NOSSAS TIAS

Volta e meia, vira e mexe, o pauteiro de televisão, num dia sem assunto e precisando de uma matéria de comportamento, pensa numa daquelas reportagens sobre nomes bizarros, diferentes, pra lá de esquisitos. A melhor história que já vi, lembro-me bem, foi aquela do repórter Mauricio Kubrusly que coloquei no ar no Fantástico, quando ainda era chamado de show da vida.

Kubrusly pegou o primeiro avião com destino a Minas Gerais e foi lá que encontrou uma mulher com o nome de Elis Chamela de Maria. O pai, um caipira tipo Pirapora, chegou ao cartório de uma cidadezinha do interior para registrar a pimpolha recém-chegada ao mundo quando a mulher pegou um livrão de capa preta, dura, e perguntou:

– Como vai ser o nome da sua filha?

O caipira olhou pro teto, coçou a barbicha, arrumou o chapéu e disse:

– Elischamela de Maria…

E o registro foi feito, assinado, selado e carimbado. Só quando chegou em casa e a família foi ler o que estava escrito na certidão de nascimento é que descobriram que tinham em casa um bebê com um nome pra lá de esquisito: Elis Chamela de Maria.

A mulher do cartório, registrando uma criança atrás a outra, não percebeu que aquele caipira tinha dito, na verdade, eles chamam ela de Maria.

Mas hoje, não estou aqui para contar histórias de nomes bizarros. Estou aqui pra dizer que os nomes das nossas tias estão desaparecendo do mapa.

Será que alguém ainda tem alguma tia que se chama Tia Sinhá, Tia Nenê, Tia Zinhoca ou Tia Lelê?

Eu tinha muitas tias e todas elas carregam nomes assim. Nunca soube como era o verdadeiro nome de cada uma, aquele que estava no registro. Como se chamava Tia Ninita, Tia Dadá, Tia Laurita e Tia Zulu?

Na família da minha mãe, do meu vô Neco e da minha vó Zizinha, eram quatro filhas: Lali, Lili, Lilita e Liria. E diziam as más línguas que havia uma Lila, fruto de uma pulada de muro do velho.

Nomes assim estavam presentes em todas as famílias. Alguns, a gente até desconfiava qual era o verdadeiro nome. Tia Dasdô, por exemplo, devia ser Maria das Dores, Tia Gracinha era Maria das Graças e Tia Fatinha era Maria de Fátima. Mas se chamássemos cada uma com o seu nome próprio, ficava meio ridículo. Se alguém dissesse Tia Maria das Graças, por exemplo, ninguém sabia quem era.

Tive tias que morreram sem eu saber o nome. É o caso de Lenita, Maricas, Bibita e Zica.

Hoje, quando ouço alguém falando Tia Valéria, Tia Vera, Tia Paula, Tia Cristina, fico pensando com os meus botões: Mas que tias mais comuns, meu Deus! Morro de saudade de Tia Nicinha, Tia Dorinha, Tia Lurdinha e Tia Izildinha.

Nomes entram e saem de moda. Sofia, Joana e Alice, por exemplo, eram nomes de gente velha. Agora virou moda. Basta passar os olhos na lista dos aprovados no Sisu. Tem uma página inteira de jornal só de Mateus, de Vinicius, de André e de Gustavo. Tem uma página inteira só de Isadora, de Elisa, de Beatriz e de Camila.

Fico imaginando que, dentro de dez anos, vai ser uma enxurrada de João, de Joaquim, de Alice e de Valentina. Mas uma coisa é certa: Tem nome que não volta nunca mais. Geraldo, Djalma, Altair e Osvaldo, por exemplo. Desconfio  que esses nomes nunca mais surgirão na face da Terra, nem mesmo lá no interior de Minas Gerais, terra de Elis Chamela de Maria. Será que, nesse mundo, ainda vai nascer uma Marlene, uma Zilda, uma Sonia ou uma Elvira?

Mas voltando às nossas querida tias, eu sempre achei que isso era coisa desse nosso Brasil, ainda com um pé de moleque no caipira. Mas não é não. Quem não se lembra que o beatle John Lennon, lá em Liverpool, na terra da rainha, foi criado por Mary Elizabeth Smith, irmã de sua mãe, a famosa Tia Mimi?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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