NOSSA MASTERCHEF

A Margarida é imbatível na culinária. Não conheço ninguém que cozinha melhor do que ela. Tudo que faz é de comer de joelhos. Seja um singelo ovo frito ou uma simplória salada de alface. Não existe igual.

Onde ela põe a mão, tudo fica delicioso, parece mágica. Até mesmo aquele mexidão de fim de noite, tipo Lavoisier. Na carne louca, no risoto de aspargos, na polenta com ragu, na sopa de legumes, no caldo verde, a Margarida é um espetáculo. O creme de cupuaçu, uma de suas especialidades, é divino e maravilhoso.

Mas a minha sogra tem um particular: Não gosta de seguir à risca receita de ninguém. Seja Rita Lobo, Claude Troigois, Rodrigo Oliveira, Henrique Fogaça, Nigella Lawson, Paola Carosella, Tatiana Cardoso, Olivier Anquier ou Jamie Oliver. Ela gosta de mudar, de ir adaptando as receitas, fazer do seu jeito.

Aqui em casa funciona mais ou menos assim quando ela assume a cozinha: A Paulinha abre o laptop na bancada e coloca todos os livros da Panelinha ao seu inteiro dispor. Ela dá só uma olhadela por cima e pede pra ir ditando os ingredientes.

– Dois ovos!

– Não precisa de dois, só um ovo basta.

– Duas xícaras de farinha de trigo integral.

– Não precisa ser integral.

– 200 gramas de manteiga.

– Duzentas? Vou por cem.

– Três copos de leite.

– Vou colocar um e meio.

– Vai precisar de um abacaxi em pedaços.

– Banana picada fica muito mais gostoso.

– Deixe descansar por 15 minutos.

– Não precisa disso tudo.

A Margarida vai mudando a receita, mudando, mudando e o resultado é sempre surpreendente, muito melhor do que o original.

É sempre assim. Ela não se conforma com os ingredientes das receitas, tampouco com as medidas. Outro dia ela começou a fazer um feijão tropeiro, foi mudando tanto que chegamos a uma deliciosa feijoada completa.

E que feijoada!

Eu até que arrisco umas coisinhas na cozinha aqui em casa, mas perto dela sou um Zé Mané qualquer.

A Margarida faz bolos que deixa qualquer pâtissier no chinelo. Bolo de laranja, de fubá, de coco, recheado com morango e leite condensado, de chocolate belga, quase todo dia ela faz um e cada um melhor que o outro.

Tem mais um detalhe. Ela também não gosta de ver ninguém por perto ajudando ou palpitando.

– Não é assim que corta cebola!

– Não pode picar o tomate tão pequeno!

– Tirou o caroço da azeitona?

– Não! Não! Não! É preciso lavar e secar o arroz.

– Você esqueceu de deixar o feijão de molho, né?

– Tá errado! Morango tem de ser orgânico!

A bagunça que nossa querida Margarida faz na cozinha é um capítulo à parte. Não vou entrar em detalhes porque ela não vai gostar. Mas já teve um dia que, depois de fazer um risoto de aspargos aqui no domingo, tinham 16 panos de pratos usados, sete panelas, onze facas, cinco colheres de pau, três raladores de queijo, sem contar os potes e gamelas.

Só pra ferver uma água, às vezes ela usa umas quatro panelas.

A verdade é que a Margarida cozinha mesmo como ninguém. Não existe língua de boi com ervilhas melhor que a dela. E a salada de bacalhau? E a rabada com cenoura?

Mas se você esta achando que a minha sogra não se conforma apenas com as receitas dos chefs e seus ingredientes, ledo engano. Ela não se conforma também com as bulas de remédio, nem mesmo obedece as indicações daquela voz do Waze.

– A 200 metros, vire à direita.

Vou virar à direita coisa nenhuma. Cê tá maluco?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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