A VIDA SEM CRACHÁ

Depois de mais de 30 anos escolhendo fotos, fazendo títulos, copidescando textos, fechando jornal, fazendo espelhos, editando matérias e colocando o show da vida no ar, resolvi dar um tempo. Já tem alguns anos que tomei a decisão de partir pra carreira solo, trabalhar em casa. Isso pode parecer o sonho de muita gente, mas calma!

Assim que dependurei as chuteiras no segundo andar da Berrini, pensei cá com os meus botões que poderia acordar mais tarde, ler os jornais que não escrevi, almoçar em casa, fazer um lanchinho à tarde, tomar um banho ao cair do dia e ver os telejornais sem estar na panela de pressão que é um switcher.

Foi mais ou menos isso que aconteceu comigo. Mais ou menos.

Nos primeiros dias, sofri e confesso que tive vontade de acordar cedo, tomar banho, vestir uma roupa de trabalho, calçar os sapatos, dependurar o crachá no pescoço e ir pra firma. Assim que me instalei no escritório da minha casa pra escrever o primeiro texto frila, a nossa empregada, que sempre cuidou de tudo, começou a fazer toc toc toc na porta.

– Acabou o sal

– A lâmpada da cozinha queimou

– A máquina de lavar louça parou

– A torneira do tanque está pingando

– O aspirador de pó pifou

Eu me senti como aquele personagem de um velho poema de Drummond que recitávamos no coral do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte.

– E agora, José?

Em uma semana, de jornalista, transformei-me em eletricista, encanador, bombeiro, pacato homem do lar e chefe de cozinha. Sim, chefe de cozinha.

A empregada, que diariamente escolhia, por conta própria, o cardápio do almoço e do jantar, resolveu perguntar, sempre por volta das dez da manhã.

– O que eu faço de almoço?

Deixava o computador de lado e ia até a cozinha escolher, com ela, o menu do dia.

– Vamos fazer abobrinha recheada com quinoa, arroz branco, feijão preto e uma polenta com cebolas por cima.

Mas ainda faltava alguma coisa.

– Faz salada?

– Posso fazer suco de polpa?

Sim, pode fazer salada e suco de polpa.

– Acerola ou uva?

Isso foram nos primeiros talvez 60 dias, depois a coisa foi entrando nos eixos. Acho que ela entendeu que eu estava trabalhando e não apenas curtindo o Face, o Twitter, o Instagram ou mandando mensagens pelo  WhatsApp.

Mas mesmo assim, ela de vez em quando entrava no escritório com uma novidade.

– Interfonaram dizendo que tem uma encomenda lá embaixo.

Hoje as coisas se acalmaram um pouco. Primeiro, porque a Nice só vem uma vez por semana e, segundo, porque eu consegui me organizar, mesmo não tendo horário estabelecido pra nada.

Confesso que é uma delícia ir tomar um café na Livraria Cultura em plena segunda-feira, três da tarde. É uma maravilha poder assistir a um jogo na Europa pela televisão, quatro da tarde de uma quinta-feira. E quando chega a Copa do Mundo, as Olimpíadas, o Carnaval, que espetáculo ser apenas telespectador.

Imagine o que é cuidar da horta na varanda depois do almoço ou deitar na rede pra ler a biografia do Paul McCartney, cinco da tarde de uma terça-feira.

Mas, como disse lá em cima, calma! Nem tudo são flores.

Hoje acordei às seis horas, preparei o café da manhã pra família, sentei aqui pra escrever essa crônica pra CartaCapital e ainda tenho muita coisa pela frente. Escrever uma matéria sobre hortas pra revista Com Você, da Nestlé, separar 12 fotos e fazer uma pesquisa sobre o mercado Ver o Peso, em Belém, pra revista Vida Simples, mandar um projeto de livro pra Editora Sextante, revisar um capítulo do livro que escrevi pra Editora Planeta, fazer uma pesquisa sobre bala perdida que vai fazer parte de um outro livro, responder uns 20 e-mails, alimentar o meu blog, buscar a encomenda lá na portaria e pensar no cardápio pro almoço, porque a Nice não está mais aqui.

Às vezes me perguntam se tenho saudade de redação. Digo que não mas, pensando bem, sim. Tenho saudade dos amigos que lá deixei e que via todos os dias. Além de um contracheque que a secretária colocava na minha mesa religiosamente no último dia útil de cada mês.

[Crônica da semana publicada no site da revista Cara Capital]

cartacapital.com.br

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