OBJETO DO DESEJO

captura-de-tela-2017-02-24-as-06-24-39

Já fui escoteiro um dia. De uniforme caqui, meia três quartos, lencinho no pescoço, bonezinho na cabeça, cantil na cintura, mochila nas costas e tudo mais. Escoteiro de acordar de madrugada, arrumar a matula e partir para acampar na Serra da Mantiqueira. Era menino ainda, mas queria aventura, queria correr mundo, correr perigo.

Eu tinha um canivete, pobrezinho, bem tosco, que o meu pai comprou numa loja de artigos de pesca no centro da cidade. Ele era fininho, meio cego, mas era o que eu tinha para enfrentar a mata e os bichos.

Os bichos eram singelos tatus bolinhas, minhocas, moscas varejeiras, taturanas, grilos, besouros, sapos e baratas cascudas que insistiam em entrar na minha barraca de lona nas noites escuras e frias da Serra da Mantiqueira.

Eu adorava aquele mundo meio selvagem, de esquentar salsichas tipo Viena em fogareiros improvisados, abrir latas de sardinha e cozinhar macarrão de metro para comer em pratos de alumínio. De sobremesa, Leite Moça.

Bernardo era o único da turma que tinha um canivete suíço, aquele objeto do desejo de todos. O canivete suíço custava uma fortuna e Bernardo tinha um, vim a saber, porque seu pai ganhava muito dinheiro, era chefe na NCR Caixas Registradoras.

Bernardo contava que o pai trouxera o canivete da Suíça, numa viagem que fez para participar de um encontro de funcionários da NCR Caixas Registradoras. Ninguém tinha um canivete suíço como aquele do Bernardo, nem mesmo os monitores.

De noite, sentado perto do fogo, Bernardo tirava o seu canivete de um estojinho de couro gravado Swiss Army Knife e mostrava a todos como ele funcionava. O canivete era tudo. A gente ia abrindo e ia saindo lá de dentro um cortador de unha, uma tesourinha, um saca-rolha, um abridor de latas, uma lixa, um abridor de garrafas, um palito, uma chave de fenda, um alicate, uma canetinha, uma pinça, um escamador de peixes, uma serrinha para madeira e uma serrinha para metal. Isso, que eu me lembro.

Bernardo era gente fina. Ele deixava o canivete passar de mão em mão para que todos pudéssemos ver bem de perto o que era aquela maravilha da invenção. No final da noite, quando o fogo era só cinzas e nada mais, ele colocava novamente o seu canivete no estojinho e guardava dentro da sua mochila.

Quantas e quantas noites, deitado naquele sleeping-bag, com a cabeça num fino travesseiro de paina, eu não sonhei com o canivete do Bernardo. Não eram sonhos muito claros mas aquele canivete suíço aparecia voando no meu escaninho do desejo, lá no cantinho do cérebro.

Na semana passada, enquanto os técnicos preparavam aquela parafernália para que eu pudesse gravar uma participação num documentário, alguém falou do tal canivete suíço. Ali sentado naquela poltrona, maquiado, sem poder me mexer muito para o técnico acertar a luz, fechei os olhos e me lembrei dos acampamentos da minha infância e daquele desejo enorme que tinha de ter um canivete como o do Bernardo.

A jornalista que estava coordenando a gravação, lembrou muito bem:

– Gente, o smartphone é o canivete suíço dos tempos modernos!

E explicou: “Só que ao invés da gente ir abrindo aos pouquinhos, a gente vai clicando nos aplicativos e ele vai abrindo para um mundo maravilhoso”.

É verdade. Mas a única diferença é que meu mundo maravilhoso de menino era um pouco mais simples. Não era o mundo do Waze, do Uber, do WhatsApp, do Facebook, do Safari, do Instagram. Era um mundo da tesourinha, do saca rolha, da lixa, da canetinha e do abridor de latas.

[Crônica da semana publicada pelo site da revista Carta Capital]

http://www.cartacapital.com.br