PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Quando se chega em Florença para morar a história é outra

Chegar numa cidade, seja ela qual for, para conhecer, fazer turismo, é uma coisa. Para morar, outra completamente diferente. Às vezes vira amor à primeira vista, sem muita explicação. Nunca deixei de gostar de Barcelona, por exemplo, desde o dia em que pisei lá pela primeira vez, jovem cabeludo.

Com Florença aconteceu a mesma coisa. Quando bati os olhos no por do sol na Ponte Vechio, ainda na minha juventude, não acreditei muito que aquilo era de verdade, que não era fotoshop de cartão postal. Agora, cheguei aqui para morar e não apenas para pular de museu em museu ou andar pelas ruas consultando mapas.

Chegar para morar é tirar tudo da mala, inclusive os livros pra ler, a tesoura pra cortar a unha, a toca de banho, o ferro de passar roupa, a pasta com os boletos pra pagar no Brasil, via celular. É acordar e ir ver na caixinha de cartas se tem correspondência, é tirar da mala a graxa para engraxar os sapatos.

Minhas primeiras impressões de Florença como morador são simples assim.

Os italianos não cozinham o macarrão como os brasileiros, aqui ele está sempre al dente.

A variedade de tomates nos mercados deixa nossos olhos arregalados, pelos formatos, cores e pelos sabores.

Os morangos daqui são todos enormes dentro da caixinha, mesmo os que estão por baixo.

Chamam a manteiga de burro e ela é quase branca, com muito pouco sal.

Os carteiros são elegantes e os correios funcionam impecavelmente como deveriam funcionar em qualquer lugar do mundo.

Aqui tem iogurte de banana, laranja vermelha e Fanta sabor sambuco.

Aqui, a caixa de qualquer loja lhe dá o 1 centavo de troco. Não conhecem essa história de “não tenho troco” ou “posso te dar umas balas?”

O que mais se ouve aqui é prego e gracie a voi.

Tem dias que os automóveis amanhecem brancos, cobertos com a areia que a chuva lança do Saara.

A música italiana ainda não passou pelo meu The Voice particular. Ainda ouço Caetano e Gil pra não cair.

As ruas são impecavelmente limpas, apesar dos milhares de turistas que circulam pela cidade.

O lixeiro que recolhe o lixo orgânico duas vezes por semana na minha rua fala inglês e o operário que estava consertando o calçamento em frente à minha casa vestia uma camisa Lacoste verde.

Os motoristas precisam ter uma paciência de Jó para circular no centro histórico, transbordando de gente e, muitas vezes, não tem. Vão dando umas buzinadinhas e avançando.

É muito comum em Florença, como em toda cidade turística, ver gente puxando malas pelas calçadas.

Se bobear, ficamos horas numa loja de utensílios para casa, admirando a beleza do design dos pratos, das travessas, dos talheres, das cafeteiras, dos abridores de vinho, dos jogos americanos.

Os homens são lindos e charmosos e as mulheres são lindas e charmosas. Mesmo usando jeans, camiseta e tênis parecem muito chiques. Acho que o segredo é o foulard e os óculos escuros estilosos.

Os italianos são tão entusiasmados ao falar que, muitas vezes, você vê dois conversando e não sabe se estão se divertindo ou discutindo.

As papelarias, não existem iguais no mundo.

As bancas de jornais vendem de tudo, como as do Brasil. A única diferença é que vendem jornais de diversas tendências.

Tickets de ônibus e selos, você compra nas tabacarias.

A fila para entrar na Galeria Uffizi não acaba nunca.

Todos os idosos andam com um jornal debaixo do braço.

Não tem nada mais divertido do que ouviras crianças falando italiano, entusiasmadas e gesticulando como seus pais.

A água da torneira é tão boa quanto a água do filtro.

Nessa primavera, é difícil encontrar uma mesinha na calçada que não tenha uma taça alaranjada de Aperol.

As embalagens dos entregadores de pizza são quadradas.

Diferentemente do Brasil, come-se muita pizza de dia por aqui.

É divertido pegar as moedinhas de euro e ver de onde vieram: Portugal, Espanha, França, Holanda, Alemanha, Grécia…

Aqui a gente vê muita bicicleta velhinha andando pela cidade, pintadas de verde, de rosa, de azul ou de bolinhas.

Ainda não vi nenhum italiano dizendo porca miséria, mama mia ou dá-me um Cornetto!

Nenhuma livraria tem, na vitrine, livros de Elena Ferrante.

Florença é uma cidade misteriosa, tão misteriosa quanto uma janela fechada com livros.

 
 [Crônica publicada no site da revista Carta Capital/20.04.18]
cartacapital.com.br
[foto Alberto Villas]

Um comentário em “PRIMEIRAS IMPRESSÕES

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s