FLOWER POWER

O jornal La Repubblica publicou recentemente uma matéria de página inteira, mostrando que nesses tempos modernos que vivemos, nesses templos de um Planeta Terra tão judiado, muitos cidadãos comuns, moradores de cidades pequenas ou grandes metrópoles, procuram, dentro de casa, construir uma pequena flora. Verdade. No nosso apartamento que ficou em São Paulo, aquela selva de pedra, cultivávamos uma pequena horta na varanda, onde colhíamos tomate, couve, pimentão, além de uma coleção de temperos como manjericão, hortelã, salsinha, alecrim, salvia, tomilho limão. Além da pequena horta, tínhamos um cactus talvez em homenagem a Frida Kalo, um coqueirinho talvez em homenagem a Bahia de Todos os Santos, muitos vasinhos com orquídeas que, tempos em tempos, abrem em várias cores. Em duas janelas, nossas jardineiras sempre foram verdejantes e, numa delas, uma ameixeira despontava robusta e bela. Mas não somos só nós que trouxemos o verde para dentro de casa, claro. A reportagem do La Repubblica mostra gente dos quatro cantos do mundo que cultiva vasinho dentro de casa, um hábito de encher os olhos da jornalista Annanda Apple, aquela que há muitos anos fala de verde na televisão. Andando pela Itália, percebemos claramente isso. Qualquer janelinha, por menor que seja, tem um vaso de flor ou uma pequena horta. Quando é quintal, lá está o limoeiro, a laranjeira, a ameixeira, geralmente carregados nessa época do ano. Da gosto ver. As cidades, mesmo às vezes sem grandes arvoredos devido a falta de espaço, são verdes graças a seus moradores. Que beleza!

AS FOTOS DE HOJE

[fotos Alberto Villas]

 

SIMPLES ASSIM

Viajando pelo mundo, a gente encontra os mais diversos tipos físicos. Tem branco, tem preto, tem asiático, tem alto, tem baixo, tem índio, tem mulato, tem gordo, tem magro, tem gente de Paris, de Estocolmo, de Buenos Aires, de Los Angeles, do Zâmbia, do Zaire. A gente vê todo tipo de arquitetura e de comida. Tem uma fruta chamada lulo na Colômbia, pros americanos o maracujá chama-se fruto da paixão, pros franceses o romã é granada e a mexerica tem o simpático nome de clementine. Mas o que mais me impressiona são as coisas simples, que podem estar na ponta dos dedos não importa se nos dedos de um africano ou um nórdico. Em qualquer lugar do planeta que você for, vai ver estacionado na rua um carro sujo e alguém que passou e escreveu com o dedo “Lave-me”. Em italiano, “lavami”.

[foto Alberto Villas]

MÚSICA, MAESTRO!

Sempre que chego a uma cidade nova, em um país que não é o meu tropical, fico de olho nas lojas de discos. Gosto de entrar, de ficar remexendo as prateleiras. Sempre foi assim. Nos últimos tempos, ando jururu. Se no final do século passado, chegava a ficar duas horas dentro de uma Virgin Megastore, na Avenida dos Champs Elysées, numa Tower Records, numa HMV ou numa Fnac, hoje passo o tempo procurando as pequenas lojas que ainda sobrevivem a esse mundo digital em que vivemos. Tem sido assim aqui na Itália. Lojas enormes de discos não existem mais. O que vejo são pequenos comércios comandados pelos cabeludos heróis da resistência. A Contempo, aqui em Florença, por exemplo, é uma delas. Essas lojinhas geralmente vendem mais discos de vinil do que CD. Quando recebi o primeiro compacto-disc – era assim que se chamava – na redação do Estadão, um Concerto de Bach, em meados dos anos 1980, achei que aquele objeto não identificado era coisa para o futuro longínquo e não para aquele momento, o meu momento aqui na Terra. Nunca poderia imaginar que ele começaria a desaparecer entre os meus dedos, comigo ainda em vida. Ainda gosto de entrar nessas lojas, encontrar lá um vinil dos Sex Pistols, uma edição japonesa do Yellow Submarine ou um estojo luxuoso do Buena Vista Social Club. Meus olhos ainda brilham. Sim, encontramos coisas que não existem no Brasil. Toda a coleção em vinil do Pink Floyd, dos Rolling Stones, o impecável RAM de Paul McCartney e um saudoso Peter, Paul and Mary, 180 gramas, novinho em folha, por exemplo. Nas poucas lojas mais populares, reina absoluta a música italiana, como já disse aqui outro dia, música que ainda não passou pelo meu The Voice particular. Mas prometo estudar melhor.

Enquanto isso, vou escutando e me divertindo com o original em italiano da Arca de Noé, aquela Arca de Vinicius de Moraes que embalou nossos filhos. Só que no original, em italiano.

A FOTO DE HOJE

Protestos pipocam em Florença.

[foto Alberto Villas]

 

GENTE

O que mais tem me impressionado aqui em Florença e em todas as cidades que temos ido nos fins de semana, são as pessoas nas ruas. Idosos, jovens, adolescentes, crianças, trabalhadores, toda essa gente está nas ruas. Ruas com calçadões, com lojas, com bancas de jornais, com bancos, com brinquedos. A cidade é para as pessoas. Os automóveis estão também aqui, poucos. O que se vê trançando pra lá e pra cá são bicicletas. Bicicletas dos mais variados tipos, das mais modernas até as mais antiquadas, velhinhas, enferrujadas. Todas circulando num zig-zag, na mais perfeita harmonia. Não é moda de fim de semana, é meio de transporte. As cidades têm vida e foram feitas para seus moradores. É uma senhora que para na banca de frutas para comprar morangos, bananas, abobrinhas, alcachofras. São pessoas que param para ver as vitrines, as obras de arte espalhadas pelos cantos. São executivos que afrouxam as gravatas e sentam para tomar um Aperol, uma Moretti, uma San Pelegrino com limão, borbulhante. As pessoas fotografam, fazem selfie. O barulho dos estudantes em algazarra é ouvido um quarteirão antes. Eles causam quando passam. Os ônibus circulam lentamente e param em pontos que lhe dão todas as orientações. De onde vêem, para onde vão, quanto tempo demoram para chegar. Nenhum papel no chão, as cidades são limpas e os grafites fazem parte dessa beleza de cenário. Enfim, as cidades daqui são exatamente o contrário da cidade imaginária do ex-prefeito João Doria.

O dia começa com uma criança andando com uma bicicletinha de madeira na praça.

[fotos Alberto Villas]

SONHO DE PAPEL

Andava meio amargurado no Brasil, acreditando mesmo que o sonho tinha acabado. Sonho meu, desde pequeno, de ler jornal de papel. Grande, o sonho era maior, escrever, fotografar, publicar. Achava que aquelas tardes de sábado quando saia de casa e ia até a banca da Praça Villaboim, em Higienópolis, comprar os jornais de domingo. Comprava sempre mais de um e ia pra casa carregando aquele peso todo para ser lido na noite de sábado e no domingo o dia inteiro. No final da jornada, antes do Fantástico,  era aquela torre de papel no chão de casa e as crianças em volta dela, já com sono, enjoadinhas querendo dormir. Há muito tempo já não vivia mais isso. Os jornais andavam magros e nem chegavam mais às bancas no sábado à tarde. E não eram só jornais. Costumava comprar todas as revistas semanais e o que tivesse de mais interessante. Não perdia a Bravo, a Próxima Viagem, a Bizz, a Set, a Horizonte, a Natureza, a Caminhos da Terra. Devorava tudo. Mas, ultimamente, andava meio amargurado porque, a cada dia que passava, não acreditava mais nesses dias, nesses fins de semana, nas bancas de jornais que passaram a vender Coca-Cola e bonecos de pelúcia. A melhor banca da Lapa, nem abria mais aos domingos. Ai eu vim-me embora passar uma temporada na Itália e, ao acordar encontrei uma cena parecida com a antiga.

Jornais do mundo inteiro, robustos, transbordando de coisas interessantes pra ler. Tenho comprado diariamente o La Repubblica, logo cedo, com o mesmo gosto que ia até a banca da Villaboim comprar o JB. O La Repubblica, todo dia tem um caderno especial com oito, dez páginas: Esporte, Lab (de ciência e tecnologia), Economia & Negócios, Food (de comida, claro), Club (de design), Robinson (de cultura), tem a revista Il Venerdì (às sextas-feiras, claro), a revista Donna aos sábados e a L’Espresso aos domingos.  Isso para citar apenas o básico. Está publicando em capítulos a história da vida e morte de Aldo Moro e ontem, por exemplo, publicou um caderno especial sobre os riscos da poluição marítima. Uma reportagem mostrava o drama de alguém que teria de viver uma semana sem usar plástico. Todo dia encontramos no Repubblica, um mapa mundi com tudo de importante que aconteceu no mundo, como se estivéssemos olhando a tela de um computador. Aos sábados, compro Il Manifesto, diário do Partido Comunista, que tem um dos melhores cadernos culturais do pedaço, o Aliás. As pautas são criativas até o fio do cabelo, como se diz em Minas Gerais. Aos poucos vou conhecendo melhor as revistas, a Il Fotografo, a Internazionale, só pra citar duas. E vou reencontrando velhas paixões: Airone, Gardenia, Linus, Il Viaggio. Estou me sentindo um jovem que gostava, além dos Beatles e dos Rolling Stones, de jornais e de revistas. E que sonhava em ser jornalista quando parava diante de uma banca e via um mundo pela frente.

[fotos Alberto Villas]

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Quando se chega em Florença para morar a história é outra

Chegar numa cidade, seja ela qual for, para conhecer, fazer turismo, é uma coisa. Para morar, outra completamente diferente. Às vezes vira amor à primeira vista, sem muita explicação. Nunca deixei de gostar de Barcelona, por exemplo, desde o dia em que pisei lá pela primeira vez, jovem cabeludo.

Com Florença aconteceu a mesma coisa. Quando bati os olhos no por do sol na Ponte Vechio, ainda na minha juventude, não acreditei muito que aquilo era de verdade, que não era fotoshop de cartão postal. Agora, cheguei aqui para morar e não apenas para pular de museu em museu ou andar pelas ruas consultando mapas.

Chegar para morar é tirar tudo da mala, inclusive os livros pra ler, a tesoura pra cortar a unha, a toca de banho, o ferro de passar roupa, a pasta com os boletos pra pagar no Brasil, via celular. É acordar e ir ver na caixinha de cartas se tem correspondência, é tirar da mala a graxa para engraxar os sapatos.

Minhas primeiras impressões de Florença como morador são simples assim.

Os italianos não cozinham o macarrão como os brasileiros, aqui ele está sempre al dente.

A variedade de tomates nos mercados deixa nossos olhos arregalados, pelos formatos, cores e pelos sabores.

Os morangos daqui são todos enormes dentro da caixinha, mesmo os que estão por baixo.

Chamam a manteiga de burro e ela é quase branca, com muito pouco sal.

Os carteiros são elegantes e os correios funcionam impecavelmente como deveriam funcionar em qualquer lugar do mundo.

Aqui tem iogurte de banana, laranja vermelha e Fanta sabor sambuco.

Aqui, a caixa de qualquer loja lhe dá o 1 centavo de troco. Não conhecem essa história de “não tenho troco” ou “posso te dar umas balas?”

O que mais se ouve aqui é prego e gracie a voi.

Tem dias que os automóveis amanhecem brancos, cobertos com a areia que a chuva lança do Saara.

A música italiana ainda não passou pelo meu The Voice particular. Ainda ouço Caetano e Gil pra não cair.

As ruas são impecavelmente limpas, apesar dos milhares de turistas que circulam pela cidade.

O lixeiro que recolhe o lixo orgânico duas vezes por semana na minha rua fala inglês e o operário que estava consertando o calçamento em frente à minha casa vestia uma camisa Lacoste verde.

Os motoristas precisam ter uma paciência de Jó para circular no centro histórico, transbordando de gente e, muitas vezes, não tem. Vão dando umas buzinadinhas e avançando.

É muito comum em Florença, como em toda cidade turística, ver gente puxando malas pelas calçadas.

Se bobear, ficamos horas numa loja de utensílios para casa, admirando a beleza do design dos pratos, das travessas, dos talheres, das cafeteiras, dos abridores de vinho, dos jogos americanos.

Os homens são lindos e charmosos e as mulheres são lindas e charmosas. Mesmo usando jeans, camiseta e tênis parecem muito chiques. Acho que o segredo é o foulard e os óculos escuros estilosos.

Os italianos são tão entusiasmados ao falar que, muitas vezes, você vê dois conversando e não sabe se estão se divertindo ou discutindo.

As papelarias, não existem iguais no mundo.

As bancas de jornais vendem de tudo, como as do Brasil. A única diferença é que vendem jornais de diversas tendências.

Tickets de ônibus e selos, você compra nas tabacarias.

A fila para entrar na Galeria Uffizi não acaba nunca.

Todos os idosos andam com um jornal debaixo do braço.

Não tem nada mais divertido do que ouviras crianças falando italiano, entusiasmadas e gesticulando como seus pais.

A água da torneira é tão boa quanto a água do filtro.

Nessa primavera, é difícil encontrar uma mesinha na calçada que não tenha uma taça alaranjada de Aperol.

As embalagens dos entregadores de pizza são quadradas.

Diferentemente do Brasil, come-se muita pizza de dia por aqui.

É divertido pegar as moedinhas de euro e ver de onde vieram: Portugal, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Grécia…

Aqui a gente vê muita bicicleta velhinha andando pela cidade, pintadas de verde, de rosa, de azul ou de bolinhas.

Ainda não vi nenhum italiano dizendo porca miséria, mama mia ou dá-me um Cornetto!

Nenhuma livraria tem, na vitrine, livros de Elena Ferrante.

Florença é uma cidade misteriosa, tão misteriosa quanto uma janela fechada com livros.

 
 [Crônica publicada no site da revista Carta Capital/20.04.18]
cartacapital.com.br
[foto Alberto Villas]

AS QUATRO ESTAÇÕES

Ainda é primavera em Florença, mas o verão já começa a colocar suas manguinhas de fora. Se no início de abril, ainda havia tons de cinza no céu, essa segunda quinzena chegou para mostrar sua cara. Logo cedo, o sol já bate na janela da nossa casa, fazendo o que pode para espantar a preguiça de quem dorme altas horas. Nas ruas, o verão vem chegando com tudo. As mesinhas nas calçadas já estão lá desde cedo. As árvores vão ficando verdes a olhos vistos, os jardins começam a lembrar a música Back to Bahia, de Gilberto Gil, quando ele diz “dos verdes tão lindos dos gramados campos de lá”. Pessoas andam nas ruas arrastando suas malas, são chegadas e partidas a todo momento. Assim Florença vai se preparando pro verão que promete. Os termômetros saíram dos 10, 12 graus e agora já chegam a 20, 22 graus. As vitrines com os sorvetes mais gostosos do mundo são motivos de água na boca e às vezes, selfies de nórdicos encantados com o verde do pistache, o amarelo manga, o branco imaculado do coco. Seguimos aqui, de olho em tudo, de olho na exposição The Florence Experiment, de Carsten Höller e Stefano Mancuso, que foi aberta no Palazzo Strozzi e está nos esperando.

A FOTO DE HOJE

Mulher faz suas anotações numa tratoria de Florença.

[foto Alberto Villas]

TORRE DE BABEL

Quando acordo e saio pra comprar o pão, já vejo turistas com mapas de papel nas mãos ou com os seus smartphones consultando e checando os nomes das ruas. Vou caminhando devagar à beira do Rio Arno e pensando: O que traz tanta gente à cidade onde estou morando? Gente de todos os cantos e nações. Passando por eles, ouço dezenas de línguas. Algumas conhecidas, o inglês, o francês, o alemão, o espanhol, o árabe e o japonês, que está na cara. Mas ouço línguas nunca ouvidas antes e que não faço a menor ideia de onde vêem. Ouço russo, holandês, coreano, grego e volto a perguntar: Por quê Florença atrai tanta gente? Com a chegada de cada fim de semana, aumenta o movimento nas ruas. A partir de quinta, é bem visível. A todo momento, basta olhar pra frente, pra trás, pro lado direito ou esquerdo, que tem alguém fotografando uma beleza da cidade. Fico imaginando, todos os dias quando passo pela Ponte Vecchio, que tem alguém ali naquela multidão que está vendo aquela maravilha pela primeira vez. Lembro-me da minha primeira vez, quando saquei uma Pentax Trip 33 e fiz a primeira foto, talvez ainda em preto e branco, não captando os tons de vinho, amarelo, ocre, salmão que ela reflete nas águas do rio. A cada dia vou descobrindo e espero ir contando aqui pequenos detalhes que faz essa gente toda do Planeta Terra baixar aqui e sair com os olhos brilhando.

A FOTO DE HOJE

Uma coluna no centro histórico de Florença.

[foto Alberto Villas]

SONHO MEU

Adoro os mercadinhos daqui, aqueles que só vendem frutas e verduras. São poucas e boas. Quando me lembro do Sacolão da Lapa, é que cai a ficha que nasci numa terra onde tudo que se planta, cresce e floresce. Aqui só temos um tipo de laranja, um tipo de banana, um tipo de limão. Nada de banana ouro, prata, maçã. Nada de laranja bahia, laranja lima, seleta. As frutas exóticas estão embrulhadas uma a uma, a manga, o maracujá, o mamão. O mesmo acontece com o chuchu, embrulhado um a um como se fosse o antigo dores Dulcora. Dá vontade de comprar um e pedir pra embrulhar pra presente. Mas justiça seja feita, a abobrinha é muito mais saborosa, bem como a alcachofra e os tomates.

O fuso horário valoriza as nossas madrugadas. Foi na calada da noite que fiquei sabendo que o Botafogo empatou com o Palmeiras nos minutos finais, e que o meu América Mineiro caiu pro segundo lugar, E  que também morreu a nossa querida Dona Ivone Lara. Amanheci com a música Sonho Meu, cantada por Maria Bethânia e Gal Costa, na cabeça, e sei que assim vai ser durante todo o dia. Sonho meu, sonho meu, vá buscar quem mora longe, sonho meu.

Com o fuso horário, lavamos a alma no início da tarde de ontem ao vermos as bandeiras do MTST tremulando na janela do triplex sem dono do Guarujá. As imagens interiores gravadas pelos militantes revelaram para o país um apartamento nada luxuoso como diz o juiz de camisa preta. Triplex luxuoso nenhum tem um tanquinho daquele na área de serviço. A arquitetura de interior dos milionários é outra, nada de tanquinho na área de serviço.

Com o fuso horário só fiquei sabendo de manhã, com o sol batendo na minha janela, que os argentinos foram protestar em frente a embaixada do Brasil em Buenos Aires, exigindo a libertação do único preso político do nosso país.

Agora, a notícia do Doria em primeiro lugar nas pesquisas para governador de São Paulo, só me anima a deixar a minha Florença no último pau de arara.

A FOTO DE HOJE

Alcachofras num mercadinho de Florença.

[foto Alberto Villas]

METEOROLOGIA

É sagrado. Todos os dias caminho muito pelas ruas, pelos cantos, pelas cercanias de Florença. No final da jornada, o smartphone registra cinco, sete quilômetros andados. Vou descobrindo a cidade, os cantos, os grafites nos muros, as panificadoras, as livrarias, os sebos, as bancas, a arte nos muros, as obras da prefeitura que são muitas por aqui. É primavera, os brotinhos nas árvores deixando tudo verde não me deixam mentir, mas a meteorologia anda contrariando os dias, alguns que amanhecem azul, com sol, e outros que amanhecem cinza, com garoa. O meu livro ainda está no processo de pesquisa, uma longa e deliciosa pesquisa através dos anos, desde o dia em que nasci. Quando começar a escrever, sei que não paro mais. Florença é uma cidade que ferve nos fins de semana, com turistas que chegam de todos os cantos e nações. Tem americano, tem francês, tem alemão, tem grego, tem japonês, coreano, e tem aqueles que a gente não sabe de onde vieram, tamanha enrolada língua que falam. Nesses dias temos procurado sair daqui, dar uma volta por perto, por lugares que a gente imaginava apenas em presépios. O mundo ficou mais fácil com a Internet e todos os dias a gente tem notícias do nosso país. Notícias que não nos animam nem um pouco. As horas vão passando e o único preso político do país continua preso. Mesmo longe do seu povo, continua liderando as pesquisas para as eleições de outubro, que estão chegando. Sentimos um nó no peito quando lembramos que elas vão chegar e os golpistas só encontram uma saída, manter preso o líder das pesquisas, o preferido pela maioria. Sentimos um nó no peito quando lembramos que estamos há um mês sem Marielle e que eles não vão prender os assassinos, mesmo sabendo quem são.

A FOTO DE HOJE

Muro de Florença.

[foto Alberto Villas]

O TRAUMA

O livro foi capa do jornal francês Libération e, além de capa, ganhou três páginas no suplemento Le Monde dês Livres de um dos jornais mais importantes do mundo. Le Lambeau, do jornalista Philippe

Lançon chega às livrarias com a promessa de se tornar um best-seller, de levar prêmios importantes durante 2018 e de ser considerado – como dizem os franceses – o livro choc do ano. Lançon estava na redação do jornal satírico Charlie Hebdo naquele 7 de janeiro de 2015 quando terroristas, armados até os dentes, entraram atirando e dizimaram praticamente toda a redação do jornalzinho, vingança contra as piadas com Maomé. Lançon estava ao lado do cartunista Cabu, mostrando a ele um desenho, quando o massacre começou. Só Deus sabe como ele sobreviveu. Três anos depois, o sobrevivente resolveu contar a sua história de como conseguiu sobreviver, principalmente depois do massacre. Cada palavra foi escolhida a dedo para transformar um poço até aqui de mágoa. São fragmentos de um pensamento equilibrado e muito coerente com o mundo em que vivemos. Esperamos que o livro, publicado na França pela Gallimard, uma das editoras mais importantes da Europa, chegue ao Brasil para se juntar ao O pai da menina morta, de Tiago Ferro, publicado recentemente pela Todavia, em que ele faz – em forma de romance – um inventário da vida depois da morte de sua filha Manuela, a Manu, de nove anos. Duas obras que se casam de uma maneira emocional surpreendente.

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A FOTO DE HOJE

A primavera vem chegado em Florença.

[foto Alberto Villas]

MEUS CAROS AMIGOS

Eu nunca me esqueço aquele dia em que cheguei num pequeno hotel em Gobelins para entrevistar Augusto Boal. Eu levava dentro de uma bolsa tiracolo, uma fita K7 com uma gravação tosca que coloquei pra rodar num gravador portátil, em cima da cama daquele quarto de hotel. Lembro-me perfeitamente de Boal ouvindo a canção escrita por Chico Buarque em forma de carta, dirigida a ele. Algum tempo depois, Meus Caros Amigos virou nome de disco, canção gravada num  vinil, nosso hino naqueles anos em Paris. O refrão “aqui na terra estão jogando futebol/tem muito samba, muito choro e rock and roll” grudou na nossa cabeça durante todos aqueles anos que antecederam a abertura, a volta definitiva. Hoje, o mundo mudou. Não estou vivendo em Florença querendo derrubar a ditadura militar como vivera outrora. Mas sofro igual quando entro no Skype, quando o meu smartphone apita com mensagens do Brasil, quando folheio os jornais do meu país na tela do computador. Se a agonia era ver uma ditadura implantada no país, a tristeza hoje é de ver um homem só, que está preso, longe do seu povo. Se há uma semana, ele estava sendo carregado nos braços dos seus, falando para milhares de brasileiros, de norte a sul, de leste a oeste, hoje ele está proibido de encontros, de subir num caminhão de som, de ver o horizonte de ponta a ponta. Hoje ele está trancafiado numa sala, numa cela, numa cilada, sem provas, sem saber o dia de amanhã, apesar de você. Fico aqui numa certa angústia como se aquele velho disco de vinil tivesse emperrado e ficasse repetindo sem parar: “Aqui na terra estão jogando futebol/Tem muito samba, muito choro muito choro muito choro muito choro…”

A FOTO DE HOJE

Num muro de Florença.

[foto Alberto Villas]

 

ESQUECERAM DE MIM

Hoje os tempos são outros. Se outrora esperava agoniado os recortes de jornais que chegavam em envelopes verde e amarelo, ou uma semana depois em jornais esfarrapados na sala de espera da loja da Varig na Avenida dos Champs-Élysées, hoje chegam no meio da madrugada via Internet. Folheio daqui os jornais brasileiros que ainda estão na gráfica e nem precisam vir pelo correio. Acompanho diariamente os vulcões que acontecem por ai e que, em poucas horas, vão esfriando, virando cinzas. Quem matou Marielle? Onde está Amarildo? Como anda o processo do Porto de Santos? De quem era aquelas malas com milhões encontradas no apartamento de Geddel? O que foi feito daquela fita em que ouvimos “é preciso manter isso?” De quem era aqueles  500 quilos de pasta de cocaína encontrados num helicóptero? Quem fim levou as denúncias do rolo entre CBF e Rede Globo? Como andam os processos contra Moreira Franco? O que foi feito daquela denúncia dos 52 milhões pro José Serra? E o escândalo do aeroporto em Claudio, deu em quê? São apenas algumas perguntas.

A FOTO DE HOJE

Nikonicos enfrentam a chuva em Florença.

[foto Alberto Villas]

 

PRESO POLÍTICO

Havia muitos naquela época quando deixei o Brasil pela primeira vez para morar em Paris. Eram chamados de terroristas, guerrilheiros, vermelhos ou comunistas. Iam sendo caçados em seus esconderijos e jogados em porões escuros. De vez em quando, uma fotografia em preto e branco aparecia nos jornais, algumas dezenas deles posando como fosse um enorme time de futebol. Estavam indo embora, sendo trocados por um figurão da política internacional, sequestrado pelos companheiros que ainda não tinha caído nas garras dos militares. Uma música rodava na vitrola e nos enchia de emoção, era Gil cantando Não Chore Mais em português, que chegava a ser melhor que o original em inglês do jamaicano Bob Marley: “Amigos presos, amigos sumindo pra nunca mais”. Foram muitos, todos presos políticos. Os jornais eram censurados, e presos mortos muitas vezes apareciam nas manchetes como se tivessem sido atropelados. Os leitores se espantavam com aquelas receitas de bolos que nunca davam certo, em plena página que não era do suplemento feminino, onde normalmente apareciam as receitas de bolos. Na Veja, apareciam diabinhos e arvorezinha, símbolo da Editora Globo, nos lugares mais bizarros. No jornal opinião, eram espaços ora brancos, ora pretos. Vivíamos uma ditadura ferrenha. Hoje, ninguém mais sabe o que vivemos, isolados em cômodos de uma cada da mãe Joana. E hoje temos apenas um preso político, condenado sem provas por um golpe silencioso e cruel, em comum acordo com a mídia, outrora combativa, com o Supremo, com tudo. Florença está sempre silenciosa nas manhãs que se despedem do inverno. Se você passar numa banca de jornal e comprar o jornal Manifesto, vai encontrar lá uma notícia em uma coluna dizendo que o argentino Adolfo Pérez Esquivel, ativista político, está sugerindo o nome do único preso político brasileiro para o Prêmio Nobel da Paz de 2018.

A FOTO DE HOJE

Muro de uma ruela em Florença, na Itália

[foto Alberto Villas]

LOTTA CONTINUA

Mesmo com os tempos modernos, vivemos uma certa aflição quando estamos distantes mais de dez mil quilômetros da Terra Brasilis. O dia de sol nos animou a bater perna e assim foi, o dia todo. A felicidade é grande de passar numa banca e comprar o jornal do domingo como naqueles velhos tempos em que íamos carregando aquele quilo e meio de Estadão, de Folha. O suplemento Aliás do jornal comunista Il Manifesto é o máximo. Só conhecia online e agora tive o prazer de pegar, de passar as páginas de papel, de sentir o cheiro. Cultura à toda prova. A revista L’Espresso agora vem junto com o La Replubblica, meu vício aqui. Fizeram o que O Globo fez no mês passado com a Época, cantando que era a primeira experiência do gênero no mundo. Mentira de O Globo. Aqui, a L’Espresso já vem dentro do La Repubblica aos domingos há um bom tempo. O dia foi de sossego, com direito a um pitstop para um Aperol na calçada, observando as mulheres e os homens mais bonitos do mundo passando. Nove da noite sabíamos que tinha três decisões no futebol. Sem transmissão, apenas acompanhando o minuto a minuto pelo UOL. Torcendo pro Botafogo, pro Corinthians e, em Minas, pra ninguém, fiel ao meu América. Deu o que queria. Corinthians campeão. Botafogo campeão. Nenhum grito na janela, nenhum foguete estourando no ar. Vitórias silenciosas. Como silenciosa foi a prisão de Lula, mil vezes mais aflita para nós que as duas disputas de pênalti. Sabíamos que Lula estava assistindo ao jogo e ficamos imaginando que ficara feliz com a vitória do timão. Vimos a notícia de sua prisão na escalada do TG-La Sete e uma reportagem como não costumamos ver ai. Lula sendo carregado pelo povo e depois preso, sem provas. A reportagem de Paolo Argentini terminava dizendo que Lula é – disparado – o candidato favorito às eleições de outubro. Logo cedinho, vamos a uma papelaria comprar envelopes com as cores da bandeira da Itália para enviarmos cartas ao ex-presidente. Vamos contar a ele que estamos longe, mas sempre ao seu lado porque, como dizem aqui, la lotta continua.

A FOTO DE HOJE

Um velho e bom 2CV vermelho sobre uma estradinha cercada de oliveiras.

[foto Alberto Villas]

PERDEMOS

Perdemos, de novo. Tinha eu quatorze anos de idade quando perdemos pela primeira vez. Quando vi os homens de verde oliva reconstruindo o muro que separava os pobres dos ricos, quando vi as mulheres católicas marchando pelas ruas com terços na mãos e dizendo crendeuspadre aos comunistas. Agora perdemos de novo e perdemos feio. Perdemos devagar, assistindo um gol após o outro, como se estivéssemos frente ao tal sete a um. A derrota não começou ontem ou anteontem, começou no dia em que o culpado recebeu um telefonema do diretor do Ibope, cumprimentando-o pela vitória e, alguns minutos depois, ligou novamente para dar o tal “erramos”. Aécio Neves não engoliu o segundo lugar e tornou-se o responsável número 1 pelo golpe. O responsável número dois foi a Rede Globo de Televisão, apesar de muitos de seus funcionários e todos os seus diretores jurarem de pés juntos que não têm nada a ver com isso. Os irmãos Marinho tiveram uma participação fundamental para criar esse cenário de caos no país, do mesmo jeito que tiveram quando tinha eu quatorze anos de idade, repito. Quem não se lembra do entusiasmo de alguns de seus repórteres entrando com flash às sete da manhã de João Pessoa, de Aracaju, do Rio, de São Paulo, de Porto Alegre, informando-convocando a população para a grande manifestação para derrubar a presidenta eleita pela maioria do povo? A participação da Rede Globo não foi sutil, foi apenas travestida de “grande cobertura”, como se estivessem fazendo jornalismo de verdade, lá de cima das sacadas do prédios. Talvez daqui a cinquenta anos ela vá reconhecer o erro, como reconheceu cinquenta anos depois daquele 31 de março de 1964. Mas ai não estaremos mais aqui, praticamente nenhum de nós. Florença hoje amanheceu com o céu coberto de nuvens cinzas mas a meteorologia promete sol para este 6 de abril de 2018. Lá longe, a gente vê um pedacinho de céu azul que virá até nós quando as nuvens forem embora. Os primeiros comerciantes já se movimentam nos calçadões arrumando suas mesinhas para o café da manhã, as lojas começam a subir suas portas, os floristas separam as tulipas murchas das tulipas novinhas, isso pra não dizer que não falei de flores.

A FOTO DO DIA

Logo cedo o carrinho já estava na calçada expondo Giotto, Raffaello, Botticelli e outros gênios da pintura.

[foto Alberto Villas]

ABRIL DE 2018

Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça ninguém pra cantar
Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo inda pode voltar

[No cordão da saideira, Edu Lobo]

[arte VILLASNEWS]

O GOLPE MILITAR

Nos anos 1970, eu morava em Paris no quarteirão mais comunista da cidade. Todo resultado de eleição dava o 11ème na cabeça como o bairro mais de esquerda da cidade luz. Tínhamos uma toalha de mesa vermelha e eu brincava que se a sacudisse na janela que dava pra Rue de la Roquette, o povo sairia em passeata, cantando a palavra de ordem: “Ni Giscard, ni Mitterrand! Une seule solution: La Révolution!” Era ali no quarto andar no número 79 que sonhávamos com o fim do regime militar, que não vinha nunca. Agoniado, ia até a livraria Joie de Lire, no Quartier Latin, comprar os jornaizinhos clandestinos do meu país, da Argentina, do Uruguai, dos países vizinhos, todos vítimas dos militares. As noticias eram poucas. Ainda não havia Internet e as noticias chegavam esparsas e atrasadas. Os jornais alternativos que o carteiro colocava na caixinha de carta que ficava no andar térreo do nosso prédio davam um respiro, uma esperança de que um dia voltaríamos a ter democracia, eleições livres, candidatos de esquerda e de direita. Saiu o Emílio, entrou o Ernesto e depois o João Batista e a gente ali naquela agonia. Hoje, aqui instalado em Florença, na Costa di San Giorgio número 77, sinto uma agonia no peito, acompanhando as noticias pelo UOL e breves flash na televisão que só fala italiano. Lá fora está chovendo, o céu está cinza e o silêncio é sepulcral. Com esse fuso horário, vou passar a noite esperando notícias do meu país.

A FOTO DO DIA

Grafite num muro de Florença

[foto Alberto Villas]

CIDADE LINDA

Cidade linda é aquela que nas primeiras horas da manhã já tem gente sentada nas mesas dispostas no calçadão tomando o café da manhã. Croissants, geléia orgânica de pêssego, morangos vermelhinhos, capuccino e um suco natural de laranja. Cidade linda é aquela cheia de vida, cheirinho de expresso no ar, grafites por todos os lados dando um colorido às construções centenárias. Cidade linda é aquela que pessoas vestidas de preto, à espera do verão, passeiam à beira do rio Arno, escrevendo seus nomes na areia como se estivessem num filme de Pier Paolo Passolini. Motocicletas que vão e que vem, moças lindas que passam mordiscando um pedaço de pizza quadrada. Cidade linda tem poucos carros e muitas bicicletas, um mercado central vendendo alcachofras cor de vinho enormes porque é tempo de alcachofras. Senhoras de cabelo branco carregando sacolas de vime deixando pra fora as folhas do alho poró. Cidade linda é aquela que recicla, é aquela que se deixa clicar, faz até pose pra ficar bem na foto. Cidade linda é Florença, por exemplo.

Grafite à beira do Arno.

[foto Alberto Villas]