MINHA ADORÁVEL METEOROLOGISTA

O meu pai era meteorologista e já falei dele aqui. Mas não era simplesmente um meteorologista. Era um apaixonado pelo tempo, um fanático pelas nuvens no céu. Bastava uma despontar, por mais passageira que fosse, ele fazia uma palestra sobre os seus movimentos e a possibilidade de um toró cair sobre nossas cabeças.

No Mercado Central de Belo Horizonte, seu apelido era Manda-Chuva. Domingo de manhã, ele ia passando de barraca em barraca e todos queriam saber a previsão do tempo, se ia esfriar, se ia esquentar, se ia cair água bem na hora do jogo entre o Galo e a Raposa.

Quando os termômetros oscilavam demais, lá estava ele na tela da TV Globo, explicando o que se passava para os telespectadores que o conheciam por Doutor Bouçada, o nome que ele levava depois do Villas.

Mostrava, com o maior prazer, como funcionava cada aparelho da sua Estação Meteorológica. O barômetro, o pluviômetro, o higrômetro e o altímetro. Explicava tudo, como um professor.

Era uma época em que não havia computador para mostrar pra gente aquela nuvem fria se deslocando da Argentina e vindo pra cima do Brasil, como acontece hoje. Hoje, temos tempo de tirar do fundo do baú aquele casaco de lã, quando se anuncia que o frio vem aí.

Era uma época em que o Serviço de Meteorologia errava muito e o meu pai levava pra casa, com bom humor, as piadas que contavam pra ele, ou as chacotas no dia seguinte, chovendo, e ele anunciara sol à pino.

Há mais ou menos uns vinte e tantos anos, eu tenho uma personal meteorologista dentro de casa, a minha mulher que, apesar de não ter uma gota de sangue do meu pai, é definitivamente sua herdeira.

Começou quando nossas filhas foram pra escola pela primeira vez. O princípio de tudo foi o Grão de Chão, depois passou pro Ibeji, seguiu no Colégio Equipe, até chegar a Universidade.

À noite, antes de preparar a roupinha delas irem pra maternal, a Paulinha consultava o tempo. Vai fazer frio, calor, chover, o que aconteceria no dia seguinte? Assim, ela separava a blusinha de frio ou o short, dependendo do tempo que anunciava.

Com o tempo, as meninas sacaram que ela era a nossa manda-chuva e assim que acordavam já queriam saber com precisão, o tempo lá fora.

– Vai fazer frio, mãe?

E ela respondia na lata, porque já sabia na ponta da língua o tempo que faria, inclusive que havia 60% de possiblidade de chuva a partir das 11 da manhã. As meninas passaram a confiar piamente nela e na sua previsão. O acerto era de quase cem por cento, já que nesses novos tempos, não há muito erro.

Hoje, ninguém da família Villas não sai de casa sem antes consultar a Paulinha. Mesmo que a gente não pergunte, ela anuncia:

– Gente, domingo vai esfriar.

– Gente, leva guarda-chuva porque vai chover.

– Gente, leva biquíni pra praia porque pode esquentar.

A Paulinha – acredito eu – é a única pessoa que pede silêncio na sala na hora do Jornal Nacional, quando a Maju Coutinho aparece na tela. Não apenas porque ela é nossa amiga, ela quer saber todos os detalhes e, pelos seus olhinhos, fica feliz de saber até que a temperatura média na cidade de Santa Rita do Sapucaí, amanhã, será de 32 graus.

Além dos dados, ela adora a Maju. Nos dias de conjuntivite da apresentadora do tempo, ela ficava visivelmente contrariada, achando que o tempo com outra apresentadora estava meio sem graça.

Estamos vivendo em Florença e o seu interesse pela meteorologia continua aguçado. Agora, além do tempo em São Paulo, onde vivem as nossas meninas, ela se interessa pela temperatura na região da Toscana. Vai chover? Vai fazer sol? Vai esquentar? Vai esfriar? É só perguntar pra ela.

Mas aqui, tem uma novidade que quero contar pra vocês. Além de se interessar pela previsão do tempo, ela começou a se interessar também pelo nível de água do Rio Arno, que passa aqui perto da nossa casa. Todo dia quando saímos, na ponte, ela faz uma análise detalhada.

Está mais alto!

Baixou quase um metro!

A água está mais turva!

Hoje ele não está tão caudaloso!

Olha que beleza a correnteza, é só chover um pouco que a coisa muda!

Mas essa paixão dela pelo Rio Arno, eu conto em outra hora. Temos tempo.

[Crônica publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

[foto Alberto Villas]

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