O TELEFONE

Com o adiantado da idade, muitos jovens começam a me perguntar sobre a vida, como ela era. Hoje vou falar do telefone.

Ele era preto, pesado, fixo, preso por um fio. Ficava geralmente na sala de jantar, em cima do catálogo telefônico.

O catálogo era um calhamaço, metade branco, metade amarelo. Nas páginas brancas os nomes e os números de todas as pessoas que possuíam um telefone. Ordem alfabética e por endereço. Nas páginas amarelas, anúncios.

O telefone era de disco e a gente ficava girando, compondo o número de quem queríamos falar.

A gente tirava do gancho e ele estava sempre mudo. Ficávamos um tempão esperando ele dar o sinal.

Com o telefone, passávamos trote porque ninguém sabia, nem desconfiava, quem estava ligando.

– Quem está na linha?

– É o Juarez.

– Então sai da linha que lá vem o trem, Juarez.

Eram trotes bobos mas nós nos matávamos de rir.

Telefone custava uma fortuna, o preço de um Volkswagen. Era tão caro que quem tinha um, era obrigado a declarar no Imposto de Renda

Havia uma loja que se chamava Banco do Telefone. Lá, eles informavam quanto estava valendo o seu número naquele momento. Muitas pessoas não vendiam, esperando valorizar.

Gente pobre não tinha telefone mas, na comunidade, sempre tinha alguém que tinha. Então esse número era passado adiante e, em seguida do número, entre parênteses, vinha a palavra recado.

Todo mundo sabia de cor o telefone de todo mundo, principalmente dos parentes, da farmácia, do armazém, da Rádio Patrulha e do Corpo de Bombeiros.

Para comprar um telefone, você precisava entrar numa fila de espera da Companhia Telefônica e, só por um milagre, eles te chamavam.

A primeira música registrada no Brasil, como samba, chamava-se Pelo Telefone. Foi composta por Donga e Mario de Almeida em 1917 e dizia assim:

O chefe da polícia 

Pelo telefone

Manda me avisar

Que na Carioca tem uma roleta

Para se jogar

Na escola, nas aulas de História, éramos obrigados a decorar quem foi o inventor do telefone. Todo aluno sabia que foi o inglês Alexander Graham Bell.

Não havia DDD nem DDI. Para fazer uma ligação para outro estado ou outro país, era preciso chamar a telefonista e pedir a ligação que, às vezes, demorava horas. E quando a ligação saía, a gente tinha que quase gritar pra pessoa do outro lado da linha ouvir.

O preço da ligação interurbano era muito alto e as pessoas falavam somente o necessário e numa velocidade estonteante.

– Tô ligando pra dizer que tia Maricota morreu e o enterro é amanhã cedo!

Todo adolescente passava horas conversando no telefone e todo pai ficava uma fera quando tentava falar com a casa e estava sempre ocupado, com o adolescente na linha. Quando ele conseguia, era uma bronca de todo tamanho.

– Tem duas horas que estou tentando ligar ai!

Havia uma brincadeira idiota chamada dar um telefone. Era dar um tapão nas duas orelhas ao mesmo tempo, deixando a pessoa ouvindo aquele zumbido durante um tempão.

Quando a conta do telefone chegava, todo mundo levava um susto com o valor e sempre descobria um telefonema para uma cidade lá do interior do Piauí que ninguém sabia quem foi que deu.

Em 1969, o telefone era uma coisa tão importante que ele foi capa da revista Veja, quando a revista Veja era uma revista muito importante.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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