MINHA MACONDO

Na minha juventude, li muitos livros por obrigação. Iracema, de José de Alencar, Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Li com má vontade, com o único objetivo de passar no vestibular da UFMG. Livros que hoje venero e que talvez, por ironia, guardo num lugar de honra na minha biblioteca.

O primeiro livro que li por vontade própria, aquele que fui lá na Livraria Amadeu e comprei com o meu dinheiro, foi Voo Noturno, de Antoine de Saint-Exupéry. Adorei. Gostei tanto que reli, alguns anos depois. O exemplar que tenho aqui está amarelado, judiado, bem estropiado, mas para mim, um troféu.

O segundo que li com vontade, virou o livro da minha vida: Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Já reli três vezes, inclusive uma vez na língua original, para sentir o clima mais de perto, descobrir pequenos detalhes.

Nunca mais me esqueci das primeiras palavras: “Macondo é uma aldeia de vinte casas de barro e taquara construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”.

Nessa época, não pensava em ganhar a vida com a escrita. Queria ser médico e os livros que li por obrigação foram pra passar no vestibular de Medicina. Mas foi a pequena Macondo que um dia me encantou e, certamente, me fez mudar de rumo.

Invejava García Márquez que tinha nascido em Aracataca, a sua Macondo. Eu havia nascido numa cidade que crescia a olhos vistos rumo ao progresso, uma cidade que ia ficando feia e sem destino, passando por cima da Avenida do Contorno, o projeto inicial. Lá longe. via as montanhas sendo engolidas pelos tratores da MBR, acabando com o nosso belo horizonte.

Foi então que imaginei onde seria a minha Macondo, uma cidadezinha de uns trezentos habitantes e que também tinha um riacho de pedras polidas e piabas que pescávamos com peneira nas férias de julho. A cidadezinha chamava-se Soberbo e ficava perto de Rio Doce, interior de Minas Gerais. Soberbo só tinha uma venda, uma rua de terra, uma pracinha com uma mangueira enorme, algumas poucas casas coloniais e nada mais.

Cheguei até a pensar em me mudar pra lá um dia, quem sabe para escrever os meus anos de solidão. Levaria minha máquina Remington portátil, algumas folhas em branco e começaria a contar a história da família Fontes, a minha, que tinha alguns personagens interessantes como Tia Lili, aquela que todos os dias às treze horas e treze minutos tinha de estar em casa para não deixar que o pêndulo do relógio cuco despencasse. Pura ilusão.

Ali em Soberbo, procuraria também o caminho do mar. Entre cascatas, palmeiras, araçás e bananeiras, desbravaria a mata, atravessaria as montanhas e chegaria ao mar, que em Minas não há. Mas nada disso aconteceu. Eu passei no vestibular de Jornalismo e continuei morando numa cidade nada a ver com a Macondo. Um dia fui-me embora pra Paris, mas ai é outra história.

Na minha Beagá, já havia muita fumaça sendo expelida pelos Studebakers e um prefeito chamado Amintas de Barros que derrubava árvores para dar passagem aos automóveis. Os trólebus circulavam pelo centro, os vendedores de loteria gritavam na Avenida Afonso Pena, os engraxates lustravam os sapatos na Praça Sete, os trilhos urbanos refletiam nos meus olhos e o terminal do bonde tinha um leve cheiro de óleo.

A primeira lanchonete da cidade servia milk-shake de morango e uma sorveteria chamada São Domingos oferecia sorvete de jabuticaba. E não acontecia mais nada na minha cidade. Aquilo não dava meio capítulo sequer do livro que sonhava escrever.

Hoje, ao pegar Cem anos de solidão para reler mais uma vez, comemorando os seus cinquenta anos, lembrei-me de tudo isso. Procurei no Google a palavra Soberbo para saber se aquele vilarejo já tinha mais de 300 habitantes, quando dei-me de cara com a realidade: Soberbo não há mais, foi invadida pelas águas como se fosse Orós.

Soberbo hoje virou uma usina hidrelétrica chamada Risoleta Neves que, pensando bem, poderia sim ser personagem dos meus anos de solidão. Pelo menos o nome é um nome ótimo, tudo a ver para estrar num grande romance: Risoleta Neves!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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