HOJE NÃO TEM MARMELADA

Quando a gente acordava e via aqueles cartazes enormes colados nos muros, era sinal de que o circo estava chegando à cidade. Coloridos, com letras garrafais e trabalhadas, anunciavam. O circo vem aí!

A concretização daquele sonho de menino vinha quando as primeiras carretas começavam a descer a BR-3 rumo a um terreno baldio, não muito longe dali do bairro do Carmo.

Sentávamos no capim meloso à beira da estrada e ficávamos ali vendo aquele desfile que durava um bom tempo. Eram caminhões e carretas pintadas de vermelho, amarelo e azul, carregadas de sonhos e ilusões.

Quando ficávamos sabendo onde o circo seria montado, corríamos pra lá para acompanhar o passo a passo. Era uma semana inteira de trabalho, da estaca principal para montar a lona até a chegada dos animais.

Eles chegavam quando tudo já estava praticamente pronto, inclusive a serragem espalhada no chão, encobrindo aquela terra vermelha batida dos lotes vazios onde jogávamos finca.

Quando os bichos apontavam, era um espetáculo à parte. Eles vinham em carretas especiais, gradeadas e estavam sempre andando de um lado para o outro dentro daquelas jaulas, ligeiramente aflitos. Leões, tigres, ursos, macacos e quando o circo era grande, vinham também elefantes, cavalos e camelos.

Até o dia da estreia, gostávamos de passar as tardes ali, muitas vezes indo direto do Colégio Marista sem nem mesmo almoçar, só pra ver o movimento, os funcionários acertando os últimos detalhes. Encaixando as arquibancadas, dependurando bandeirinhas, molhando a serragem pra baixar a poeira, montando a bilheteria, escovando os bichos.

Ficávamos impressionados com a quantidade de carne que jogavam para as feras. Eles estraçalhavam em segundos aquelas peças de carne de terceira, com uma fome de leão.

O tratador vinha com uma caixa de bananas maduras e ia jogando uma a uma pros macacos, que descascavam e comiam, como se fossem gente.

Os camelos ruminavam sem parar um capim seco, enquanto os ursos comiam um peixe que exalava um cheiro forte e ruim.

O dia da estreia era de pura excitação. Para garantir um bom lugar na arquibancada, íamos para o circo muito antes mesmo de abrir a bilheteria. Era bonito quando entrávamos e víamos o sol que filtrava e passava por aquela lona com listras azuis e brancas. Lá estava o picadeiro arrumadinho e o trapézio balançando vagarosamente a espera dos artistas.

Quando o palhaço entrava saltitante perguntando pra meninada se hoje tinha marmelada, era sinal de que o espetáculo estava começando. Passávamos mais de uma hora ali sentados comendo pipocas, chupando drops Dulcora, fumando cigarrinhos de chocolate da Pan e bebendo Crush.

Não tirávamos os olhos de nada, observávamos cada detalhe, cada cantinho. Os leões pulando o arco de fogo, os cavalos dançarinos, os ursos equilibristas e os macacos andando de bicicleta.

As trapezistas entravam com minúsculos shortinhos de seda azul piscina, quase voando bem em cima das nossas cabeças.

Os palhaços faziam a gente rir com aqueles tapas falsos e quedas livres. Tinha um, anão, que nunca me esqueci. Era o Meio Quilo.

Nunca perdíamos o último dia de espetáculo, quando baixava uma tristeza em todos nós. Na manhã seguinte, voltamos àquele terreno para ver os funcionários desarmarem tudo e seguir viagem. A gente sonhava em ir embora com eles, viver essa vida meio de cigano andando por aí, mas nunca tivemos coragem.

Era um tempo em que vivíamos sem smartphone, sem microondas, sem Netflix, sem senhas, sem caixa 24 horas, sem Waze, sem as cores da televisão, sem cartão de crédito.

Era um tempo em que tínhamos a Varig, a Mesbla, a Revista do Rádio, o Simca Chambord, o Rintintin, o Joãozinho da piada, a enceradeira, a calça Far-West, a Família Trapo e o Circo Orlando Orfei.

[Crônica da semana publicadas no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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