUE VOCÊS FIZERAM PRA MIM

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Sempre gostei de listas, os melhores discos do ano, as melhores canções de todos os tempos, os melhores guitarristas, cantores, cantoras. Mas nunca tinha pensado em fazer uma lista de discos para levar para uma ilha deserta. A encomenda chegou através de um e-mail curto e grosso: “Você tem 30 dias para escolher um disco, apenas um, o disco que você levaria para uma ilha sem ninguém. Você tem toda liberdade para escrever o que quiser sobre ele”. Achei a ideia ótima, topei na hora. Mas, algumas horas depois, começou a minha angústia, a minha dor de cabeça.

Quando cheguei em casa, entrei no escritório e vi aquelas paredes cobertas de CDs, todos rigorosamente arrumados em ordem alfabética, me veio o primeiro frio na barriga. Como tinha 30 dias pela frente, me acalmei, e comecei a viajar. Que ilha seria essa? Uma ilha como aquela dos desenhos animados, com apenas alguns metros quadrados de areia? Ou seria aquela ilha do Carlos Estevão nas páginas da revista O Cruzeiro? Um coqueiro, um homem e uma sereia do lado?

Delirei. Pensei numa ilha paradisíaca com uma pousada dessas cor de tijolo, deslumbrante, com uma piscina azul, uma rede branca bordada no interior do Ceará, uma caipirinha de figo como a do Hotel Hyatt e um copo de água Perrier com uma rodela de limão siciliano, coisas assim. Isso sem contar com uma aparelhagem de som de última geração para ouvir o tal disco escolhido. Coloquei novamente os pés no chão e retomei a missão de escolher o disco que levaria para a tal ilha deserta.

A ordem alfabética dos meus discos é uma coisa curiosa, eclética e cheia de surpresas. Vai de A a Z, claro. De Abel Ferreira, o bamba do choro, a Zizi Possi. Ali convivem, na mais perfeita harmonia, Walter Franco ao lado de Wanderléa, Tom Zé ao lado de Tom Jobim. Djavan com Daúde, Adoniran Barbosa com Adriana Calcanhoto, Os Mulheres Negras com O Som da Pilantragem. Carlinhos Brown está pertinho do ex-sogro, Chico Buarque, que está ao lado de Chico César, Chico Maranhão e Chico Science. E Gonzaguinha está ao lado do pai, Gonzagão.

Na primeira fornada, escolhi uns 80. A missão agora era eliminar 79. Comecei a sentir uma dor no coração em deixar de fora Paulinho da Viola, Itamar Assumpção, Geraldinho Azevedo, Chico Maranhão. Como deixar de fora Gilberto Gil, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Edu Lobo, Tom Jobim e Haroldo Lobo, o compositor que escreveu “podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais”.

Acordava no meio da madrugada, angustiado com aquela lista infernal. Acrescentava um, mais um, e outro mais. A lista chegou a 110. Resumo da ópera: Tinha aumentado e agora era preciso eliminar 109.

Durante quinze dias, resolvi acordar bem cedinho e ouvir os finalistas, uma a uma. Apostava em um, separava, pesquisava, decidia. Até que, no dia seguinte, escolhia outro e ficava ainda mais cheio de dúvidas. E dessa maneira a tormenta foi tomando conta de mim. Impossível escolher um disco, apenas um, para levar para uma ilha deserta. Cheguei a desistir de embarcar. Preferi continuar vivendo aqui nesta cidade maluca com mais de 20 milhões de habitantes e todos os discos do mundo. Mas fui em frente.

Ouvi Zé Renato, Zé Ramalho, Zeca Baleiro e Zeca Pagodinho. Ouvi Naná Vasconcellos e Nana Caymmi, João Bosco e João Donato. Ouvi mano Décio da Viola, Jacob do Bandolim, Edu da Gaita e Jackson do Pandeiro. Ouvi Martinho da Vila, Paulo da Portela e Neguinho da Beija-Flor. Mas não cheguei ao disco que levaria para aquele lugar distante para passar o resto da minha vida.

Às vezes me perguntava: o que será que BNegão está fazendo ao lado de Bobby de Carlo? O que Paula Lima está ali fazendo encostada na Patife Band? E a Velha Guarda da Portela ao lado da Velha Guarda da Mangueira? Gostei de ver Arnaldo Dias Baptista ao lado de Arrigo Barnabé, e Rita Lee ao lado de Riachão.

Quando estava chegando ao disco escolhido, me cai nas mãos a revista Rolling Stone com a lista dos 500 melhores discos de todos os tempos. Foi aí que me lembrei de Bob Dylan, dos Mamas & Papas, do Clash, de Serge Gainsbourg, de Tom Waits, Alpha Blondy, de John, Paul, George e Ringo. Mas não pensei duas vezes, o disco que levaria comigo seria um disco de música popular brasileira.

De repente, caiu a ficha. Não tinha pensado nos discos clássicos que ocupavam toda uma estante, ao lado dos discos de jazz. Será que levaria comigo o Chopin, o Wagner, o Beethoven, o Stravinsky? Ou será que me acompanharia o Thelonius Monk, o Louis Armstrong ou o Miles Davis?

Numa dessas noites de insônia e tormenta, eu estava ali sentado no chão do escritório da minha casa quando, mais uma vez, a Marilia, minha filha que tinha 9 anos na época, entrou em ação. Ela ouviu o barulho, levantou da cama e, com a Camila, sua cavalinha de pelúcia de estimação na mão, perguntou:

– O que você está fazendo aí com essa pilha de CDs?

Disse que estava escolhendo um para levar para uma ilha deserta e só poderia ser um. Ela não perguntou onde ficava a ilha, nem que dia eu partiria mas deu uma sugestão na lata:

– Por que você não leva o Estamos Adorando Tokio, do Karnak?

[Semana que vem: Capítulo 28: ALL THAT JAZZ]

 

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