A FORÇA DA GRANA

Quase todos os grandes jornais do mundo circulam com revistas encartadas no final de semana. Temos a M, a Papel, a El País Semanal, a Figaro Magazine, a  New York Times Magazine, Robinson, Volkskant e tantas outras. Aqui no Brasil, temos a revista Ela de O Globo e na Folha, a São Paulo. Uma vez por mês circulava a Serafina, revista de estilo, cultura, moda e outros babados. A Serafina, que não é mais mensal, sai de tempos em tempos. Ontem, ambas circularam com números especiais. A São Paulo especial Vinhos e a Serafina especial Homens. Uma prova de que estão atreladas ao departamento comercial. A São Paulo, que teoricamente é a revista da cidade, raramente sai como revista da cidade. É especial Noivas, Especial Reformas, Especial Casa, Especial Restaurantes, Especial Dia dos Pais, enfim, vendeu anúncios, faz-se a revista.

FIM DE SEMANA

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Está chegando às lojas, em versão CD, o primeiro disco de um dos mais enigmáticos compositores da música popular brasileira, Geraldo Vandré. O disco, de 1964, mostra um Vandré passeando pela bossa nova, com canções já primorosas como Canção Nordestina, Fica Mal com Deus e Pequeno Concerto que Virou Canção. Uma obra-prima para colecionadores.

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Escrito por Kate Schatz e ilustrado por Miriam Klein Stahl, Mulheres Incríveis traça pequenos perfis de 44 mulheres que, como diz o título, são ou foram incríveis. Mulheres dos quatro cantos do mundo. Do Brasil, temos Elza Soares, a jogadora Marta, Debora Diniz, Maria da Penha e Sonia Bone Guajajara. O leitor vai encontrar nomes conhecidos como Frida Khalo e Miriam Makeba, mas nomes tão estranhos como Wangari Maathai ou Buffy Sainte-Marie. Mas todas com um ponto em comum: A força.

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Publicada na França nos anos 1970, Le Foi Parle não teve uma vida tão longa quanto merecida. Uma revista de arte e humor, com textos primorosos.

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BURRO N’ÁGUA

São Miguel dos Milagres, Alagoas

[foto Alberto Villas]

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Era um tempo em que o presidente da República convidava um cantor norte-americano do porte de Louis Armstrong para uma festa. O encontro com Pixinguinha se deu no dia 27 de novembro de 1957, no Palácio das Laranjeiras, no Rio, onde morava JK. A festa não tinha hora pra terminar.

[autor da foto não identificado]

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[Anos 1950]

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O PATO

Criávamos galinhas legorne, porquinhos-da-índia, periquitos, pintassilgos, coelhos e um cachorro Tupi. Mas nunca criamos patos.

Primeiro, porque aquele quintal era pequeno demais pra tanto bicho e meu pai teimava que pato não sobrevivia sem água pra nadar.

Minha mãe desconfiava era dos ovos de pata, vendidos por ciganas que passavam por nossa rua, em pequenas cestas de vive. Os ovos de pata eram diferentes dos ovos das nossas legornes, meio esverdeados e estavam sempre sujos de terra.

– Estão todos chocos!

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O mar 

Minha mãe afirmava com conhecimento de causa. Um dia, ela comprou uma dúzia de ovos dessas ciganas e, dos doze, onze estavam chocos. Pra nunca mais.

Ela nunca nos ofereceu ovos de pata porque dizia que eram muito pesados pro estômago de uma criança. Mas a gente gostava de pato. De ver, de correr atrás deles.

Nas férias, convivíamos com os patos na Fazenda do Sertão. Eram muitos e nos deixava implicados porque aqueles patos que viviam ali não voavam. E quando trepavam, ficavam horas naquele lenga lenga. Não eram como o galo e a galinha, que davam uma rapidinha e pronto.

Meninos ainda, gostávamos de ouvir João Gilberto rodando na vitrola. Aquilo nos encantava.

O pato vinha cantando alegremente, quém, quém
Quando um marreco sorridente pediu
Pra entrar também no samba, no samba, no samba

A família do pato era grande e soubemos disso quando fomos pela primeira vez no Parque das Águas, em São Lourenço. Lá tinha, além dos patos, gansos, cisnes e marrecos. Eram diferentes, mas parecidos no jeitão desengonçado de andar e no quém quém.

Os cisnes eram os mais bonitos de todos, elegantes e brancos como a neve. Os gansos, cinzas, eram bravos, enfezados com a meninada. Os marrecos, coitados, ficavam lá no canto deles, de boa, tomando sol, beliscando uma plantinha aqui, outra ali.

Dos personagens de Walt Disney, o que eu mais gostava era o Pato Donald. Mas me amarrava também na Margarida, no Tio Patinhas, no Gastão, no Luizinho, no Huguinho e no Zezinho, todos patos. Até da Maga Patológica, aquela bruxa, a gente gostava.

Quando chegou a Arca de Noé, quer dizer, do Vinicius e do Toquinho, cantei muito pros meus filhos a canção do pato.

Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o pato
Para ver o que é que há

Sempre gostamos de pato na nossa casa, até mesmo na panela. Quem não gosta de um arroz de pato ou um pato no tucupi?

Adultos, fechávamos os olhos para a nossa infância e nunca pensávamos naquele simpático patinho que gostávamos tanto, quando saboreávamos um pato laqueado num bistrô chinês no Marais.

Até que muitos anos depois, um dia, chegou o pato da Fiesp. Foi aí que tomei um bode danado do bicho. Aquele pato amarelo enorme na Paulista, na Cinelândia ou na Esplanada dos Ministérios, me encheu de angústia e tristeza.

Aquela paixão que tinha pelos patinhos de um dia que víamos no corredor de aves do Mercado Central de Belo Horizonte, de repente, desapareceu como um toque de mágica.

O meu consolo, hoje, é saber que todos aqueles que foram pra avenida inflar e saudar aquele pato amarelo medonho, hoje estão pagando caro pelo que fizeram.

Pagando o pato.

 [Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
cartacapital.com.br