AS QUATRO ESTAÇÕES

foto Alberto Villas

O susto começou com o choque térmico, quando voltei ao Brasil depois de sete invernos. Zurique ficou pra trás abaixo de zero e o Rio 40 graus chegou depois de doze horas de voo, em plena terça-feira de Carnaval.

Nos anos longe daqui, fui me acostumando, aos poucos, com cada estação. Cheguei no auge de um rigoroso inverno e convivi os primeiros meses com a cidade encoberta por nuvens de um cinza quase chumbo. Era o céu que tínhamos para nos proteger.

Nos primeiros dias, saía de casa levando um guarda-chuva, acreditando que um toró iria desabar sobre nossas cabeças a qualquer momento. Acostumei-me com aquele ritual de meias de lã, ceroulas, luvas e gorro na cabeça antes de por os pés na rua e o clarear apenas às nove horas da manhã.

Vi neve pela primeira vez, escorreguei no Boulevard Saint-Michel, quase caí. Fiz fotos, revelei e mandei pro Brasil.

Acostumei com as árvores sem folhas que, de início, achei que estavam todas mortas, marinheiro de primeira viagem.

De repente, foi chegando assim de mansinho, a primavera. O primeiro sinal foram os brotinhos verdes despontando nas árvores secas que não estavam mortas nada, apenas hibernando.

Os primeiros raios de sol apareceram na janela do nosso apartamento e cantamos juntos com George Harrison, Here Comes de Sun.

Aos poucos, a cidade foi ficando toda verde e iluminada. As pessoas começaram a colocar as manguinhas de fora, a deitar na grama dos parques e arriscar a primeira lambida no copinho de sorvete de pistache do Berthillon.

Depois da primavera, veio o verão. E veio pra valer. Com todas as suas cores e lufadas de vento quente à beira do Sena, outrora caudaloso, cinza e sombrio.

A cidade ficou vazia de seus moradores e foi invadida por turistas que circulavam com a cabeça cheia de ideias e máquinas fotográficas nas mãos. Com os seus mapas abertos, iam de norte a sul, de leste a oeste, descobrindo as surpresas da cidade mais linda do mundo.

O verão foi longo, só foi desaguar no fim de setembro, quando o vento chegou derrubando as folhas agora secas das árvores. Elas caíam sem parar e, com uma super-8 na mão, ia registrando aquele balé dourado, o começo do outono, o fim do verão.

Foi assim durante muitos e muitos anos passados fora, praticamente sem ver o mar, mas maravilhado com o verde tão lindo dos gramados campos de lá.

Era batata. Todo ano tinha, religiosamente, inverno, primavera, verão e outono, como se ilustrassem as quatro estações, obra prima de Antônio Vivaldi.

De volta, custei a me acostumar com o nosso país tropical. Não foram poucos os dias em que senti na pele o inverno, bem cedinho, a primavera no meio da manhã, o verão no inicio da tarde e o outono ao escurecer.

Vivi um verão que não acabava mais, durante uma longa temporada em Manaus. Fui curtir o nosso inverno em Penedo e o verão em São Miguel dos Milagres. Só faltou o outono, que nunca encontrei direito por aqui.

Agora, o calendário garante que a primavera acabou de chegar. Olho da janela e vejo, lá fora, o sol de verão, algumas folhas do outono caindo e, do outro lado da cidade, vejo nuvens cinzas do inverno e os ipês amarelos da primavera. Tudo ao mesmo tempo, ao som de Tim Maia.

Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti, pode o outono voltar, eu quero estar junto a ti. Porque é primavera e eu trago pra ti esta rosa para te dar porque, pensando bem, hoje o céu esta tão lindo, vai chuva!

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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