MAIO 2108

Cinquenta anos depois, subi o Boulevard Saint Michel para ver de perto, a minha Sorbonne. Aquela que, em 1968, num mês de maio, foi palco de uma das maiores revoluções de que se tem notícia. Chegando na esquina da praça, uma surpresa. A livraria Presses Universitaires, onde comprava os livrinhos da série Que Sais-je? virou uma loja de roupas. Eu já sabia disso, apenas constatei e tive uma surpresa novamente. Virei, olhei de frente para o prédio e vi, de costas, um homem sentado, como se fosse o pensador, de Rodin. De costas, a visão era essa. Era um dia bonito de domingo e a praça estava vazia de estudantes. Apenas algumas pessoas sentadas nas mesinhas dos cafés, na calçada, tomavam suas Kronnebourgs, suas Pelforts, ou simplesmente uma água Perrier borbulhante, com uma fatia de limão siciliano dentro, fazendo uma pequena revolução dentro do copo. Nas paredes, onde outrora as pichações diziam que era proibido proibir ou que a luta continuaria, nenhum escrito. Paredes limpas limpas. O homem continuava lá e eu me perguntava que reflexões estaria ele fazendo, sentado ali, virado de frente pra universidade que, cinquenta anos atrás, espalhou suas ideias socialistas e sacudiu o mundo. Fui caminhando lentamente, fotografei porque não poderia deixar de fotografar aquele homem de branco, o pensador dos tempos modernos, sentado ali. Caminhei, caminhei e finalmente pude vê-lo de frente e de perto. Ele estava, na verdade,  enviando uma mensagem pelo seu smartphone.

[foto Alberto Villas]

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