DOIS MIL E DEZOITO

Quando novembro chegava, era sinal de que o Natal não estava muito longe. Era na primeira semana do mês que um caminhão Dodge1958 parava na porta da nossa casa e buzinava.

O meu pai ia lá e acompanhava a descida da carroceria de um engradado com um peru, vivo. O bicho, ofegante de uma viagem de Ponte Nova a Belo Horizonte, era levado pro quintal. Minha mãe vinha logo com uma latinha de marmelada Cica com água fresca para recompor o danado.

O meu pai chegava com o martelo na mão e começava a desencaixotar o peru, retirando grampo por grampo, prego por prego. De repente, ele estava solto no galinheiro, todo serelepe, sacudindo o corpo e dando suas primeiras glugluzadas.

Pobre coitado, não sabia o que o esperava.

Nos supermercados não havia, para vender, peru morto, congelado, temperado, ou com apito. Para comer um na ceia do dia 24, era preciso comprar, vivinho da silva.

O nosso vinha de Ponte Nova, terra da minha mãe e do João Bosco, e era de graça, presente de um tio torto, o Zezé Santana. O peru ficava ali engordando no galinheiro um mês e pouco, às vezes procurando briga com o galo índio, o dono do pedaço.

Os vizinhos não se importavam com o barulho que ele começava a fazer logo cedo, quando o meu pai chegava no quintal e assobiava. Era só assobiar que ele soltava o seu gluglu.

O peru no galinheiro era o começo de tudo. Minha mãe descia do sótão as caixas com o presépio, as bolas e os penduricalhos da árvore e os enfeites vindos da América do Norte que espalhávamos pela casa, desejando Merry Christmas e Happy New Year.

Ela começava a fazer uma lista de compras e a observar, no Mercado Central, se as frutas secas já estavam com um preço bom e se as uvas Niágara já estavam docinhas. O meu pai ficava de olho no garrafão de Sangue de Boi.

Na metade pra frente do mês de novembro começava o fuzuê na nossa casa. O meu pai pegava papel, régua e compasso e bolava como seria o presépio daquele ano. Engenheiro, calculava cada centímetro quadrado numa projeção em 3D, numa época em que ninguém ainda falava em 3D.

Quando dezembro chegava, o clima de Natal esquentava. Minha mãe comprava pêssegos e figos verdes pra preparar compotas e passava horas descascando aquelas frutas, que deixavam sua mão preta de nódoa.

Lá pelo dia 20, era o dia da matança do peru. Uma cena cruel que nunca saiu da cabeça dos cinco pequenos Villas. Era um ritual. O meu pai dava uma talagada de cachaça pro bicho, antes de começar o assassinato.

Depenava o pescoço e passava a faca afiada. O sangue esguichava e ia caindo num prato de ágata com um pouco de vinagre para não talhar. Muitas vezes – lembro-me bem – o danado escapulia de suas mãos e saía pulando pelo quintal, já sem cabeça, espirrando sangue no muro branco que deixava minha mãe muito furiosa.

No dia 24, o meu pai levava o peru para assar na Padaria Savassi. Era no porão da padaria que ficavam aqueles perus enfileirados, devidamente etiquetados pra ninguém levar pra casa o peru de outro.

Paro por aqui porque esse ano, sei lá, não estou sentindo clima de que vai haver peru, que vai haver presépio, árvore, compotas de pêssego e figo, nem Sangue de Boi.

Não vai haver rabanadas como aquelas que minha mãe fritava num tacho de cobre, nem mesmo presentes nos sapatos. Desconfio que não vai ter Merry ChristmasHappy New Year, sequer Brasil.

[Crônica da semana publicada no site da revistas Carta Capital]

cartacapital.com.br

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