AO VIVO E EM CORES

Sempre fui apaixonado por viajar e por revistas de viagem e geografia. Assino a francesa Geo há mais de quarenta anos, a internacional National Geographic há décadas e colaboro com a brasileira Viagem e Turismo, publicada pela Editora Abril. Vivo folheando as italianas  Bell’Italia, a Bell’Europa, a Dove, a In Viaggio. Guardo velhos exemplares das que sumiram do mapa, como a Ulysses, a Próxima Viagem, a Horizonte. Elas falam de muitos lugares maravilhosos onde já fui um dia e de centenas de lugares que conhecia apenas por suas páginas, geralmente de papel couché luxuoso. Polignano a Mare, na região italiana da Puglia, por exemplo, é um desses lugares. Apenas parava de folhear, de ler, para admirar. Parecia um sonho e esse sonho acaba de ser realizado. Aquelas fotos, que às vezes achava que tinha um truque de filtro quando chegava às bancas, eram de verdade. Cliquei algumas e deixo aqui para visitação pública. Venha a Polignano a Mare, assim que puder. Vale por anos e anos de colírio nos olhos e não há contra indicação. Veja.

[fotos Alberto Villas]

MONOPOLI 30 GRAUS

Não conhecia a cidade. Na verdade, pouco ou nada sabia sobre Monopoli antes de chegar aqui, por volta de quatro horas da tarde, debaixo de um sol de verão, mesmo estando ainda na moda primavera-verão. Foi uma surpresa ver o Mar Adriático, tão azul e tão lindo. Descobrir, em plena Puglia, um lugar tão particular, tão cheio de personalidade. O que vimos por aqui nessas primeiras horas de Monopoli? Siga comigo.

Vimos casas brancas espalhadas por todo o centro histórico e, principalmente à beira do velho porto da cidade, um lugar para sair andando, parar e ficar apreciando a beleza do lugar.

Vimos pescadores vendendo o seu peixe na calçada à beira mar. Camarões frescos, sardinhas, anchovas, peixes pequenos mas com uma cara ótima.

Percebemos a paixão dos moradores por cactos, espalhados por todos os cantos, em pequenos e grandes vasos.

Vimos uma exposição linda sobre a obra gráfica de Juan Mirò, no Castelo Carlo V. Trabalhos raros e deslumbrantes, com aquela combinação de cor bem Mirò. A mostra vai até o dia 15 de julho. Veja abaixo, uma das obras expostas.

[Juan Mirò]

Vimos o farol e me lembrei da canção Ela, de Gilberto G: “Cada ilha, um farol/No mar da procela, ela/Ela que me faz um navegador”

E vimos a lua cheia despontar, iluminando todas as belezas à beira do Mar Adriático.

[fotos Alberto Villas]

 

 

 

 

DE VOLTA AO PASSADO

Acostumado durante muitos e muitos anos a aridez dos grandes supermercados onde, muitas vezes, a caixa sequer diz bom dia, boa tarde ou boa noite, sequer olha nos seus olhos , cujas palavras que dirige até você são as de praxe – tem cartão fidelidade? nota fiscal paulista? quer sacola? quer carregar o celular? tem noventa centavos? – passei a observar em Florença, os mercadinhos. Como numa cidade do interior, eles sobrevivem com suas frutas e legumes expostos nas calçadas, tudo meio desarrumado , mas com o frescor de outrora. As vendedoras e os vendedores nem sempre são o retrato da simpatia, mas ainda pesam seus pêssegos ou os seus aspargos em velhas balanças e os embrulham em saquinhos de papel pardo. Você entra nos mercadinhos, muitos deles sem nome, fica observando e vai percebendo que eles têm um pouco de tudo.  Até mesmo aqueles figos secos deliciosos vindos de Istambul, conforme revela a caixa de papelão branco onde estão meio escondidos, debaixo dos saquinhos de papel pardo. Florença é uma delícia. E os seus mercadinhos, inesquecíveis.

[foto Alberto Villas]

A FOTO DO DOMINGO

Florença é uma cidade com bicicletas por todos os lados. Velhas, novas, coloridas, fora de moda, charmosas. As pessoas andam de bicicleta por todos os cantos da cidade. Crianças, jovens, adolescentes, adultos, idosos. É um meio de transporte e não somente uma moda. Isso faz anos, antes mesmo de qualquer prefeito pensar em fazer ciclovias. As ciclovias aqui ficam à beira do Rio Arno. Mas, nas ruas, o respeito ao ciclista é sagrado, como deveria ser em todas as cidades do mundo. Andar de bike é fazer exercício, é ecológico, é o futuro que queremos para nossas cidades.

[foto Alberto Villas]

MINHA ADORÁVEL METEOROLOGISTA

O meu pai era meteorologista e já falei dele aqui. Mas não era simplesmente um meteorologista. Era um apaixonado pelo tempo, um fanático pelas nuvens no céu. Bastava uma despontar, por mais passageira que fosse, ele fazia uma palestra sobre os seus movimentos e a possibilidade de um toró cair sobre nossas cabeças.

No Mercado Central de Belo Horizonte, seu apelido era Manda-Chuva. Domingo de manhã, ele ia passando de barraca em barraca e todos queriam saber a previsão do tempo, se ia esfriar, se ia esquentar, se ia cair água bem na hora do jogo entre o Galo e a Raposa.

Quando os termômetros oscilavam demais, lá estava ele na tela da TV Globo, explicando o que se passava para os telespectadores que o conheciam por Doutor Bouçada, o nome que ele levava depois do Villas.

Mostrava, com o maior prazer, como funcionava cada aparelho da sua Estação Meteorológica. O barômetro, o pluviômetro, o higrômetro e o altímetro. Explicava tudo, como um professor.

Era uma época em que não havia computador para mostrar pra gente aquela nuvem fria se deslocando da Argentina e vindo pra cima do Brasil, como acontece hoje. Hoje, temos tempo de tirar do fundo do baú aquele casaco de lã, quando se anuncia que o frio vem aí.

Era uma época em que o Serviço de Meteorologia errava muito e o meu pai levava pra casa, com bom humor, as piadas que contavam pra ele, ou as chacotas no dia seguinte, chovendo, e ele anunciara sol à pino.

Há mais ou menos uns vinte e tantos anos, eu tenho uma personal meteorologista dentro de casa, a minha mulher que, apesar de não ter uma gota de sangue do meu pai, é definitivamente sua herdeira.

Começou quando nossas filhas foram pra escola pela primeira vez. O princípio de tudo foi o Grão de Chão, depois passou pro Ibeji, seguiu no Colégio Equipe, até chegar a Universidade.

À noite, antes de preparar a roupinha delas irem pra maternal, a Paulinha consultava o tempo. Vai fazer frio, calor, chover, o que aconteceria no dia seguinte? Assim, ela separava a blusinha de frio ou o short, dependendo do tempo que anunciava.

Com o tempo, as meninas sacaram que ela era a nossa manda-chuva e assim que acordavam já queriam saber com precisão, o tempo lá fora.

– Vai fazer frio, mãe?

E ela respondia na lata, porque já sabia na ponta da língua o tempo que faria, inclusive que havia 60% de possiblidade de chuva a partir das 11 da manhã. As meninas passaram a confiar piamente nela e na sua previsão. O acerto era de quase cem por cento, já que nesses novos tempos, não há muito erro.

Hoje, ninguém da família Villas não sai de casa sem antes consultar a Paulinha. Mesmo que a gente não pergunte, ela anuncia:

– Gente, domingo vai esfriar.

– Gente, leva guarda-chuva porque vai chover.

– Gente, leva biquíni pra praia porque pode esquentar.

A Paulinha – acredito eu – é a única pessoa que pede silêncio na sala na hora do Jornal Nacional, quando a Maju Coutinho aparece na tela. Não apenas porque ela é nossa amiga, ela quer saber todos os detalhes e, pelos seus olhinhos, fica feliz de saber até que a temperatura média na cidade de Santa Rita do Sapucaí, amanhã, será de 32 graus.

Além dos dados, ela adora a Maju. Nos dias de conjuntivite da apresentadora do tempo, ela ficava visivelmente contrariada, achando que o tempo com outra apresentadora estava meio sem graça.

Estamos vivendo em Florença e o seu interesse pela meteorologia continua aguçado. Agora, além do tempo em São Paulo, onde vivem as nossas meninas, ela se interessa pela temperatura na região da Toscana. Vai chover? Vai fazer sol? Vai esquentar? Vai esfriar? É só perguntar pra ela.

Mas aqui, tem uma novidade que quero contar pra vocês. Além de se interessar pela previsão do tempo, ela começou a se interessar também pelo nível de água do Rio Arno, que passa aqui perto da nossa casa. Todo dia quando saímos, na ponte, ela faz uma análise detalhada.

Está mais alto!

Baixou quase um metro!

A água está mais turva!

Hoje ele não está tão caudaloso!

Olha que beleza a correnteza, é só chover um pouco que a coisa muda!

Mas essa paixão dela pelo Rio Arno, eu conto em outra hora. Temos tempo.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

[foto Alberto Villas]

VEJO FLORES EM VOCÊ

O que faz bela e charmosa uma cidade? Um conjunto de fatores. Um deles, é o capricho de seus moradores. Temos visto isso aqui, por onde andamos. Cada cidade que chegamos, é visível a preocupação de cada um em deixar a cidade mais e mais bonita. O que mais nos chama a atenção, é a paixão pelas flores. Qualquer cantinho na janela, no degrau que leva à porta principal, na parede lateral, é lugar para colocar um vaso de flores. Andando pelas ruas de Florença, de Arezzo, de Siena, do conjunto de Cinqueterre, vamos observando esse cuidado, esse bom gosto, sem contar o cheirinho bom que muitas delas exalam. Não é questão de riqueza. As flores não custam caro e algumas nascem, como se diz no Brasil, “que nem mato”. Dá gosto ver e é impossível não fotografar. Ah, fiorentino, se todos fossem iguais a você… Veja alguns flagrantes que colhemos.

[fotos Alberto Villas]

 

TURISTAS

Turistas estão por todas as partes ao mesmo tempo agora. Tem gente que se irrita com eles, eu não. Me divirto. Turistas gostam de cartões-postais ao vivo. A Torre Eiffel, a Notre Dame, o Duomo, o Coliseu, o Monte Fuji, o Palácio de Buckingham, a Casa Rosada, o Taj Mahal, o Cristo Redentor. Turistas gostam de souvenir. Compram a miniatura da Torre Eiffel em Paris, um copo com o rosto da Rainha Elizabeth em Londres, um imã de geladeira com o beijo de Klimt em Viena. Comem paelha em Madri, sushi no Tóquio, pizza em Roma, pastéis de Belém no bairro de Belém, em Lisboa, comem  goulasch em Praga, estrogonofe em Moscou, feijoada com caipirinha no Brasil. Turista que é turista não perde o show de cancan no Lido, uma noite de tango no Tango, uma noitada de samba na Mangueira. Adoro os turistas. Eles às vezes ficam perdidos nas ruas, antigamente com um enorme mapa de papel, olhando pra lá e para cá, tentando achar o nome da rua em que estão nas esquinas da vida. Agora, movimentam seus smartphones tentando localizar se a indicação do Google Maps está apontando pro Norte, pro  sul, pro           Leste ou pro Oeste. Antigamente andavam com câmeras no pescoço, hoje simplificaram, só tiram fotos com celular. Turista gosta de entrar na H&M, na Uniqlo, no El Corte Inglês, na Harrods, na GAP, na KaDeWe, nas Galerias Lafayette e Preciados. Turista consulta o menu na porta dos restaurantes e sempre acha tudo muito caro. Escolhem, escolhem, escolhem e muitas vezes acabam no steak com fritas. Turista está sempre atento para não perder de vista a bandeirinha do guia no meio da multidão, para não perder aquele click da janela do avião, o horário do café da manhã no hotel. Agora turista que é turista – e eu adoro – é aquele que chega em Pisa e vai logo fazer aquela foto, tentando o ângulo perfeito para parecer que está segurando a torre torta.

[fotos Alberto Villas]

OLHA O TREM!

Quem vem para a Europa, logo logo se apaixona pelo trem. A paixão nasce quando percebe que é possível percorrer todo o Continente sem aquela chateação de pedágio, barranco que despencou ou um  engarrafamento infernal. É tudo muito preciso. Sabemos que vamos sair de Florença às 07h10 e chegar em Bolonha às 08h21. Viajar de trem é uma delícia e as viagens mais longas são melhores ainda, quando podemos ir até o vagão restaurante comer um croque monsieur quentinho, acompanhado de uma Kronnebourg bem geladinha. As paisagens lá fora, muitas vezes não são somente aquelas que mostram as revistas de turismo. Passamos por muitos túneis e uma paisagem monótona de quintais de casas, paisagens comuns de hortas e galinhas ciscando. Mas, de repente pode vir uma florada de lavanda quando estamos na Toscana ou uma pintura de tulipas quando estamos atravessando os Países Baixos. As estações de trem são um espetáculo à parte. Das pequenas, que lembram a de Cataguases com o trem da Leopoldina chegando, às mais sofisticadas, enormes, clássicas, monumentais como a de Milão, por exemplo. Toda estação tem um spresso delicioso, um sonho na vitrine que nunca acaba, uma super banca vendendo jornais e revistas do mundo. Quando vier pra Europa, pense no trem, sempre. E boa viagem!

[foto Alberto Villas]

CINCO HISTORINHAS

No início dos anos 1970, comecei a me apaixonar pelos gênios da pintura – Renoir, Monet, Cèsane, Sisley, Klimt, Goya e tantos outros – quando vi nas bancas de jornais da minha Belo Horizonte, o primeiro fascículo de uma coleção que levava exatamente o nome de Gênios da Pintura. Não tinha dinheiro para comprar aquela coleção luxuosa lançada pela Abril Cultural – NCr$2,50 por semana – mas acompanhei os mestres até o último número, o 96, folheando na banca de Seu Benito. Só vim a comprar a coleção completa muitos anos depois, num sebo, uma coleção praticamente nova. Cinquenta anos depois, andando pelas ruas de Lucca, embriagado com uma feira de antiguidades, trombei com vários números dos Gênios da Pintura, edição original da Fratelli Fabri. Me encantei com eles, como se tivesse folheando aquele primeiro número com o Van Gogh na capa, lá no bairro da Savassi, na minha Belo Horizonte, que hoje é apenas História.

Por todas as cidades onde andamos aqui na Itália, eles estão lá, nas ruas, cheio de penduricalhos, oferecendo seus produtos a cada pessoa que passa. São os africanos, que deixaram o continente, sabe Deus como, em busca de dias melhores por aqui. Vendem de tudo: Pau de selfie, capinhas para celulares, guarda-chuva quando está chovendo, carregadores de celulares, tomadas, pulserinhas, enfim, tudo que conseguem carregar no corpo. Inclusive um mico colorido, que quando a gente aperta a barriga, acende os olhos vermelhos e parece chorar. De dor.

Quando Caetano Veloso lançou o seu primeiro disco, aquele com a capa psicodélica, em 1968, fiquei espantado dele ter gravado, em meio a canções tropicalistas e ainda bossa-novistas, uma música em latim – Ave Maria – cuja letra não era dele e sim a de um cântico religioso. Nesse fim de semana, admirando uma Igreja na cidade de Lucca, dei de cara com o tal cântico, tal e qual Caetano cantava, com uma voz melancólica, naquele seu primeiro disco solo, tão revolucionário e tropicalista. Cantei baixinho e segui o meu caminho.

A street art está espalhada pelas paredes de todas as cidades italianas. Por onde vamos, encontramos grafites maravilhosos e muitas vezes misteriosos, enigmáticos. Mas, além dessa arte de rua que tomou conta das grandes e pequenas cidades no mundo, encontramos também uma forte marca da política. A foice e o martelo, por exemplo, símbolo do comunismo, resiste bravamente em muitos muros espalhados por ai. Seja em Florença, Pisa, Siena, Lucca ou Bolonha.

Durante a minha vida de jovem, havia sempre um cachorro em casa. Lembro-me bem até hoje o nome de cada um deles: Joli, Tupi, Pink e Fly. Hoje não tenho um, a vida não me permite, mas continuo gostando muito de cachorro, observando suas atitudes, sua inteligência, andando pelas ruas. Sempre que posso, fotografo um, como esse, que jogou o corpo no chão frio da estação central de Lucca, para refrescar do calor da cidade. Só se levantou quando o seu dono foi caminhando em direção ao trem.

[fotos Alberto Villas]

AMÉLIE POULAIN

Gosto dos pequenos detalhes da vida, coisas miúdas que acontecem, às vezes sem muita importância mas que guardam uma história por detrás. Sofro de uma leve síndrome de Amélie Poulain. Gosto de ir a sebos e ler as dedicatórias dos livros que estão ali à venda. Qual o motivo de alguém se desfazer de um livro com dedicatória? E os bilhetes que às vezes encontro dentro deles? Um dia, encontrei um boleto sem pagar, de 1980. Será que foi pago um dia? Fico curioso quando acho, dentro de um carrinho de supermercado, uma lista de compras deixada ali. Gosto de saber o que as pessoas compram, o que estava faltando na casa daquela pessoa invisível. Outro dia, andando por Florença, vi na calçada a fotografia de uma moça morena, com os cabelos negros lisos, achei até que era minha amiga Ananda Apple. Mas, olhando bem, vi que não era. A moça tirou, numa máquina automática, pelo que tudo indica, uma fotografia para sua carteira de identidade. Duas, aliás. Usou uma e a outra ficou ali jogada na calçada. Não sei se caiu das suas mãos ou simplesmente jogou fora, quis se desfazer da outra, já que a gente sempre acha que não está bem na foto. Ficou o mistério.

[foto Alberto Villas]

A HORA DO CLICK

Gosto de fotografar, não é de hoje. Comecei a fotografar ainda jovem, cabeludo, os flagrantes da vida. Por exemplo, uma viagem na caçamba de um caminhão, de carona rumo ao carnaval de Salvador. Fotos ainda com filme Kodak em preto e branco que, infelizmente se perderam com o tempo. Hoje temos o blog, o face, fotos automáticas que não precisam passar cinco dias úteis numa loja de revelação. Minhas filhas e meu filho vivem dizendo que posto muito, sim posto muito. Gosto de mostrar pequenos detalhes importantes de todos nós. Até mesmo as curiosas beringelas de Bangladesh no Mercado Centrale de Firenze já mostrei pra vocês. Mas o que chega até a casa de cada um é, muitas vezes, um trabalho de observação e sorte. Tem mais de um mês e meio que estou em Florença tentando fotografar – e direito – os ônibus escolares da cidade, que passam com seus alunos em algazarra, dando tchao pra gente. E não consigo. São lindos, amarelos, antigos, que me fazem lembrar aqueles velhos ônibus americanos que às vezes ainda aparecem na Sessão da Tarde. Nunca peguei um parado para que pudesse me concentrar e fazer a foto que gosto de fazer. Quando vejo, ele já passou. Fico, então, devendo essa foto. Acho que até o fim de nossa estadia por aqui, eu consigo. Deixo hoje apenas um dos flagrantes que não consegui fazer. O ônibus passando e eu ali, meio perdido na calçada, decepcionado, em busca do click perfeito.

[foto Alberto Villas]

DONA LUIZA

Nunca soube muita coisa sobre a minha avó paterna. Sabia que era uma italiana bonita, dessas de parar o trânsito de Verona, onde nasceu. Nunca tinha visto uma foto dela e a imaginava branquinha, com os cabelos claros e ondulados e os olhos verdes como os dos netos. Minha avó só existia no meu imaginário de menino.

Um dia fui a Verona, já fazem alguns anos. Fui pra conhecer a cidade da minha vó, Dona Luiza. Não procurei muito, mas também não encontrei nenhum vestígio da família. Na verdade, vi uma loja de bricolagem, a Bouzada miudezas. Era domingo e a lojinha estava fechada. Bouçada era o sobrenome do meu avô José e eu fiquei encucado se ele não teria trocado o nome ao chegar no Brasil, no início do século passado, de Bouzada para Bouçada.

Sabia que minha avó tinha morrido muito jovem – meu pai era criança – de uma doença que não havia remédio em toda a medicina. Certamente um câncer, desses fulminantes

O meu pai lembrava todo ano, religiosamente, o dia em que ela nasceu e o dia em que ela morreu. Logo cedo, na hora do café, ele pegava sua caderneta de capa dura, preta, e dizia pra toda a família:

– Mamãe hoje estaria fazendo 122 anos!

No dia de sua morte, ele fazia questão, com um semblante triste, de anunciar para todos nós:

– Rezem pela sua avó Luiza! Hoje está fazendo 50 anos que ela nos deixou.

Fiz questão de curtir todos os cantos de Verona naquela primavera em que lá estive. Fomos na Arena, na Casa de Julieta, na Torre dei Lamberti, na Basílica de Santa Anastácia e na Ponte Pietra. Fomos também no Castelvecchio, na Piazza Erbe, na charmosa rua Mazzini, na Piazza dei Signori e, claro, no Duomo.

Parava, fotografava e ficava imaginando Dona Luiza andando por aquelas ruas, aquelas ruelas, com um vestido rodado, anágua engomada, corpete apertado, seios fartos e sorriso largo. Ela devia ser assim, muito vistosa e muito respeitada pelos moradores de Verona. Era a mulher do velho Bouçada, muitos anos mais velho que ela. Dona Luiza, e seus seis filhos.

Aquele passeio por Verona foi como um filme antigo, em preto e branco, onde os homens andam correndo, todos de chapéu e guarda-chuva nas mãos, e as mulheres atrás, com seus vestidos rodados e suas anáguas engomadas.

Olhava, olhava e imaginava minha avó entrando num mercadinho e comprando enormes alcachofras, tomates vermelhos e saborosos, pêssegos carnudos, uvas moscatel, figos vistosos e frutas secas, tâmaras principalmente. Deve ter sido herança dela o gosto do meu pai por essas guloseimas.

Estou morando a cento e poucos quilômetros da cidade onde minha avó nasceu e passou um tempo da sua vida. Fico imaginando se naquela época já havia, em Verona, esses sorvetes maravilhosos que têm por aqui em Florença. Sorvetes de pistache, de coco, de limão, de leite com caramelo.

Fico imaginando se já havia o melhor spresso do mundo, curto e tão saboroso. Fico imaginando se no seu tempo já havia a pizza quadrada, os canoles, o Aperol, a San Pelegrino de l’aranciata amara ou se ela fazia laranjada com as próprias mãos, com a fruta colhida do pé que havia na sua casa.

Foi ontem à noite que minha irmã mais velha, longe daqui onze mil quilômetros, mandou pelo WhatsApp, a única foto que existe de Dona Luiza. A foto foi tirada de um pingente de prata e está meio apagada pelo tempo, um tempo que não volta mais mas que tento recuperar numa simples crônica.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

VIZINHOS

Na minha infância, morei numa pacata rua do bairro do Carmo, em Belo Horizonte. A indústria automobilística engatinhava e os poucos carros – todos pretos – que passavam na Rio Verde, nos permitia até mesmo jogar bola, brincar de bolinha de gude, finca e bente altas, sem risco de atropelamento. Haviam apenas casas e família naquela rua e, até hoje, sei o nome e sobrenome de cada morador daqueles anos 1950, 1960. Nilo Otávio Lage Botelho, Luiz Martins, Rui Demétrio Amorim, Paulo Gouvêa e Asplênio Alvares da Silveira, por exemplo. Hoje, moro na pacata Via San Niccolò, em Florença. Quase tão pacata quanto aquela rua onde passei minha infância, em Minas Gerais. Conheço pouco meus vizinhos. Eles passam por mim nas enormes escadas desse antigo convento construído nos anos 1300 e hoje transformado num Palazzo (não é chique o nome?) e dizem buongiorno, sempre. Da janela, vejo uma jovem toda de branco fazendo selfies no jardim, um casal tomando uma taça de vino rosso numa mesinha branca de ferro. Da minha janela, um casal passa todo final de tarde na varanda conversando. Às vezes ele lê o seu e-book e ela, um livro de papel. Da janela, vejo um avô chegando com sua netinha e fazendo todos os desejos dela, inclusive jogar pra lá e pra cá um pesado ferro que tem em quase todas as portas dos edifícios em Florença. Ela faz um barulho danado e ele não se importa, se diverte. São os mesmo avós que moram hoje nessa cidade toscana e que moravam, nos anos 1950, 1960 na Rio Verde, e que permitiam a pelada no meio da rua, que nem tinha trave, eram dois tijolos, roubados de uma obra no bairro do Carmo, de uma vida em construção.

[fotos Alberto Villas]

IL MERCATO CENTRALE

Nasci numa cidade onde tem um dos mercados mais simpáticos do mundo, o Mercado Central de Belo Horizonte. Frequento, desde pequenininho, quando ia com o meu pai para comprar alpiste para os passarinhos, ração para galinha poedeira e pintinhos de um dia. Por isso, sou viciado em mercados. Por onde ando, onde chego, sempre vou atrás do mercado da cidade. Hoje, passamos a manhã no Mercado Centrale di Firenze. A fachada é magnífica e algumas coisas que vi lá dentro, cliquei para vocês.

Dá só uma espiadinha…

Cogumelos da Toscana

Tâmaras do Irã

Peixe fresco

Abobrinhas com flor

Beringelas de Bangladesh

Abacaxis da Costa do Marfim

Pimenta seca

E chuchus do Brasil, embrulhinhos um a um

[fotos Alberto Villas]

A FOICE E O MARTELO

Um dos grandes prazeres que tenho aqui em Florença, é caminhar pelas ruas e pelas ruelas da cidade e encontrar as livrarias. Grandes, pequenas, charmosas, muitas com o melhor café do mundo  ou comidinhas transadas deliciosas. Sou rato de livrarias e aqui, o prazer maior é entrar, sentir o cheiro, dar de cara com a simpatia dos donos e ir fuçando aqui e ali, descobrindo autores e folheando as novidades. Muitas delas são uma mistura de livrarias e sebos, com uma boa parte reservada aos livros usados, onde encontramos verdadeiras preciosidades. Essa semana, na seção de novidades, bati os olhos num livro, daqueles que a gente não resiste.

Em comemoração aos cem anos da Revolução Russa, festejados em outubro do ano passado, a Editora Centauria lançou La Storia del Comunismo, com pequenos perfis de comunistas históricos, alguns que não aparecem nos livros de História como comunistas de carteirinha, no sentido estrito da palavra. As ilustrações de Ivan Canu dão um charme especial ao livro que tem uma edição primorosa, marca registrada das editoras italianas. Reproduzo algumas abaixo.

Víctor Jara

Pier Paolo Pasolini

Yuri Gagarin

Pablo Neruda

Louis Aragon

Pablo Picasso

Patrice Lumumba

[fotos Reprodução]

 

 

GOL DE PLACA

Finalmente conhecemos o artista francês Clet Abraham, o jovem que faz intervenções nas placas de Florença, trazendo o ar da graça e da irreverência à cidade. Lá estava ele quietinho no seu canto em seu ateliê, no bairro de San Niccolò, coincidentemente o bairro onde moramos. O clique deste blogueiro com o artista foi feito pela jornalista Annamaria Marchesini, que também fez um texto superbacana mostrando quem é Clet Abraham. Confira em: https://medium.com/@anna.marchesini/sinais-de-arte-rebeldia-e-ironia-e3d93ef10376)

Depois, veja as fotos das placas que fiz, aqui em Florença.

[fotos das placas/Alberto Villas]

 

NAS RUAS DE AREZZO

Num sábado em Arezzo, uma hora e pouco de trem de Firenze, flagrei algumas pessoas na cidade.

Pessoas na estação, comprando bilhetes de trem.

Uma italianinha comendo lascas de pizza, nas primeiras horas da manhã.

Amigos comemorando um casamento num bar, como se fosse uma cena do cinema italiano dos anos 1960.

Uma senhora com a mão na massa, na porta de uma pizzaria.

Dois turistas, cansados de guerra, sentados numa escadaria.

Aposentados conversando numa pracinha da cidade.

Dois modernetes à caminho da Igreja, onde se realizava um casamento.

Um homem escolhe flores numa lojinha, entre as dezenas espalhadas pela cidade, nessa primavera de 2018.

[fotos Alberto Villas]