CINCO HISTORINHAS

No início dos anos 1970, comecei a me apaixonar pelos gênios da pintura – Renoir, Monet, Cèsane, Sisley, Klimt, Goya e tantos outros – quando vi nas bancas de jornais da minha Belo Horizonte, o primeiro fascículo de uma coleção que levava exatamente o nome de Gênios da Pintura. Não tinha dinheiro para comprar aquela coleção luxuosa lançada pela Abril Cultural – NCr$2,50 por semana – mas acompanhei os mestres até o último número, o 96, folheando na banca de Seu Benito. Só vim a comprar a coleção completa muitos anos depois, num sebo, uma coleção praticamente nova. Cinquenta anos depois, andando pelas ruas de Lucca, embriagado com uma feira de antiguidades, trombei com vários números dos Gênios da Pintura, edição original da Fratelli Fabri. Me encantei com eles, como se tivesse folheando aquele primeiro número com o Van Gogh na capa, lá no bairro da Savassi, na minha Belo Horizonte, que hoje é apenas História.

Por todas as cidades onde andamos aqui na Itália, eles estão lá, nas ruas, cheio de penduricalhos, oferecendo seus produtos a cada pessoa que passa. São os africanos, que deixaram o continente, sabe Deus como, em busca de dias melhores por aqui. Vendem de tudo: Pau de selfie, capinhas para celulares, guarda-chuva quando está chovendo, carregadores de celulares, tomadas, pulserinhas, enfim, tudo que conseguem carregar no corpo. Inclusive um mico colorido, que quando a gente aperta a barriga, acende os olhos vermelhos e parece chorar. De dor.

Quando Caetano Veloso lançou o seu primeiro disco, aquele com a capa psicodélica, em 1968, fiquei espantado dele ter gravado, em meio a canções tropicalistas e ainda bossa-novistas, uma música em latim – Ave Maria – cuja letra não era dele e sim a de um cântico religioso. Nesse fim de semana, admirando uma Igreja na cidade de Lucca, dei de cara com o tal cântico, tal e qual Caetano cantava, com uma voz melancólica, naquele seu primeiro disco solo, tão revolucionário e tropicalista. Cantei baixinho e segui o meu caminho.

A street art está espalhada pelas paredes de todas as cidades italianas. Por onde vamos, encontramos grafites maravilhosos e muitas vezes misteriosos, enigmáticos. Mas, além dessa arte de rua que tomou conta das grandes e pequenas cidades no mundo, encontramos também uma forte marca da política. A foice e o martelo, por exemplo, símbolo do comunismo, resiste bravamente em muitos muros espalhados por ai. Seja em Florença, Pisa, Siena, Lucca ou Bolonha.

Durante a minha vida de jovem, havia sempre um cachorro em casa. Lembro-me bem até hoje o nome de cada um deles: Joli, Tupi, Pink e Fly. Hoje não tenho um, a vida não me permite, mas continuo gostando muito de cachorro, observando suas atitudes, sua inteligência, andando pelas ruas. Sempre que posso, fotografo um, como esse, que jogou o corpo no chão frio da estação central de Lucca, para refrescar do calor da cidade. Só se levantou quando o seu dono foi caminhando em direção ao trem.

[fotos Alberto Villas]

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