UMA FOTOGRAFIA NA PAREDE

De Lilás, guardei a imagem das gotinhas de sangue que pingaram quando cortei o umbigo do meu primeiro filho, ali na clínica do Doutor Frédérick Leboyer.

De Paris, guardei calos nas mãos, lembrança da vida de operário construindo autoestradas que rasgavam a paisagem roxa de lavandas.

De Belo Horizonte, guardei a casa da rua Rio Verde onde nasci, hoje demolida para dar lugar a um empreendimento imobiliário que ganhou o nome de Memorial Villas.

De Istambul, guardei a reza com tons de lamento que ecoava dos autofalantes das mesquitas todos os dias, seis horas em ponto.

De Amsterdam, guardei aquela draga retirando dezenas e dezenas de bicicletas do fundo dos canais.

De Havana, guardei os retratos de Fidel nas carteirinhas das meninas de trança saindo da escola.

De Kaymakli, guardei a música Olhar 43 na voz de Paulo Ricardo, saindo de um radinho de pilha num hotelzinho de barro onde dormi, fugindo das bombas.

De Tóquio, guardei a delicadeza da vendedora da Uniqlo pegando o meu cartão de crédito com as duas mãos e me explicando que ele seria colocado numa máquina para me cobrar 98 ienes.

De Abidjan, guardei o vapor da sopa quente de pimenta que tomei na calçada, no dia em que o povo foi às urnas eleger Félix Houphouët-Boigny o seu presidente.

De Londres, guardei a performance de Sid Vicious e Johnny Rotten num show que vi quando era fã dos Sex Pistols.

De Estocolmo, guardei a imagem da cidade branca de neve que via da janela de um castelo, enquanto esperava a princesa Silvia para uma entrevista.

De Praga, guardei o jogo americano do McDonald’s que oferecia, além do Big Mac, meio repolho cru.

De Damasco, guardei o gosto das tâmaras que serviam no café da manhã num albergue pobre onde dormi.

De Roma, guardei o ronco das lambretas que passavam levando freiras, padres e coroinhas para lá e pra cá.

De Kyoto, guardei uma pedra porosa que colhi no Templo Kinkaku-ji para enfeitar minha escrivaninha.

De Beirute, guardei o rastro dos jatos israelenses ameaçadores cortando o céu que nos protegia.

De Montevidéu, guardei a busca incansável atrás do fusca azul de José Mujica, que nunca vi.

De Brasília, onde morei menino, guardei o verde tão lindo dos gramados campos de lá.

De Santiago, guardei a estátua de Salvador Allende na porta do Palácio de la Moneda, onde o presidente socialista morreu de susto e de bala.

De Viena, guardei os petit fours das vitrines das confeitarias, que mereciam ser embrulhados pra presente, um a um.

De Buenos Aires, guardei o sabor da tábua de frios do adorável Café Tortoni.

De Manaus, guardei a gordura escorrendo das costelas de tambaqui no Canto da Peixada.

De Cuiabá, guardei as histórias de capivaras que o repórter Heraldo Pereira contava todas as noites, na mesa do Caxara na Brasa.

De Dacar, guardei os lambris das paredes do aeroporto internacional onde, numa madrugada de chuva, fizemos um pouso forçado.

De Cataguases, guardei o primeiro beijo tímido e torto, ali na praça Santa Rita, depois de uma festa de São João.

Do Rio de Janeiro, guardei um tiroteio na Rua Farme de Amoedo, no meio da madrugada quando voltava do show da vida.

De Barcelona, guardei as linhas tortas da Casa Milà riscadas por Antoni Galdi.

De Lisboa, guardei o Guia Fernando Pessoa que comprei na Livraria Bertrand, indicando as ruas por onde andou.

De Berlim, guardei a fotografia da seleção da Alemanha Oriental vestida de azul, que vi dependurada na parede do museu da DDR.

De Ouro Preto, guardei as performances de Julian Beck e Judith Malina numa noite fria em praça publica, quando a polícia chegou.

De Ouagadougou, guardei a única partida de rugby que vi e nada entendi.

De Atenas, guardei o gosto da melhor melancia do mundo que comprei numa barraquinha na periferia.

De São Miguel dos Milagres guardei a esperança que não vinha do mar nem das antenas de TV.

De Ponte Nova, guardei a goiabada cascão da Zélia e o queijo do Armazém de Zezé Santana, que comíamos de joelho.

De Sófia, guardei os biscoitos wafer que fui obrigado a comprar com o dinheiro local para poder entrar na Bulgária.

De Itabira, que vou conhecer nesse fim de semana, quero guardar aquela fotografia na parede e sentir como dói.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br