UMA PAUTA NO AR

Quase dois anos se passaram e eu ainda sonho com ele de tempos em tempos. Talvez por estar aqui, mais perto de Londres, sonho constantemente. Ele sempre aparece com o seu paletó de gabardine, que chamávamos de paletó do milênio.

Geneton Moraes Neto era um jornalista sem vaidade, andava de calça Lee, tênis Conga sem meia e camiseta. Quando era chamado para fazer uma entrevista no programa Milênio, da GloboNews, passava a mão naquele paletó de gabardine dependurado numa parede da redação e subia as escadas, crente que havia se transformado num cavalheiro de fina estampa.

Sonho com ele talvez porque deixamos dois sonhos inacabados.

Toda semana que ia ao Rio de Janeiro, nosso jantar no Restaurante À Mineira, em Botafogo, era sagrado. Pernambucano que jamais perdera o sotaque do Recife mesmo depois de tantos anos na cidade da Rainha Elizabeth e outros tantos na outrora Cidade Maravilhosa, Geneton gostava de um franguinho com feijão e angu e, de sobremesa, uma colherada de doce de leite. Sua Coca-Cola gelada, sem cubos de gelo e sem limão, também era sagrada.

Nosso primeiro sonho apenas engatinhava quando o seu coração parou. Uma semana antes de partir, combinamos um encontro no restaurante, assim que saísse do hospital. Nosso primeiro sonho era colocar no papel as ideias que tínhamos de criar um Memorial da Imprensa.

Sim, nossa geração ainda colocava no papel as ideias. E o papel que falo é um velho caderno que ele tinha, hábito de repórter, onde anotava sua agenda, as suas e as nossas ideias, que andavam sempre lado à lado, desde o tempo em que trabalhávamos no outrora show da vida.

Geneton tinha um arquivo precioso e disputávamos juntos quem tinha a maior preciosidade. Ele considerava que era o exemplar número 1 da revista Tudo com Assis Chateaubriand vestido de cangaceiro na capa, que eu conseguira num sebo perdido no centro de São Paulo, não me lembro mais como, lá pelos anos 1980. Para mim, a moeda número 1 do Tio Patinhas era do Geneton, o exemplar número zero, novinho em folha, da revista Realidade que, antes de partir ele, generoso que era, me deu de presente.

O nosso sonho era reunir todas essas preciosidades e fundar o Memorial da Imprensa. Sonho – ou grito, sei lá – que ficou parado no ar.

O segundo sonho era fazer um Globo Repórter com Caetano Veloso e Gilberto Gil, em Londres. Nossa pauta era levar os dois baianos à terra dos Beatles e refazer o caminho do exílio dos dois. Geneton, profissão repórter, acompanharia os dois no voo até a capital britânica, refazendo o percurso passo a passo, desde o dia em que foram expulsos do país até o dia que voltaram, sabe Deus como.

Nossa ideia era ir até o casarão onde moraram, andar pelo parque onde passeavam e ir ao estúdio onde gravaram os seus melancólicos discos ingleses. Mostrar onde fizeram shows, como viviam, o que comiam, o que faziam ali, tão longe do mar, mar da Bahia que um dia eles deixaram como se ter ido fosse necessário para voltar.

O nosso Globo Repórter seria recheado com imagens do filme O Demiurgo, uma porralouquice que Jorge Mautner fez lá, nos anos de chumbo aqui. Geneton tinha fotos e mais fotos dos dois baianos em Londres, um Gil barbudo e cabeludo, magrinho, macrobiótico, e um Caetano com aquela Juba de Leão enrolado num poncho peruano, deixando a impressão que sentia frio e solidão vinte e quatro horas por dia.

Pusemos a pauta no papel e Geneton ficou de apresentar a Silvia Sayão, a diretora do programa. Não sei se chegou a apresentar ou se a pauta acabou ficando na gaveta, como dizíamos.

Geneton era vaidade zero, mas a última foto que postou no Facebook foi esta que ilustra a crônica, do seu arquivo pessoal, feita creio eu no Uruguai, por alguém que nunca soube quem foi. Assim que postou, me mandou um inbox, era assim que chamávamos o messenger, com um recado curto e grosso: “Essa você vai gostar”.

A fotografia de Geneton ao lado de um Che Guevara no muro não é apenas um retrato na parede porque não revelamos mais. É apenas um clique na minha pasta de fotografias e como dói.

Acredito que aquele Che está ali ao lado porque seu sonho – e o meu – era terminar o Globo Repórter com Soy Loco por Ti américa, aquela canção que fala do nombre del hombre muerto/ya no se puede decirlo, quién sabe?

[Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital]

cartacapital.com.br

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