BYE BYE BRASIL DE NOVO

Quando fui-me embora do Brasil pela primeira vez, peguei um avião da Varig no aeroporto do Galeão, com destino a Paris.

Hoje vou pegar um avião da Latam, no aeroporto de Guarulhos, com destino a Florença.

Eu era um jovem cabeludo que usava tamancos suecos, uma calça vermelha e um casaco de general.

Hoje uso tênis Adidas, um jogging e uma camiseta vermelha da GAP.

Era casado de pouco, sem filhos, vinte e poucos anos e levava uma mala cheia de ilusão.

Hoje sou casado pela segunda vez, quatro filhos, uma neta, um neto e levo uma nécessaire com remédios para tireoide e colesterol.

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Levava na mão o livro Eram os Deuses Astronautas?, de Erich Von Daniken, para ler durante 11 horas de voo.

Hoje levo O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer, para ler durante 12 horas de voo.

Gostava de passarinhos e deixei por aqui várias gaiolas com periquitos, pintassilgos e canarinhos belga.

Hoje não prendo mais passarinhos, mas na varanda do meu apartamento, deitado na rede, amo quando eles chegam pra comer sementes de couve da minha hortinha.

Ouvia Gal cantando Índia, Caetano cantando Sugar Cane Fields Forever e Luiz Melodia anunciando que se alguém quisesse matá-lo que matasse no Estácio.

Hoje, ouço Nando Reis cantando Dupla de Ás e o filho do Caetano anunciando que todo homem precisa de uma mãe.

Eu tinha pai e mãe que foram ao aeroporto para me dar um até breve.

Hoje, não tenho pai nem mãe e são minhas filhas que vão se despedir de mim.

Eu gostava do Fantástico, que era o show da vida e uma novidade na televisão.

Hoje vejo o Decora, o Papo de segunda e as receitas de Rita Lobo no GNT.

Eu tinha o cabelo meio loiro, cheio de caracóis e o apelido de Satyricon.

Hoje tenho o cabelo curto, nenhum fio branco e uma desconfiança grande dos meus amigos de que eu pinto. Mas nunca pintei.

Eu usava óculos redondos com 0.75 na lente esquerda.

Hoje, os óculos não são mais redondos e com 3.5 na lente esquerda.

Eu nunca tinha experimentado comida japonesa e sonhava conhecer a Liberdade.

Hoje adoro comida japonesa e como até no shopping.

No sacolão, não havia kiwi, grapefruit, mangostão, nem physalis.

Eu comia muita banana, chupava muita laranja e a maçã vinha da Argentina embrulhada num papel de seda azul.

Eu lia Veja, Realidade e o jornal Opinião.

Hoje leio CartaCapital, Piauí e Rolling Stone.

Eu tomava cerveja Ouro Branco, Crush e leite Itambé.

Hoje tomo cerveja 1664, Fanta Laranja e Nutren Senior.

Eu não conhecia São Paulo e, como bom mineiro, tinha medo de vir aqui.

Hoje, conheço São Paulo mas ainda confundo Heitor Penteado com Teodoro Sampaio e Teodoro Sampaio com Doutor Arnaldo.

Eu falava fotocópia, sinal de trânsito, bússola e keds.

Hoje falo Xérox, farol, Waze e Nike.

Eu torcia para o América Mineiro que foi vice-campeão e o Galo campeão.

Hoje continuo torcendo pro América Mineiro que acaba de perder de dois a zero do Galo.

Eu não tinha carro e o meu pai tinha uma Rural Willys vermelha e branca.

Eu tenho um Nissan Tiida preto que vai ficar com nossas filhas.

No dia em que eu fui-me embora do Brasil pela primeira vez, levei um talão de travel cheque e alguns francos franceses.

Hoje, levo um cartão Visa e um alguns euros.

Eu não falava uma palavra de francês no dia em que fui-me embora do Brasil pela primeira vez.

Hoje, falo francês, mas o meu italiano continua muito ruim.

Quando sai daqui, os termômetros da Cidade Maravilhosa marcavam 38 graus e quando cheguei em Paris, dois graus negativos.

Hoje, vou sair daqui com 38 graus e vou chegar em Florença com 12 graus positivos.

Eu sai daqui levando na mala uma agenda Pombo de papel, um despertador, uma calculadora e uma câmera fotográfica Pentax Trip 35.

Hoje, levo um smartphone no bolso.

Levei daqui uma goiabada Cica e uma latinha de guaraná pro Humberto e pra Marisa.

Hoje, vou levar um doce de leite Aviação pro Bernardo.

Eu tinha uma conta no Banco da Lavoura de Minas Gerais.

Hoje, tenho uma conta no Bradesco Prime.

Eu escrevia poemas pro Suplemento Literário do Minas Gerais numa velha Remington portátil e hoje escrevo crônicas pra CartaCapital num MacBook Air.

O mundo mudou ou fui eu?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

3 comentários em “BYE BYE BRASIL DE NOVO

  1. Me lembro quando você foi embora. E muita gente achava que sua saída era uma fuga, um exílio. Algumas conversas de tias (que é melhor não revelar quais) falavam: o que será que ele fez, essa turma da política? Uma pena constatar agora que na política, o Brasil está quase igual (ou pior).

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