AS TORNEIRAS

Sou uma pessoa caminhando para os setenta anos, que se adaptou razoavelmente bem aos tempos modernos. Já não tomo mais Cremogema, já não chupo mais drops Dulcora, já não escovo mais os dentes com Kollynos, sequer uso o terno da Ducal.

Não coleciono flâmulas, não ando de Gordini, não assisto O Vigilante Rodoviário, nem fico mais procurando o botão de horizontal na TV Colorado RQ.

Aos poucos, fui trocando os meus vinis por cds, o meu telefone fixo por um celular Gradiente, instalei um fax em casa e adorava aqueles laserdisc.

Mas tudo ia mudando tão rapidamente que, de repente, quando vi, já tinha mais de vinte senhas, dez mil fotos no iPhone, trinta canais de TV no aparelho Sony e estava ouvindo Caetano no Spotify.

Quando percebi que o mundo não tinha mais volta, mergulhei de cabeça nos aplicativos, passei a comprar e-books pela Internet, abandonei a agenda de papel e passei a pedir táxi pelo 99.

Quando abri os olhos, já não ia mais ao armazém comprar fiado, nem mesmo na agência da Varig pra comprar uma passagem de avião. De repente, parei de imprimir os e-mails e passei a comprar entrada pro cinema no Ingresso Rápido.

Mas hoje estou aqui para fazer uma queixa formal aos fabricantes de torneiras modernas. Tem uns cinco anos que elas vêm me perseguindo. Já entro num banheiro público, meio em pânico porque sei que vou encontrar algo bizarro por ali, no lugar da torneira.

Naquele ambiente, localizo a pia e fico procurando a torneira, cada vez menos com cara de torneira. Não sei se sou apenas eu, mas se aperto, não funciona, se puxo não funciona, se torço, também não funciona. Aí espicho os olhos pro vizinho e ele já está sempre com a torneira aberta, colocando sabão líquido vindo de uma maquininha e que eu já tinha apertado, na tentativa de sair água.

O vizinho vira as costas e, como num toque de mágica, a água simplesmente para de sair. Imagino que alguma célula que tem por ali, não sei onde, faz a água parar assim que ele se distancia.

Tenho encontrado as torneiras mais esquisitas do mundo por ai. Redondas, que giram 360 graus, que vão pro lado, que possuem umas mangueiras, que se deslocam, mas, para mim, o problema maior é que elas não saem água.

Outro dia, na tentativa de pelo menos dar uma molhadinha na mão, corri para aproveitar a água do vizinho, que saiu apressado do banheiro do aeroporto. Foi só colocar a mão debaixo da torneira, ela parou de sair água.

Na semana passada, pela primeira vez entrei num banheiro público, onde todos estavam tranquilamente lavando suas mãos numa pia onde não se via a torneira. Era uma espécie de cachoeira que ia caindo água, mas foi só eu chegar perto, ela secou.

Mas o pior de tudo aconteceu essa semana, em Paris, onde estou passando uns dias. Alugamos um apartamento pelo Airbnb no 19ème arrondissement, mas quando fui tomar banho, que susto!

Ao invés de uma torneira, encontrei um tubo. Sim, um tubo que gira pra esquerda, pra direita, pra cima e pra baixo, como se fosse uma mola. Na minha primeira tentativa de virar aquela geringonça, uma tempestade saiu do chuveirinho, que estava voltado para o teto, provocando uma inundação naquele banheiro tão bonitinho.

Virei pro outro lado e um jato de água gelada veio na minha cara e quando virei pro outro, ela ferveu. Resumindo, passei uns bons quinze minutos ali tentando fazer sair água temperada do chuveiro e apenas tomar um banho. Foi um banho rapidinho – quente-frio-morno, molhado e seco – inesquecível.

Enxugando o corpo, eu ficava só perguntando pros botões do meu pijama, ali em cima de um banquinho branco. Por que cargas d’água, alguém foi inventar um monstrengo como esse? Fui dormir, torcendo pra sonhar com duas torneiras simples, uma com uma rosquinha de plástico vermelha, a da água quente, e outra com uma rosquinha de plástico azul, a da água fria. O mundo com essas duas torneiras era tão mais fácil.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

 

Um comentário em “AS TORNEIRAS

  1. Que maravilha de crônica! Achei uma delícia o texto e me identifiquei com os fatos, pois tenho o mesmo problema com as torneiras “modernérrimas”; acredito que foram inventadas para que economizemos água.

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