DOIS CÓRREGOS

No dia em que o estudante Edson Luís morreu, no Rio de Janeiro, estávamos a três dias de completar quatro anos do golpe militar que arrancou da presidência João Goulart, o Jango. Era fim de verão e estávamos insatisfeitos, revoltados nas ruas.

No dia em que a vereadora Marielle Franco morreu, era também fim de verão, mas ele insistia em ficar nos 40 graus. Já era noite e o calor abafado molhava as camisas das pessoas que passavam pela Rua Joaquim Palhares, no Estácio. Estávamos insatisfeitos, em casa, acabando de ouvir as notícias no Jornal Nacional.

O tiro que atingiu em cheio Edson Luís, esparramando sangue na calçada do Restaurante Calabouço, partiu do revólver de um policial anônimo, um daqueles que era contra todos nós, nas ruas.

Os tiros, que foram muitos e que acertaram a cabeça de Marielle, vieram do carro vizinho que a perseguia há vinte minutos, mas, na verdade, há muito tempo.

 No dia seguinte, Edson Luís virou manchete dos jornais dependurados nas bancas. Mesmo com os militares de olho em cada palavra escrita, não tiveram como segurar as manchetes da morte de um estudante de 16 anos, vindo de Belém do Pará, morto na fila de um restaurante popular.

Marielle também foi parar na primeira página dos jornais nas bancas de conveniência, no dia seguinte, num registro tímido porque os editores acreditavam ser apenas mais um corpo caído no meio de tantos que caem todos os dias na cidade outrora maravilhosa, hoje apenas bonita por natureza.

Um dia antes da morte de Edson Luís, o mundo perdera Yuri Gagarin, o cosmonauta soviético de 34 anos que fora pro espaço sete anos antes. Morreu de morte boba, um acidente de ultraleve, em Kirjatch. Boba pra quem já havia corrido tanto risco, flutuando no espaço sideral.

Um dia antes da morte de Marielle, o mundo perdeu o astrofísico britânico Stephen Hawking, aos 76 anos, deixando-nos a ver estrelas. Ele estava na primeira página do maior jornal do país no dia seguinte, mas a manchete principal informava que Jucá era o primeiro réu no Supremo alvo da Odebrecht. Manchete que praticamente passou desapercebida.

O Brasil de Edson Luís, aquele de 1968, era outro e não podia deixar de ser. Não tínhamos smartphone, não precisávamos de senha, não havia leite desnatado e os corações que batiam mais forte eram mesmo os corações dos estudantes. Poucos meses depois, viria o Ato Institucional de número 5 para tornar mais fácil a censura, a repressão, a tortura, a morte, o desaparecimento.

O Brasil de Marielle, esse de 2018, é uma casa grande da mãe joana, um país aos frangalhos onde ninguém sabe o dia de amanhã. Temos smartphones, milhares de senhas e leite desnatado, semidesnatado e integral. Daqui a poucos meses teremos eleições presidenciais, mas sequer sabemos se o nosso candidato será candidato.

Somando, foram pouco mais de meia dúzia de tiros que mataram Edson Luís e Marielle Franco.

De Edson Luís, podaram seus momentos, desviaram seu destino e seu sorriso de menino, de acordo com Wagner Tiso e Milton Nascimento.

De Marielle Franco, resta uma velha canção do beatle John em que ele dizia que woman is the nigger of the world.

Se em 1968 caminhávamos contra o vento, sem lenço e sem documento no sol de quase dezembro, hoje, em 2018, dançamos ao som do funk perguntando que tiro foi esse, que tiro foi esse?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

Cartacapital.com.br

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