VALE QUANTO PESA

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Tenho a leve impressão de que essa história de restaurante por quilo é invenção de brasileiro. Nunca vi, em canto nenhum do mundo, coisa parecida.

Claro que já vi rotisseries pesando rosbifes fatiados e nhoques ao sugo pros fregueses em outras paradas, bem longe daqui, mas montar um prato inteiro e depois botar na balança, tenho quase certeza de que isso é coisa nossa.

Outro dia, fui comer em um desses e fiquei só observando. O curioso é que na calçada, bem em frente ao restaurante, uma banca de jornais exibia dezenas de revistas com o beabá da alimentação saudável e equilibrada. Passei os olhos e vi que, ali expostas, estavam verdadeiras enciclopédias do bem estar.

Então eu entrei no restaurante por quilo e me instalei bem pertinho daquele festival gastronômico, um corredor de uns três a quatro metros de comprimento, onde as pessoas vão escolhendo uma coisinha aqui, outra ali, até encherem o prato e se dirigirem à balança.

É assustador.

Ninguém se controla, tipo hoje eu vou comer um risoto de funghi ou um estrogonofe com arroz e batata palha. A mistureba começa antes mesmo do faminto cliente dar o primeiro passo. É ali que ficam as saladas.

Salada de alface lisa, de alface crespa, de alface roxa e americana. Vagens cozidas, cozidos também estavam o brócolis, a cenoura, o quiabo, a mandioquinha, a beterraba e os ovinhos de codorna. Ai você bate os olhos no grão de bico, nos aspargos, no palmito, nas alcaparras e no milho.

Um cliente, que fiquei observando, pegou um pouquinho de cada coisa. Só deixou lá, intacto, o quiabo. Ainda bem que o prato era enorme, do tamanho de uma embalagem de pizza, quase um disco voador, e cabia muita coisa.

Era quarta-feira e dia de feijoada. Ele não pensou duas vezes, deu um chega pra lá naquela montanha de folhas verdes e legumes cozidos e arranjou um cantinho pra feijoada, pro arroz, pra couve, pra farofa, pro torresminho, pra banana à milanesa, pra bisteca de porco e pra quatro gomos de laranja.

Depois de tudo arrumadinho naquele pratão, ele avistou o que mais tinha pela frente: Do estrogonofe, ele pegou apenas uma lasquinha do frango e dois champignons, do cuscuz marroquino, ele retirou as uvas passas e as amêndoas mas conseguiu colocar uma colherada, bem ao lado da alface americana. Tinha também uns pedacinhos de pizza de calabresa, bem torradinhas. Ele se conteve, pegou apenas um pedaço pequeno que ficou se equilibrando em cima do brócolis.

Deu mais dois passos e bateu os olhos na maionese. Quem resiste a uma maionese? Duas colheradas pra fazer companhia aquelas folhas, que pensando bem, não pesam nada. Olhou pro lado e viu um metro quadrado de comida japonesa. Mesmo sabendo que aquilo ali não combina em nada com a feijoada, ele pegou dois sushis e dois sashimis, procurou o shoyu e pingou por cima.

Quem mandou ele olhar pro outro lado e ver as linguiças na grelha que, pensando bem, fazem parte da feijoada?

Só uma! Só uma! Pensou ele, mas antes pegou dois mini-quibes que estavam quentinhos. Só dois e mini.

Prato feito, aquilo parecia um verdadeiro mapa mundi da gastronomia. Tinha a feijoada brasileira, a pizza italiana, o cuscuz marroquino, o shushi japonês, o grão de bico iraniano, a alface americana, a batata inglesa e o quibe libanês.

Ele foi caminhando lentamente até a balança pra pesar. O prato, não ele. Pesou e na hora de pagar ia se esquecendo de pegar a sobremesa e a bebida. Passou a mão num cheesecake, correu até o baldão com gelo e trouxe uma Coca Zero geladinha.

Afinal, é preciso manter a linha, não é mesmo?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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