DONA LUIZA

Nunca soube muita coisa sobre a minha avó paterna. Sabia que era uma italiana bonita, dessas de parar o trânsito de Verona, onde nasceu. Nunca tinha visto uma foto dela e a imaginava branquinha, com os cabelos claros e ondulados e os olhos verdes como os dos netos. Minha avó só existia no meu imaginário de menino.

Um dia fui a Verona, já fazem alguns anos. Fui pra conhecer a cidade da minha vó, Dona Luiza. Não procurei muito, mas também não encontrei nenhum vestígio da família. Na verdade, vi uma loja de bricolagem, a Bouzada miudezas. Era domingo e a lojinha estava fechada. Bouçada era o sobrenome do meu avô José e eu fiquei encucado se ele não teria trocado o nome ao chegar no Brasil, no início do século passado, de Bouzada para Bouçada.

Sabia que minha avó tinha morrido muito jovem – meu pai era criança – de uma doença que não havia remédio em toda a medicina. Certamente um câncer, desses fulminantes

O meu pai lembrava todo ano, religiosamente, o dia em que ela nasceu e o dia em que ela morreu. Logo cedo, na hora do café, ele pegava sua caderneta de capa dura, preta, e dizia pra toda a família:

– Mamãe hoje estaria fazendo 122 anos!

No dia de sua morte, ele fazia questão, com um semblante triste, de anunciar para todos nós:

– Rezem pela sua avó Luiza! Hoje está fazendo 50 anos que ela nos deixou.

Fiz questão de curtir todos os cantos de Verona naquela primavera em que lá estive. Fomos na Arena, na Casa de Julieta, na Torre dei Lamberti, na Basílica de Santa Anastácia e na Ponte Pietra. Fomos também no Castelvecchio, na Piazza Erbe, na charmosa rua Mazzini, na Piazza dei Signori e, claro, no Duomo.

Parava, fotografava e ficava imaginando Dona Luiza andando por aquelas ruas, aquelas ruelas, com um vestido rodado, anágua engomada, corpete apertado, seios fartos e sorriso largo. Ela devia ser assim, muito vistosa e muito respeitada pelos moradores de Verona. Era a mulher do velho Bouçada, muitos anos mais velho que ela. Dona Luiza, e seus seis filhos.

Aquele passeio por Verona foi como um filme antigo, em preto e branco, onde os homens andam correndo, todos de chapéu e guarda-chuva nas mãos, e as mulheres atrás, com seus vestidos rodados e suas anáguas engomadas.

Olhava, olhava e imaginava minha avó entrando num mercadinho e comprando enormes alcachofras, tomates vermelhos e saborosos, pêssegos carnudos, uvas moscatel, figos vistosos e frutas secas, tâmaras principalmente. Deve ter sido herança dela o gosto do meu pai por essas guloseimas.

Estou morando a cento e poucos quilômetros da cidade onde minha avó nasceu e passou um tempo da sua vida. Fico imaginando se naquela época já havia, em Verona, esses sorvetes maravilhosos que têm por aqui em Florença. Sorvetes de pistache, de coco, de limão, de leite com caramelo.

Fico imaginando se já havia o melhor spresso do mundo, curto e tão saboroso. Fico imaginando se no seu tempo já havia a pizza quadrada, os canoles, o Aperol, a San Pelegrino de l’aranciata amara ou se ela fazia laranjada com as próprias mãos, com a fruta colhida do pé que havia na sua casa.

Foi ontem à noite que minha irmã mais velha, longe daqui onze mil quilômetros, mandou pelo WhatsApp, a única foto que existe de Dona Luiza. A foto foi tirada de um pingente de prata e está meio apagada pelo tempo, um tempo que não volta mais mas que tento recuperar numa simples crônica.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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