COMO FUNCIONA?

Meus amigos Claudia e Marcello tiveram uma ideia superbacana, decorar a árvore de Natal da casa deles com fotos Polaroiddos amigos. Semana passada, nós, amigos do peito, fomos convocados para uma feijoada completa em sua casa, seguida de uma seção de clicks.

A feijoada estava divina, o caju amigo geladinho, a sobremesa de comer de joelhos, o café no ponto e o papo maravilhoso. Mas a árvore ainda estava muito verde, sem as tais fotografias. Estava enfeitada com apenas umas cinco chapas, contando com a da cadelinha Madalena.

 

No final da tarde, chegou o momento das fotos. Claudia pegou a Polaroid último tipo, recém chegada dos States, e veio toda serelepe para fazer as fotos, uma a uma. De repente, olhou para aquela engenhoca, olhou pra cá, olhou pra lá e soltou um help:

– Isabela! Como funciona isso aqui?

Isabela, uma simpatia em pessoa, nem vinte anos, veio lá de dentro e, num toque mágico, simplesmente apertou o botão e pronto. Em menos de dez segundos, as chapas foram saindo lá de dentro da câmera, uma a uma, todas lindas.

Senti-me aliviado quando ouvi aquele Isabela, como funciona isso aqui? Sempre desconfiei que era só eu que não me dava bem com essas mil e uma novas invenções da tecnologia. A Polaroid, apesar de ser uma invenção dos anos 1940, pra mim ainda é uma novidade.

Hoje, aqui em casa tem apenas um marido e uma mulher. Vivemos perguntando como estamos sobrevivendo sem as meninas pra colocar essa parafernália toda pra funcionar.

Lembrei outro dia quando minha neta tinha ainda dois, três anos, e me viu atrapalhado com um controle-remoto na mão tentando ligar a TV. Ela olhou meio assustada pra mim e disse, com uma vozinha doce:

– Vovô, é só apertar o play!

E era. Ela foi lá com o seu dedinho, apertou o botão de play e a televisão se iluminou.

Vivemos muitos anos preguiçosos e dependentes das meninas.

– Má, vem ver o que aconteceu com o meu computador!

– Li, porque será que a impressora parou?

– Má, como faz pra melhorar essa foto?

– Li, porque a TV está sem sinal?

– Má, dá uma olhada aqui nesse micro-ondas que está todo apagado.

– Li, chama o Uber pra mim?

– Má, faz essa transferência?

– Li, você instala o Word pra gente?

Confesso que, sem elas, já aprendi a ligar a máquina de lavar roupa, a secadora, já aprendi a gravar um programa na TV, fazer o GloboPlay funcionar, melhorar as fotos, fazer a impressora imprimir e chamar o Cabify.

Somos da geração que nasceu em um mundo e está vivendo em outro. Temos medo das máquinas e o medo maior é apertar o botão errado e ele apagar o livro que estou escrevendo, apagar as luzes da casa pra sempre ou tirar a internet do ar.

Somos da geração que, nem morto, enfiamos uma nota de cem euros numa daquelas máquinas enfileiradas na estação Châtelet do metro, em Paris. Vai que ela engole o dinheiro e chama o próximo cliente…

Somos da geração incapaz de montar um simples criado-mudo da Tok Stok, quanto mais uma cama de casal ou umas prateleiras para dependurar vasos.

Agora, chegamos em casa, ligamos uma nova engenhoca na tomada e não acontece nada. Ai ligamos pra uma das filhas e ela pergunta calmamente…

– Mas vocês já configuraram?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s