O TAXISTA E O JORNALISTA

  

Sou do tempo em que motorista de táxi era chamado de chauffeur. Ele usava terno e gravata, sapatos polidos e um quepe da cabeça. Os táxis eram chamados de carros de praça e estavam sempre brilhando, cheirosos, à espera dos distintos clientes.

chauffeur costumava ficar com o automóvel estacionado no ponto mas, quando o movimento estava fraco, dava uma volta pela cidade em busca de passageiros. Passageiros que faziam o sinal com a mão para que eles parassem e, quando paravam, perguntavam:

– Está livre?

Sou do tempo em que jornalista chegava na redação, passava na sala de telex pra saber as últimas notícias, sentava na sua mesa e começava a batucar na Remington, na Olivetti ou na Royal.

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A redação era um fumacê barulhento e inquieto. As notícias chegavam pelas mãos dos contínuos, que iam distribuindo aquelas páginas recortadas do telex que sujavam as mãos.

Quando uma notícia urgente chegava ao redator, ele geralmente anunciava a última aos berros. Como, por exemplo:

– Bob Marley morreu!

Era uma correria, até mesmo aquele jornalista da editoria de economia vinha pra ver de perto o despacho que acabara de chegar. Um outro contínuo era requisitado para ir ao arquivo e tirar xerox de todo o material que havia sobre o rei de reggae, além de buscar nas pastas, a melhor radiofoto para ilustrar a página do jornal do dia seguinte.

Sou do tempo em que havia um garçom no andar da redação. Ele passava o dia vestido de garçom, com uma calça preta, paletó branco e gravata borboleta. Umas duas vezes por dia, passava com o seu carrinho de mesa em mesa oferecendo cafezinho quente em xícaras de porcelana aos jornalistas nervosos com seus cigarros no canto da boca, muitas vezes com o pincel do branquinho nas mãos, consertando os erros na lauda.

Sou do tempo em que jornalista usava carbono e escrevia suas matérias em laudas de papel, uma original e duas cópias. Uma ia para o editor, uma ele guardava e a outra ia para o diagramador que, com régua e compasso, já ia adiantando o desenho da página.

O taxista era e sempre foi taxista. Não tinha essa história de taxista que foi advogado, que trabalhava no RH do Bradesco, foi contador ou chefe do almoxarifado na Editora Melhoramentos e hoje é taxista. Era uma profissão de pai pra filho.

A vida do jornalista que trabalhava em jornal era meio dura e, muitas vezes, ele precisava de um segundo emprego pra poder dar conta de pagar as contas.

Foi assim para o jornalista durante muitos e muitos anos até que um dia apareceu o computador na redação, silenciando o ambiente, colocando a régua e o compasso do diagramador pra escanteio e o contínuo, sabe Deus pra onde foi.

O garçom foi substituído por uma máquina de café no corredor e aquelas máquinas pesadonas de telex foram para o museu ou para o ferro-velho.

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Foi assim para o taxista durante muitos e muitos anos até que apareceu o aplicativo, o Uber, o Cabify. E não é só aqui, é a mesma coisa no Zâmbia, no Zaire, no Zimbábue, em Cabul ou em Istambul.

Hoje circulo por ai e vejo muito jornalista meio perdido, bastante saudoso, aquele que gostava do cafezinho na xícara de porcelana, do tok tok tok da Olivetti e de ir na gráfica pra sentir o cheiro de tinta na sua reportagem.

Aqui na porta da minha casa ainda tem um ponto de táxi com meia dúzia de velhinhos que já se arvoraram em me dizer que estão conectados com o novo estilo de vida. Nada de passar o dia estacionado esperando cliente. De minuto em minuto eles atendem o celular pra ir buscar clientes.

Os novos taxistas não têm mais sossego nem pra ler o Notícias Populares porque, pensando bem, o Noticias Populares nem existe mais. Hoje, o máximo que conseguem é folhear o Metro, aquele jornalzinho distribuído nos sinais de trânsito. O mesmo que acontece com os jornalistas.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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