ÀS MOSCAS

As moscas marcaram uma presença forte e constante durante toda a minha infância e juventude. Tinha mosca pra tudo quanto é lado. Não que eu vivesse num lixão ou coisa parecida. Elas estavam é dentro da minha casa.

Lembro-me bem da minha mãe espantando moscas na cozinha na hora de abrir a lata do Leite Moça pra fazer pudim. Elas entravam pelo basculante, ficavam sobrevoando a fruteira, o açucareiro, pousavam no teto, se equilibravam na boca da jarra de laranjada, sem o menor constrangimento.

Na hora do almoço, lá estavam elas sobrevoando a mesa, tentando pousar em algum lugar. Meu pai vinha com uma régua de madeira, assassinando uma a uma, em golpes certeiros. Mas algumas conseguiam se safar e voltavam minutos depois.

As moscas fizeram parte da minha vida durante muitos e muitos anos. Quem não se lembra da expressão comeu mosca? Era aquele cara desatento que perdeu o fio da meada, pegou o bonde andando.

E tinha mais.

Mosca morta era aquela figura meio lesa, meio devagar, sem sal.

Acertou na mosca era quando a professora perguntava a capital da Noruega e a gente respondia na lata: Oslo!

Quem não se lembra da expressão em boca fechada não entra mosca?

E nos jogos do meu América Mineiro, que os locutores viviam dizendo que o campo estava praticamente às moscas?E o cara que bobeou, que deu uma moscada?

Quem não se lembra daquelas lâmpadas azuis nos lustres, pra espantar as moscas dos pães doces nas padarias?

Millôr Fernandes, um dia, escreveu que “pior não é morrer. É não poder espantar as moscas”.

Ela já foi capa do jornal Opinião no auge da repressão, já foi capa daquele primeiro disco experimental de Walter Franco, já virou até filme. Quem não viu A Mosca, de David Cronemberg? Ela já foi musa de Raul Seixas quando pousou na sua sopa e até atriz principal do filme Fly, da Yoko Ono.

Não sei se o Globo Repórter já fez um programa sobre ela, explicando quem são, de onde vieram, onde vivem, de que se alimentam, mas a verdade é que elas estão desaparecendo. Pelo menos aqui em São Paulo, no meu bairro, na minha casa, está cada vez mais difícil ver uma mosca.

A última aparição dela, em grande estilo, foi no dia 2 de maio do ano passado, na primeira página da Folha de S.Paulo, mais precisamente no rosto da então presidente Dilma Rousseff. Mas, no dia seguinte, veio o Erramos: “A legenda da sequência de fotos com Dilma Rousseff afirma que a presidente estaria sendo perturbada por uma mosca. Não é possível afirmar com precisão, entretanto, se o inseto é, de fato, uma mosca”. Ficou a dúvida no ar.

Não que eu sinta falta delas, na verdade, mosca enche o saco, mas hoje acordei intrigado com essa história de as moscas estarem sumindo do mapa.

O mais impressionante dessa história toda é que quando eu terminei esse texto e fui regar minha pequena horta na varanda do meu apartamento, lá estava uma, paradona, esperando pra ser fotografada, acho que pra ilustrar essa crônica e contrariar minha tese.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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