INSETOS E ARACNÍDEOS

De repente, eles foram sumindo. Não todos, quase todos. Restaram apenas alguns pernilongos para atazanar nossa vida e, de vez em quando, as abelhas que vivem numa colmeia no telhado da padaria, aqui perto da minha casa. Estou falando de São Paulo, da gente que mora no meio dessa selva de pedra, espigões por todos os lados.

Os insetos e os aracnídeos faziam parte da nossa vida de menino e não eram poucos. Haviam as minhocas que cavoucávamos da terra e elas saíam inteirinhas se debatendo assustadas de ver o perigo do mundo aqui fora.

Lembro-me das temerosas formigas que acompanhávamos o comboio que ia da laranjeira até o formigueiro, cada uma levando o seu pedacinho de folha. Lembro-me também das temíveis saúvas que morríamos de medo porque a picada formava um calombo que só aliviava quando minha mãe dava um banho de cânfora.

Haviam as borboletas no jardim da nossa casa, cada uma mais bonita que a outra. Medo também de passar o dedo naquele pozinho que solta das asas delas e colocar no olho. Era cegueira na certa, diziam.

Haviam os besouros que catávamos depois da chuva e, pobres coitados, iam parar dentro de caixas de fósforo para brincarmos de telefone. Eles ficavam se debatendo naquele croc croc croc sem fim e a gente fingindo que estava esperando dar linha.

Haviam as moscas varejeiras, aquelas esverdeadas voando como helicópteros, paradinhas no ar, esperando o nosso tapão.

Haviam os percevejos que grudavam na cortina da sala e, quando batíamos a mão, soltavam um cheiro forte que só saía quando lavávamos as mãos esfregando o sabonete Vale Quanto Pesa muitas vezes.

Haviam os gafanhotos verdes que eram sempre bem-vindos. Enormes, ficavam horas pousados no teto da copa. Ninguém tinha coragem de molestá-los porque, dizia a lenda, davam sorte.

E as pulgas? Minha infância foi povoada de pulgas. Eram tantas que a minha mãe sacudia o lençol de manhã e saia catando uma a uma e esmagando com a unha. As pulgas do cachorro Tupi, combatíamos apertando a latinha amarela de Neocid.

O tatu bola era o nosso inseto preferido. Adorávamos caçá-los na horta da minha casa. Era só encostar no bichinho que, esperto, ele virava uma bolinha, fingindo-se de morto. Ficávamos observando e depois de um tempo, ele se recompunha e saía andando todo serelepe.

A mais querida era a joaninha, vermelhinha, que pousava na nossa roupa e a gente pegava com a mão e deixava a bichinha percorrer nosso braço inteiro fazendo cócegas.

Escorpião, não chegávamos nem perto. Era o mais temível de todos. Sabíamos que uma picada de escorpião poderia ser fatal. Eles se escondiam debaixo das telhas empilhadas no quintal, aquelas que sobraram da reforma do galinheiro. Era só levantar uma telha que aparecia um escorpião andando meio tonto com aquelas garras viradas para cima.

O louva-deus era o mais elegante de todos. Adoravam sobrevoar numa velocidade estonteante a piscina do Minas Tênis Clube. Nunca conseguimos pegar um nas mãos, observar de perto. Eles eram muito espertos e velozes.

A taturana, como o escorpião, também passávamos longe. Não tinha uma vez que aparecia uma taturana no quintal e minha mãe não alertava:

– Cuidado porque esse bicho queima!

E queimava mesmo. Um dia um caiu da ameixeira no meu braço e a queimadura foi instantânea. Fui parar na farmácia onde tomei uma injeção não sei bem se foi pra evitar o tétano ou coisa parecida.

O vagalume era o mais misterioso de todos. Nunca conseguimos observar um de pertinho, descobrir o seu mistério. Só víamos vagalumes quando estávamos de férias na Fazenda do Sertão. Lá tinham muitos e não sei se é porque não havia luz elétrica, os vagalumes se sobressaíam na noites escuras que ficávamos apreciando da varanda da fazenda, sem ter nada o que fazer.

Nas aulas de Ciências Naturais, estudávamos todos esses insetos em trabalhos teóricos e práticos. Nos teóricos, explicávamos que os insetos são invertebrados com exoesqueleto quilinoso, corpo dividido em três tagmas, três pares de patas articuladas, olhos compostos e duas antenas. Sabíamos que o seu nome vem do latim insectum.

Nos trabalhos práticos, em placas de isopor, íamos espetando com alfinete um a um, depois de um banho de formol. Eles eram separados por famílias e tamanhos. Uma placa só de besouros, outra de formigas, outra de aranhas, mas a placa mais bonita, é claro, era a das borboletas. Tinha de todas as cores: laranjas, azuis, vermelhas, cada uma mais linda que a outra.

Todos esses insetos nós convivíamos diariamente com eles e, nas redondezas de Belo Horizonte, caçávamos para as aulas praticas, claro que tomando muito cuidado com os escorpiões, as taturanas e as aranhas. Aproveitávamos também pra colher folhas das árvores que eram enormes e muito variadas. Íamos guardando nas pranchetas para depois classificá-las e espetar no isopor, mas isso é outra história.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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