FIM DE SEMANA

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A volta triunfal do primeiro disco de Cartola, em formato vinil. Obra-prima incontestável. Ouça.

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Rita Lisauskas é metade jornalista, metade mãe. E uma contadora de casos por inteira. Suas aventuras de ser mãe, assunto que domina em reportagens e blogs, estão reunidas em Mãe Sem Manual. Delicioso.

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Vitória! Número 27 da revista Margem Esquerda, com um dossiê Racismo imperdível.

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DOMINGO NO PARQUE, Berlim

[foto Alberto Villas]

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Manifestação pró-impeachment, 2016

[via Internet]

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[reprodução M]

 

 







O HOMEM QUE CALCULAVA

O meu pai tinha um caderno de capa dura, preta, com a borda dourada, que ele carregava pra todo lado. No final de sua vida estava desgastado, desbotado de tanto manuseio. Ele folheava aquele caderno praticamente todos os dias.

Era no café da manhã que ele vinha nos relatar, fazer uma espécie de inventário particular que vinha cultivando desde a juventude. Nesse caderno, ele anotava as datas especiais de todos os grandes acontecimentos e as relacionadas às pessoas que considerava especiais.

– Hoje mamãe estaria fazendo 110 anos!

– Hoje os meus pais estariam fazendo 60 anos de casados!

– Há vinte e oito anos eu pedi a mãe de vocês em casamento.

– Se Rui Demétrio estivesse vivo, já estaria com 50 anos!

Ele dizia isso com muita seriedade e todos nós ouvíamos com atenção e respeito. Nos últimos anos de sua vida, foi crescendo a sua obsessão pela morte. Parecia – como Gilberto Gil – não ter medo dela, mas medo de morrer.

Comprou um túmulo no Parque da Colina, em Belo Horizonte, pertinho do bar e debaixo de uma árvore frondosa. Ele brincava que queria descansar para sempre com sombra e cerveja fresca. Aliás, ele brincava muito com a morte.

Meu pai era um homem que calculava, fazia contas sem parar, somando, diminuindo, dividindo e multiplicando. Sabia com exatidão o número de dias que trabalhou no Serviço de Meteorologia até se aposentar.

Sabia quanto gastou com tijolos, cimento, telhas, portas e tacos na construção de sua casa na Rua Rio Verde, em 1950, e quanto custou seu terno de formatura na Escola de Engenharia da UFMG, pago em doze prestações. Dizia com orgulho até os centavos de uma moeda que nunca conhecemos.

Respondia na lata quando alguém perguntava quanto custou sua Rural Willys zero que comprou em 1963, o preço que pagou naquela TV Colorado RQ e até mesmo quanto custou uma garrafa de água mineral São Lourenço, quando comprou o primeiro engradado na cidade mineira, lá nos anos 1960.

Gostava de fazer contas e fazia tudo de cabeça, numa época em que as calculadoras funcionavam com papel e uma manivelinha ao lado.

Hoje, aos sessenta e seis anos, sou o retrato fiel do meu pai. Também tenho um caderno onde anoto as datas especiais de pessoas especiais na minha vida. A única diferença é que o meu caderno tem uma capa mole de couro vermelho e não dura e preta como a do meu pai. Como o dele, o meu caderno também está gasto e meio estropiado de tanto manuseio.

Não costumo reunir minhas meninas na hora do café da manhã para recitar a ladainha que o meu pai recitava quando éramos crianças. Mas todos os dias, com o caderno na mão, vivo fazendo minhas contas.

– Elis Regina já estaria com 72 anos.

– Já são 26 anos que Cazuza morreu.

– O meu pai faria 100 anos em março do ano que vem.

– Já são quase dezesseis anos que as torres gêmeas despencaram em Nova York.

Aí, no dia 10 de março nasceu o Raul, meu neto. Feliz da vida, anotei no caderno, postei a primeira foto no Facebook e liguei pros meus irmãos pra contar a novidade. Raul é o segundo neto, depois de vinte anos de Flora.

De repente, me vi conversando com a minha irmã mais velha e fazendo contas.

– Quando o Raul estiver com 20 anos, eu terei 86.

– Ele vai votar pela primeira vez em 2033.

– Na passagem de 2099 para 2100, o Raul vai ter 83 anos.

Desliguei o telefone e fui voando pra Minas Gerais conhecer o menininho. Quando cheguei, ele estava dormindo, tranquilo, apenas mexendo as mãozinhas de vez em quando, mãozinhas enfiadas num par de meias azuis listradas de laranja para que o danado não arranhasse o rostinho.

Confesso que fiquei perdidamente apaixonado por ele. Fiz a primeira foto, com o cuidado de desligar o flash para não acordá-lo. Ali, naquela hora, nem me lembrei de fazer conta alguma. Mas quando desci as escada e fui caminhando pela calçada da Rua Riachuelo, fiz apenas uma continha rápida.

Depois de passar 270 dias na barriga de Sara, Raul tinha exatas 120 horas de vida quando dei nele o primeiro beijinho no seu rosto. Ele tremelicou os olhinhos e voltou a dormir. Foi um beijinho doce que talvez vá me fazer esquecer qualquer operação da tabuada.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br