NÓS

Durante mais de uma década, os meus fins de semana foram na chamada Cidade Maravilhosa. Lembro-me bem daqueles domingos de sol, logo cedo, eu saindo do Hotel Ipanema Plaza e nadando contra a maré humana a caminho da praia. Vestindo jeans, camiseta e calçando sapato e meia, eu caminhava para o Jardim Botânico porque o show da vida me esperava.

Passava o dia na redação do Fantástico e, da janela, de vez em quando, espiava a vida lá fora. Jovens passavam voando em seus skates, casais passeavam com os seus bebês nos carrinhos e mocinhas desfilavam de bicicleta. Muitos esperavam o ônibus perto da Pacheco Leão, a caminho das areias de Copacabana, Ipanema e Leblon.

Era na esquina da Pacheco Leão que estava a Padaria Século XX. O movimento ali – da janela dava pra ver – era contínuo. E eu, pra descansar a cabeça e forrar o estômago, descia por volta do meio-dia. Pedia sempre o mesmo, um pão com pernil com gotinhas de limão e uma Fanta Laranja. O português já sabia o meu gosto e quando eu sentava naquele banco surrado, ele já soltava um “o de sempre?” Sim, o de sempre!

Era na Século XX que eu encontrava, quase todos os domingos, Luiz Melodia. O Negro Gato morava ali na esquina mesmo e sua presença na padaria, domingo cedo, era sagrada.

Melodia era apenas um carioca com um copo de Brahma Chopp na mão, ali de pé, domingo de sol, na porta da Século XX. Calçava chinelos Ryder, uma bermuda florida e uma camisa aberta no peito.

Custei a chegar perto dele. Mas um dia cheguei. Aos poucos, fui confessando minha paixão por sua música, desde Pérola NegraEstácio, Holly Estácio e Ébano. Contei que havia transformado quase todos os seus vinis em modernos CDs, mas que não me conformava porque ainda não haviam relançado o Nós, que gostava tanto.

Contei a história da música Ébano, que chegou na minha casa, em Paris, numa Fita K-7, e também a história de Maravilhas Contemporâneas e Mico de Circo, que vieram em vinis embalados em placas de isopor. Ele achou graça.

Melodia confessou que havia perdido um pouco o controle sobre seus discos, e que foram tantas as compilações que o Nós acabou esquecido.

– Talvez o disco já tenha saído todo, uma faixa aqui, outra ali.

Sabia que Melodia gostava mesmo era de uma Black Princess, mas como ali na Século XX não tinha Black Princess, ia de Brahma Chopp mesmo, enquanto eu, ia de Fanta Laranja, fazendo tintim.

Num desses domingos, levei pra ele ver o Nós que, eu mesmo, caprichosamente havia transformado de vinil pra CD.

Ele olhou, olhou, virou pra ver a contracapa xerocada e me devolveu com apenas duas palavras

– Muito bacana!

Revelei a ele que Nós era o disco que mais ouvia em casa. Aquela primeira música, ele cantando Ilha de Cuba, de Papa Kid, para mim, era o máximo.

Ao som da maraca

Do tambor do bambu

Eu vou pra ilha de Cuba

Eu vou pra ilha de Cuba 

Gostava também de Surra de ChicoteHoje e Amanhã não saio de casaMistério da RaçaFeras que Virão. Sem contar a regravação de Negro Gato, de Getúlio Cortês, sucesso na voz do Rei.

Melodia parecia olhar sempre para o além, tentando lembrar as músicas que eu ia falando, como se elas estivessem perdidas no ar.

Nosso papo, durante anos foi esse, curto e grosso. Nós acabou sendo relançado em formato CD em 2012, quando eu já estava partindo pra carreira solo e já não via mais Melodia aos domingos. O CD veio com o capricho da gravadora Discobertas, encarte e as letras das canções, inclusive Passarinho Viu.

Eram milhões de passarinhos

Era um dia encantador

Há quem salve o meu corpo n’água

Há quem salve o salvador

O passarinho meu vizinho

Onde é que eu vou cantar

Nesta cidade que me encontro, help

De help mesmo não tem nada

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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