PROFISSÃO REPÓRTER

A primeira vez que pus os pés numa redação de jornal, senti um frio na barriga, um tremor nas pernas. Entrei pela porta principal do Estado de Minas, subi as escadas e fui direto na mesa do pauteiro, que já me esperava com uma lauda na mão.

Tinha eu 21 anos de idade, Glostora no cabelo e alguns meses de faculdade. Carregava dentro de mim aquela declaração de Gabriel García Márquez a um jornal colombiano, no auge do sucesso dos Cem anos de solidão: “O Jornalismo é a melhor profissão do mundo”.

A minha pauta era passar o dia no Edificio JK, uma espécie de Copan à mineira, plantado na Praça Raul Soares. Queriam uma grande reportagem e lá fui eu. Bloquinho espiral e caneta Bic nas mãos, passei o dia observando e entrevistando pessoas no Edifício JK. O síndico, os visitantes, os vizinhos, os moradores, que iam de idosas a hippies, de travestis a executivos. O JK era uma fauna e um prato cheio – chavão da época – para uma reportagem de comportamento.

Só no dia seguinte, o segundo de trabalho, sentei na máquina de escrever e comecei a decifrar aquelas anotações feitas às pressas, quase ininteligíveis. Suei frio até colocar o ponto final. A reportagem, de página inteira, saiu na edição de domingo daquele jornal que era gordo e pesado nos fins de semana.

Quase não dormi no sábado, esperando o dia amanhecer e o entregador do Estado de Minas passar de bicicleta e jogar o jornal no alpendre da minha casa.

Quando ouvi o barulho, abri a porta, peguei o danado nas mãos e comecei a folheá-lo ali mesmo, meio desesperado, deixando de lado os classificados.

De repente, lá estava minha primeira reportagem assinada, a primeira, aquela que a gente nunca esquece. Bonita, bem diagramada, cheia de bossa. Pelo menos era assim que eu a via.

Logo cedo o telefone começou a tocar. Eram os amigos do meu pai, desorientados, perguntando se era ele quem tinha escrito a reportagem sobre o Edifício JK. O meu pai tinha o mesmo nome que eu mas era um meteorologista apaixonado pelas nuvens cumuliformes, pelo barógrafo, pelo higrógrafo, pelo heliógrafo e pelo pluviômetro, que media a quantidade de chuva que desabava sobre nós.

Acreditei mesmo no Gabo e segui em frente. Foram muitos e muitos anos de jornal e de televisão, exercendo a melhor profissão do mundo.

Nessas décadas todas, o jornalismo mudou muito. Trocamos as máquinas de escrever pelos computadores, a mocinha do arquivo pelo Google, trocamos a régua e o compasso da diagramação pelo design arrojado dos Macintoshs. Lá se foram as laudas, as radiofotos, o cafezinho em xícaras de porcelana e o contínuo que sabia direitinho quem estava ficando com quem.

Hoje, ninguém mais precisa esperar a segunda-feira para ver no jornal a radiofoto da bandeirada do Grand Prix da Inglaterra, toda cheia de riscos.

Os jornais em preto e branco ficaram coloridos e a televisão também ganhou cores e mais de cem canais. Foi-se embora o botão de horizontal, de vertical e o da luminosidade.

Um dia, um amigo meu disse que o jornalismo começou a morrer quando proibiram os feirantes de embrulhar o peixe em jornal. Fiz cara feia, na época.

O mundo hoje é outro. As noticias e as imagens entram pelo smartphone 24 horas por dia. Mas o bom e velho jornal de papel resiste bravamente. Se você passar hoje numa banca ele vai estar lá, escondidinho no meio de refrigerantes, brinquedos, chips, chocolates e chicletes. A única diferença é que agora são vendidos por quilo, embrulhados em pacotes de plástico e o aviso que é pra cachorro.

Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital

cartacapital.com.br