TIC-TIC NERVOSO

 Parte da seleção da Brasil Extra

Finalmente 1984 chegou. O Big Brother de George Orwell ainda não estava no ar na televisão aberta, mas dezenas de câmeras escondidas pela cidade já botavam os olhos grandes sobre nós.

Milhares de brasileiros estavam nas ruas exigindo eleições diretas já, coisa que não víamos desde os idos de 1960. Enquanto isso, bandidos derretiam a nossa Jules Rimet, a taça conquistada com o talento de Pelé, Gerson, Rivelino e Tostão.

O mundo estava agitado. Em Los Angeles, o cantor Marvin Gaye caía morto no chão, com o corpo crivado de balas disparadas pelo pai. O exército indiano sufocava a revolta dos sikhs que, revoltados, executavam Indira Gandhi.

Perdíamos o charme e o jazz de Count Basie, enquanto Michael Jackson era o popstar da hora com o clipe Thriller, mostrado em primeira mão no show da vida.

Foi nesse clima que um bando de jornalistas se reuniu numa pequena sala meio improvisada no bairro de Pinheiros, em São Paulo, com o sonho de colocar nas bancas uma nova revista alternativa chamada Brasil Extra.

Capitaneados pelos mestres Mylton Severiano da Silva – o Myltainho -, Bernardo Kucinsky e Narciso Kalili, os discípulos se apresentaram para ir à luta, ir às ruas e trazer matérias pra botar a revista de pé. O sonho era fazer uma espécie de Actuel, revista que levei uma pilha para a primeira reunião de pauta.

O time era de jovens e craques. Dagomir Marquesi – o Dagô – foi escalado para traçar o perfil de Paulo Maluf. Marcelo Rubens Paiva para desvendar os mistérios das rádios piratas, Luiz Maklouf foi pra São Bernardo descobrir o que tinha na cabeça de Luiz Inácio da Silva e Bernardo Kucinsky partiu pra Cubarão para relatar o sofrimento dos moradores da Vila Socó que, segundo ele, nasceram como bichos e morreram como bichos.

Edenilton Lampião foi conversar com Claudio Villas Boas, cansado de guerra, se despedindo da vida. Helio Doyle e Juca Martins voaram pro Uruguai para mostrar o renascimento do pais, depois de onze anos de tirania. Enquanto isso, Luiz Gê dava asas aos tubarões voadores.

O time era grande. Tínhamos ainda Lucia Costa, Luisa de Oliveira, Aureliano Biancarelli, Renato Pompeu, Carlos Rennó, Lucia Correia Lima, Cristina Serra e tantos outros.

O número 1, todo desenhado pelo francês Jean Gauvin, um dia ficou pronto. Com uma foto de Paulo Maluf na capa e a manchete O menino que virou Maluf, fomos pras bancas. A reportagem de capa tinha, além do relato do repórter que comeu um quibe de peixe numa festa chez Maluf em que penetrou de boa, um dos melhores títulos que fizemos: Quando Maluf começou a mamar. Esse era o tom da Brasil Extra.

Os exemplares desapareceram das bancas em poucos dias e nós nos entusiasmamos em fazer logo o número 2, que já tinha a manchete de capa: Os filhos da pátria! A redação era uma mixórdia, como quase toda redação naquele 1984. Fumaça de cigarro no ar, copinhos de café espalhados nas mesas, panfletos colados nas paredes, laudas amassadas pelo chão e muitas Remington fazendo aquele barulho toc toc toc.

Nós éramos felizes e sabíamos disso.

Até que uma segunda-feira chegou e o dono da revista convocou todos nós para uma reunião no meio da redação. Em poucas palavras, ele disse o que tinha a nos dizer, sem muita explicação:

– A Brasil Extra acabou!

O número 2, que já estava praticamente pronto para rodar, foi engavetado e um silêncio tomou conta da redação. Silêncio que só foi quebrado quando alguém foi lá no canto da sala, pegou um radinho de pilha e ligou para ouvir as últimas notícias. Não havia noticia alguma naquela hora, havia apenas Kid Vinil cantando Tic-Tic nervoso, o hit parade do momento, cuja letra publicamos no número 1.

Saímos dali cabisbaixos e fomos comer um X qualquer coisa no bar da frente, todos cantarolando Tic-Tic nervoso, uma música deliciosa de Kid Vinil, morto sexta-feira passada, 19 de maio.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

 

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