TUDO PASSA

Quando lancei o meu primeiro livro  – O mundo acabou! – há dez anos, reuni nele tudo que tinha sumido do mapa com o tempo. Tudo mesmo. Do horizontal da TV ao Simca Chambord, do Crush às calças Far-West, da fotonovela ao Mug.

Dez anos se passaram e as coisas continuam desaparecendo. Hoje, algumas pessoas se lembram com saudade do Orkut e outros nem se lembram mais da palavra sumidade.

Lendo uma carta que Jorge Amado escreveu em 1994 a José Saramago, me deparei com um baiano espantado perguntando ao português como era possível ter vivido, até então, sem o fax. Pobre fax, que surgiu como uma revolução e está se despedindo do mundo como uma tralha pesadona e ultrapassada.

No meu livro, eu não lamentei melancolicamente a morte de algumas coisas, apenas constatei com um tiquinho de saudade, por exemplo, o fim da revista em quadrinhos do Reizinho, da banana Split das Lojas Americanas, dos soldadinhos que vinham dentro do vidro do Toddy e daquele brinquedo chamado O Pequeno Cientista que um dia ganhei do Papai Noel.

Senti saudade das garotas do Alceu nas páginas da O Cruzeiro, daquela brincadeira da Língua do P, da primeira japona que ganhei e de um programa que passava na TV Itacolomi chamado Agarre o que puder.

Mas, sinceramente, não senti saudade nenhuma daquele sabonete Maderas do Oriente que ganhava da minha tia todo aniversário. Odiava ganhar sabonete de aniversário e ela insistia em me dar uma caixa com três.

Como também não senti saudades das camisas Volta ao Mundo que espetavam, do Ki-Suco que tinha gosto de remédio, nem da escola de datilografia que minha mãe não sossegou enquanto não tirei o diploma.

O mundo caminha e, como disse George Harrison em seu primeiro disco solo, tudo passa.

Nesses dez anos que passaram, a gente está vendo o desaparecimento de muita coisa. Acredito que, em pouco tempo, não teremos mais jornal de papel, chave ou cheque. O jornal agora está na tela, a chave está virando cartão e do cheque vai sobrar apenas o nome, principalmente quando falamos de cheque especial.

Brinquedos desaparecem, revistas desaparecem, programas de televisão desaparecem, automóveis desaparecem, modas desaparecem, costumes, gírias, piadas, tudo desaparece.

Essa semana, andando pelas ruas de São Paulo e olhando de vez em quando pra cima, senti falta de uma coisa.

Onde andam os tênis que viviam dependurados nos fios da cidade? Por tudo quanto é canto que passávamos, lá estava o par de Bamba estropiado balançando no fio. Se não era Bamba, era Kichute ou Conga.

O tênis ficava velho e os jovens adoravam jogar ele pra cima, até que ficasse lá apodrecendo pela chuva. Perguntei para amigos porque as pessoas não jogam mais o tênis nos fios e vieram algumas respostas.

O tênis está custando muito caro. Ninguém tem coragem de jogar um Nike, um Puma, um Le Coq Français, um Misuc ou um Asics pros ares, por mais escangalhado que esteja.

Segundo, os homens da Vivo, da Net, da Tim, da Claro e da Oi vivem subindo nos postes e mexendo nos fios. Se alguém se atrever a jogar um tênis lá, ele não dura meia hora. Em outros tempos, os fios de telefone, que eram fixos, e os de luz, ficavam lá quietinhos anos e anos. Agora a coisa mudou.

Olha, eu decidi que assim que o meu Adidas acabar de acabar, vou amarrar um par no outro e jogar pra cima. Quero só ver quanto tempo ele vai ficar ali balançando no fio que passa na porta da minha casa.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

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