O GOLPE MILITAR

Nos anos 1970, eu morava em Paris no quarteirão mais comunista da cidade. Todo resultado de eleição dava o 11ème na cabeça como o bairro mais de esquerda da cidade luz. Tínhamos uma toalha de mesa vermelha e eu brincava que se a sacudisse na janela que dava pra Rue de la Roquette, o povo sairia em passeata, cantando a palavra de ordem: “Ni Giscard, ni Mitterrand! Une seule solution: La Révolution!” Era ali no quarto andar no número 79 que sonhávamos com o fim do regime militar, que não vinha nunca. Agoniado, ia até a livraria Joie de Lire, no Quartier Latin, comprar os jornaizinhos clandestinos do meu país, da Argentina, do Uruguai, dos países vizinhos, todos vítimas dos militares. As noticias eram poucas. Ainda não havia Internet e as noticias chegavam esparsas e atrasadas. Os jornais alternativos que o carteiro colocava na caixinha de carta que ficava no andar térreo do nosso prédio davam um respiro, uma esperança de que um dia voltaríamos a ter democracia, eleições livres, candidatos de esquerda e de direita. Saiu o Emílio, entrou o Ernesto e depois o João Batista e a gente ali naquela agonia. Hoje, aqui instalado em Florença, na Costa di San Giorgio número 77, sinto uma agonia no peito, acompanhando as noticias pelo UOL e breves flash na televisão que só fala italiano. Lá fora está chovendo, o céu está cinza e o silêncio é sepulcral. Com esse fuso horário, vou passar a noite esperando notícias do meu país.

A FOTO DO DIA

Grafite num muro de Florença

[foto Alberto Villas]

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