MINHA ADORÁVEL FARMÁCIA

Ao descer a Rua Grão Mogol, em Belo Horizonte, eu já sentia, de longe, o cheiro da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, a farmácia do Hormínio, como todos chamavam. Era um cheiro de éter permanente no ar, cheiro que vinha lá de dentro onde ficavam as ampolas fervendo em recipientes de alumínio, esterilizando.

Era a única farmácia do bairro do Carmo, pomposa, com balcões de madeira de lei. Era lá que Hormínio dava pontos nos meus cortes provocados por peladas e injeções para curar os furúnculos que me perseguiam em épocas de provas de matemática.

Era lá que comprávamos o sal de frutas Eno, o Leite Ninho, a pomada Minâncora, o Biotônico Fontoura, a Emulsão Scott e o Óleo de Fígado de Bacalhau.

Farmácia era só farmácia, o farmacêutico usava um jaleco branco e estava sempre de plantão para uma receita rápida para dor de cabeça, de garganta, enjôo ou uma tontura. E o Modess já vinha embrulhado para não constranger a compradora.

Farmácia hoje não é mais farmácia, é um supermercado que vende até chicletes, Gatorade, Red Bull e Kero Coco.

A farmácia do Hormínio não era assim, era simplesmente uma farmácia. A gente chegava e, se pedia um sal de frutas Eno, só tinha um, que vinha dentro de um vidro. Hoje mudou, temos Eno sabor laranja, abacaxi, limão e guaraná.

Pasta de dente era só Kolynos e Golgate. A única variedade era a Kolynos com clorofila, verde, e o tamanho era sempre o mesmo. Hoje temos uns dez tipos diferentes só de Sensodine.

Pra dor de cabeça você podia escolher: Cafiaspirina ou Melhoral, aquele que é melhor e não faz mal. Hoje, além de uma vinte marcas de comprimidos para dor de cabeça, você pode até chamar a Neusa, se quiser.

Protetor solar não havia. O que tínhamos era o Copertone, aquele do menininho da bunda branca e o Cenoura % Bronze. Nada de fator 20, 30, 50, 70 e bloqueador.

A mamadeira que minha mãe comprava na farmácia do Hormínio era de vidro e só tinha um modelo. Ninguém imaginava o perigo do bebê jogar aquilo longe e provocar um estrago na família.

E chupeta, que em Minas chamam de bico? Era só pedir um bico e acabou. Hoje tem chupeta pra recém nascido, de 0 a 6 meses, de 6 a 12 meses, primeira dentição e por ai vai.

Minha tia era viciada nas Pastilhas Valda e pastilha Valda era aquela que vinha na latinha, toda revestida de açúcar.

Se você chegar numa farmácia hoje e pedir pastilha Valda, vai ouvir:

– Laranja mentolada?

– Classic?

– Classic diet?

– Colágeno hidronisado?

– Friends ou Aventura?

Sim, tem uma Valda Friends e uma Aventura.

Já se foi o tempo em que entrávamos na farmácia pra comprar gaze, esparadrapo, Anaseptil e mercúrio cromo. Tem anos que não vejo um vidrinho de mercúrio cromo na prateleira de uma farmácia. Acho que nem existe mais, deve ter sido proibido.

E termômetro? Já percebeu que tem uns dez tipos diferentes de termômetro? Já se foi o tempo daquele duro, de mercúrio, que a gente custava a enxergar a quantas andava a febre.

Emplastro Sabiá e Maracugina eram duas coisas que minha mãe sempre comprava na farmácia do Hormínio. Maracugina ela dava pra gente na colher, pra acalmar os cinco filhos.

Hoje, pensando bem, estou precisando de uma boa dose, uma colher de sopa, e vou até a farmácia da esquina comprar. Sei que sobreviveu aos tempos modernos e ainda existe e na mesma embalagem. Só não sei se tem diet, friends ou aventura. De qualquer maneira vou pedir uma Maracugina classic, a vendedora certamente vai entender.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

3 comentários em “MINHA ADORÁVEL FARMÁCIA

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