O BONDE DA HISTÓRIA

A coleção de revista que mais prezo, não empresto, não dou, não vendo por preço algum, é uma coleção completa da revista Bondinho. Guardo na minha revistaria à sete chaves, protegida contra traças e fungos, vigiada 24 horas. A minha coleção completa da Bondinho não tem preço.

Salvador Allende era eleito presidente do Chile, Paul McCartney anunciava o fim dos Beatles e o escritor soviético Alexander Soljenítsin ganhava o Nobel de Literatura quando a revista Bondinho foi lançada, naquele outubro de 1970.

Longe de São Paulo, eu sonhava em ser jornalista e fazia das tripas coração para conseguir um número aqui, outro ali. A Bondinho não era vendida em bancas, era uma revista do supermercado Pão de Açúcar, que não havia na minha Belo Horizonte.

Conheci os primeiros números na biblioteca de Jornalismo da  Faculdade de Filosofia, onde estudava. Muitas vezes matei as aulas de Sociologia e Jornalismo Comparado para ficar ali na biblioteca folheando, lendo e aprendendo com a turma da Bondinho.

Era uma turma e tanto, da pesada, todos chamados de malucos naquela época em que o jornalismo alternativo começava a ferver. Mas o que me deixava apaixonado pela Bondinho?

Era uma revista da cidade de São Paulo, que ainda não havia para mim, apenas imaginava os novos baianos passeando na tua garoa e pela letra de Tom Zé: São oito milhões de habitantes/De todo canto e nação/Que se agridem cortesmente/Correndo a todo vapor/E amando com todo ódio/Se odeiam com todo amor.

A cada quinze dias, os editores estampavam na capa o que estava rolando de mais quente na metrópole. O primeiro número chegou com a manchete “A cidade está escorregando”, já que o hit do momento eram os tobogãs, uma atração que se espalhou pela cidade.

No segundo número, “A cidade está amando”. Os repórteres foram atrás dos apaixonados que compravam rosas para suas paqueras, para suas namoradas, para suas amantes, para suas mulheres.

E assim foi número após número:

A cidade está bebendo e comendo com um grego

A cidade está comprando

A cidade está em festa

A cidade está em férias

A cidade está aniversariando

A cidade está descobrindo o povo Ban-Zai

A cidade está visitando um museu

A cidade está ficando hippie

A cidade está brincando

A cidade está rebolando

A cidade está sofrendo

A cidade está vendo Hebe Camargo

E assim por diante. Com uma equipe pra lá de criativa, a Bodinho inventava pautas originais e geniais. Uma repórter resolveu distribuir notas de cruzeiro na rua e todos, desconfiados, recusavam. Ai surgiu a manchete de capa:

A cidade está recusando dinheiro!

Em dezembro de 1972, a Bondinho mudou. Divorciou-se do Pão de Açúcar para entrar para a história. Assumiu que era uma revista de reportagem e o número com Chico Buarque na capa e uma entrevista de onze páginas, foi o primeiro que chegou na minha Belo Horizonte. A partir dai não perdi mais nenhum número.

A cada 15 dias, Seu Benito separava o meu exemplar e quando eu passava para buscar, lá estava ele dentro de um saco plástico, com todo capricho do mundo.

A Bondinho virou a minha Bíblia até hoje. Muitos anos depois, conheci pessoalmente e tive o prazer de trabalhar  com aqueles malucos em algumas aventuras: Mylton Severiano da Silva, Roberto Freire, Narciso Kalili, Hamilton Almeida, Humberto Pereira, Hamlet Paoletti, por exemplo.

A turma era tão animada que encheu de graça as bancas de jornais naquele início de anos 1970. Lançaram a revista Grilo, a Jornalivro, a Revista de Fotografia e uma revista de palavras cruzadas gigante com o sugestivo nome de Palavrão.

Em fevereiro de 1972, a revista saiu com Gilberto Gil na capa e trouxe encartado um compacto duplo do  baiano com quatro musicas: Felicidade vem depois, Oriente, Expresso 2222 e O sonho acabou.

O sonho acabou em maio de 1972, quando a Bondinho chegou às bancas pela última vez com o psiquiatra Jose Gaiarça na capa e dentro, numa fotonovela.

Hoje, a Bondinho é apenas um volume encadernado na minha revistaria, guardado a sete chaves, longe das traças e  fungos e pronto pra visitação pública, porque emprestar eu não empresto, dar eu não dou, vender eu não vendo.

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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