O PATO

Criávamos galinhas legorne, porquinhos-da-índia, periquitos, pintassilgos, coelhos e um cachorro Tupi. Mas nunca criamos patos.

Primeiro, porque aquele quintal era pequeno demais pra tanto bicho e meu pai teimava que pato não sobrevivia sem água pra nadar.

Minha mãe desconfiava era dos ovos de pata, vendidos por ciganas que passavam por nossa rua, em pequenas cestas de vive. Os ovos de pata eram diferentes dos ovos das nossas legornes, meio esverdeados e estavam sempre sujos de terra.

– Estão todos chocos!

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Minha mãe afirmava com conhecimento de causa. Um dia, ela comprou uma dúzia de ovos dessas ciganas e, dos doze, onze estavam chocos. Pra nunca mais.

Ela nunca nos ofereceu ovos de pata porque dizia que eram muito pesados pro estômago de uma criança. Mas a gente gostava de pato. De ver, de correr atrás deles.

Nas férias, convivíamos com os patos na Fazenda do Sertão. Eram muitos e nos deixava implicados porque aqueles patos que viviam ali não voavam. E quando trepavam, ficavam horas naquele lenga lenga. Não eram como o galo e a galinha, que davam uma rapidinha e pronto.

Meninos ainda, gostávamos de ouvir João Gilberto rodando na vitrola. Aquilo nos encantava.

O pato vinha cantando alegremente, quém, quém
Quando um marreco sorridente pediu
Pra entrar também no samba, no samba, no samba

A família do pato era grande e soubemos disso quando fomos pela primeira vez no Parque das Águas, em São Lourenço. Lá tinha, além dos patos, gansos, cisnes e marrecos. Eram diferentes, mas parecidos no jeitão desengonçado de andar e no quém quém.

Os cisnes eram os mais bonitos de todos, elegantes e brancos como a neve. Os gansos, cinzas, eram bravos, enfezados com a meninada. Os marrecos, coitados, ficavam lá no canto deles, de boa, tomando sol, beliscando uma plantinha aqui, outra ali.

Dos personagens de Walt Disney, o que eu mais gostava era o Pato Donald. Mas me amarrava também na Margarida, no Tio Patinhas, no Gastão, no Luizinho, no Huguinho e no Zezinho, todos patos. Até da Maga Patológica, aquela bruxa, a gente gostava.

Quando chegou a Arca de Noé, quer dizer, do Vinicius e do Toquinho, cantei muito pros meus filhos a canção do pato.

Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o pato
Para ver o que é que há

Sempre gostamos de pato na nossa casa, até mesmo na panela. Quem não gosta de um arroz de pato ou um pato no tucupi?

Adultos, fechávamos os olhos para a nossa infância e nunca pensávamos naquele simpático patinho que gostávamos tanto, quando saboreávamos um pato laqueado num bistrô chinês no Marais.

Até que muitos anos depois, um dia, chegou o pato da Fiesp. Foi aí que tomei um bode danado do bicho. Aquele pato amarelo enorme na Paulista, na Cinelândia ou na Esplanada dos Ministérios, me encheu de angústia e tristeza.

Aquela paixão que tinha pelos patinhos de um dia que víamos no corredor de aves do Mercado Central de Belo Horizonte, de repente, desapareceu como um toque de mágica.

O meu consolo, hoje, é saber que todos aqueles que foram pra avenida inflar e saudar aquele pato amarelo medonho, hoje estão pagando caro pelo que fizeram.

Pagando o pato.

 [Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]
cartacapital.com.br

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