SONHO DE PAPEL

Andava meio amargurado no Brasil, acreditando mesmo que o sonho tinha acabado. Sonho meu, desde pequeno, de ler jornal de papel. Grande, o sonho era maior, escrever, fotografar, publicar. Achava que aquelas tardes de sábado quando saia de casa e ia até a banca da Praça Villaboim, em Higienópolis, comprar os jornais de domingo. Comprava sempre mais de um e ia pra casa carregando aquele peso todo para ser lido na noite de sábado e no domingo o dia inteiro. No final da jornada, antes do Fantástico,  era aquela torre de papel no chão de casa e as crianças em volta dela, já com sono, enjoadinhas querendo dormir. Há muito tempo já não vivia mais isso. Os jornais andavam magros e nem chegavam mais às bancas no sábado à tarde. E não eram só jornais. Costumava comprar todas as revistas semanais e o que tivesse de mais interessante. Não perdia a Bravo, a Próxima Viagem, a Bizz, a Set, a Horizonte, a Natureza, a Caminhos da Terra. Devorava tudo. Mas, ultimamente, andava meio amargurado porque, a cada dia que passava, não acreditava mais nesses dias, nesses fins de semana, nas bancas de jornais que passaram a vender Coca-Cola e bonecos de pelúcia. A melhor banca da Lapa, nem abria mais aos domingos. Ai eu vim-me embora passar uma temporada na Itália e, ao acordar encontrei uma cena parecida com a antiga.

Jornais do mundo inteiro, robustos, transbordando de coisas interessantes pra ler. Tenho comprado diariamente o La Repubblica, logo cedo, com o mesmo gosto que ia até a banca da Villaboim comprar o JB. O La Repubblica, todo dia tem um caderno especial com oito, dez páginas: Esporte, Lab (de ciência e tecnologia), Economia & Negócios, Food (de comida, claro), Club (de design), Robinson (de cultura), tem a revista Il Venerdì (às sextas-feiras, claro), a revista Donna aos sábados e a L’Espresso aos domingos.  Isso para citar apenas o básico. Está publicando em capítulos a história da vida e morte de Aldo Moro e ontem, por exemplo, publicou um caderno especial sobre os riscos da poluição marítima. Uma reportagem mostrava o drama de alguém que teria de viver uma semana sem usar plástico. Todo dia encontramos no Repubblica, um mapa mundi com tudo de importante que aconteceu no mundo, como se estivéssemos olhando a tela de um computador. Aos sábados, compro Il Manifesto, diário do Partido Comunista, que tem um dos melhores cadernos culturais do pedaço, o Aliás. As pautas são criativas até o fio do cabelo, como se diz em Minas Gerais. Aos poucos vou conhecendo melhor as revistas, a Il Fotografo, a Internazionale, só pra citar duas. E vou reencontrando velhas paixões: Airone, Gardenia, Linus, Il Viaggio. Estou me sentindo um jovem que gostava, além dos Beatles e dos Rolling Stones, de jornais e de revistas. E que sonhava em ser jornalista quando parava diante de uma banca e via um mundo pela frente.

[fotos Alberto Villas]

Um comentário em “SONHO DE PAPEL

  1. Ciao!
    Que delícia deve ser essa sua ‘lapa’ veneziana !
    Eu sempre ADOREI ficar tempão olhando os títulos nas bancas. Principalmente revistas. Infelizmente, nunca tive oportunidade de trabalhar em uma redação de revista. A Editora Abril era um sonho. Triste ter acabado.
    ‘sonho’ (ou desejo) que ainda tenho é de ter minha própria banca. Quem sabe?

    :-*

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