MUSEU DE TUDO

Tenho a mania de guardar pequenas coisas desde pequeno. Minha mãe nunca implicou comigo e acho que por isso eu ia guardando. Guardava tampinhas de Crush, de Mirinda, de Guarapan, de Guaraná Gato Preto e de Mate-Couro. Guardava caixinhas de fósforo da Panair, da Bardahl, do Copacabana Palace, da Pepsi-Cola e da Copa de 58. Guardava chaveiros da Mesbla, da Bemoreira, do Mappin, da Sloper e um escrito Dead End que o Beto Rockfeller usava na novela.

Colecionava selos que chegavam da União Soviética, da Tchecoslováquia, da Guiana Holandesa e da Alemanha Oriental, países que nem estão mais no mapa. Colecionava soldadinhos que vinham dentro do vidro de Toddy, marcadores de livros, carrinhos miniatura da Matchbox e moedas que o meu avô me dava nos fins de semana.

Quando morei em Brasília, na inauguração, a onda era colecionar adesivos de plástico. Muitos eram roubados e guardados numa caixa de sapato, os mais variados adesivos de plástico. Hoje, só sobrou um, o elefantinho do Jornal do Brasil, presente da Dayse. Era lá na sucursal que o seu pai trabalhava.

Eu gostava muito também dos brinquedos de lata, aqueles que fazem todo tipo de estripulias quando pegamos a chave e damos corda. O meu sonho de consumo era um disco voador, que até hoje fica aqui no meu escritório me espiando o dia inteiro.

Cresci e nunca perdi essa mania, uma mania de guardar coisinhas. Mas o que impressiona quem vem aqui me visitar é a organização. Não sei se isso é coisa de leonino, de mineiro ou de maníaco mesmo.

Passo o dia aqui nesse meu canto olhando as coisas que guardo há muitas décadas. De uns tempos pra cá dei pra guardar pedrinhas. Em cada cidade que vou trago uma, escolhida a dedo. Já tenho pedrinhas de Kyoto, de Itabira, de Atenas, de Cataguases, de Barcelona, de Belém do Pará, de Istambul, de Cunha, de Bogotá, de Belo Horizonte e tem uma que trouxe de Tóquio, achada num canteiro da avenida principal, que parece preciosa.

Guardo lápis também. Tem de tudo quanto é lugar, de tudo quanto é museu. Lápis quadrado, grande, pequeno, transparente, tem um que é a minha moeda número um. Ele é metade azul, metade vermelho, igualzinho ao lápis da Dona Maria Augusta Toscano, minha primeira professora. A resposta certa ela fazia um C em azul e quando estava errado, virava o lápis e fazia um X em vermelho.

Guardo muitas coisas avulsas que lembram a minha infância. Uma gotinha da Esso de porcelana, um elefantinho da Shell de plástico, um cachorrinho da RCA, a voz do dono, e muitos robôs de lata que andam quando a gente dá corda.

Tenho também centenas de cartões postais, mas não são cartões postais de paisagens não. São reproduções de obras de arte que vão de Botero a Van Gogh, passando por Renoir, Matisse, Monet, Gauguin, Coubert, Pissaro, Seurat, chegando a Basquiat, a Lucien Freud, Bacon e Mark Rothko. Sem contar os de Robert Crumb e o seu Mr. Natural.

O meu mundo é esse. Uma galinha de louça, um urso panda de feltro, um pato de porcelana, um cavalinho de pau, um pássaro de papel machê, um Gandhi de barro, um Buda de vidro, um Pinóquio de madeira, um cogumelo de papel celofane, cadeirinhas de plástico, um boton de Fora Temer, uma caixinha de chicletes do Líbano, coisas assim.

São muitas coisas e não posso me esquecer de algumas peças queridas. Uma garrafa de Ricard dos anos 1960, uma caixa de fósforo com a estampa de São Jorge, um ônibus de lata do Magical Mystery Tour, uma velhinha alemã de andador, uma garrafa marrom de Fanta alemã, um oratório feito pelo meu sogro com a imagem de Tim Maia, um elefante enferrujado da Fundação Saramago, é tanta coisa que me perco aqui.

Isso sem contar os livros e discos. O primeiro livro que li – Voo noturno, de Saint Exupéry – e o primeiro disco que comprei com o meu salário – Domingo, do Caetano e da Gal – estão aqui intactos. Só consigo trabalhar cercado das minhas coisas. Tem o livrinho vermelho do Mao em chinês, um exemplar de La Divina Commedia, de Dante Alighieri em italiano, as tragédias de Shakespeare em inglês, coisas antigas, bem mais antigas que eu.

Tenho um livro do João Cabral de Melo Neto que resume bem isso aqui. Chama-se Museu de Tudo  e, na página 269, tem um poema que diz assim: Esse museu de tudo é museu/Como qualquer outro reunido/Como museu, tanto pode ser/Caixão de lixo ou arquivo/Assim não chega ao vertebrado/Que deve entranhar qualquer livro/É depósito do que ai está/Se fez sem risca ou risco.

Esse meu museu de tudo, muitas vezes, me distrai tanto que, ao invés de escrever a crônica da semana pra CartaCapital, fico aqui só sonhando, só espiando, só viajando.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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