ARRUMANDO A MALA

Quando vou arrumar minha mala para viajar, toda vez é a mesma história. Um mês antes, começo a consultar, no smartphone, a temperatura do meu destino. É sempre assim: um dia chove, no outro dia bate sol. Às vezes o termômetro está marcando vinte graus, no dia seguinte, cinco. Aí começa a minha dúvida sobre o que colocar dentro da mala.

Dessa vez foi diferente. Estava sabendo que viria passar uma boa temporada por aqui e que não eram aquelas férias costumeiras de, no máximo, quinze dias. Comecei a consultar o termômetro no inverno e no dia de partir, já era uma primavera caminhando a passos largos pro verão. Mas, mesmo assim, em se tratando de Europa, sempre fico com um pé atrás. Vai que esfria!

Além das roupas de frio e de calor, fui enchendo a mala de coisas, de livros e mais livros porque sabia que parte da temporada seria na Grécia, onde ainda não sei dar bom dia. E olha que não pensei em trazer livros finos. O primeiro que escolhi foi o magistral Leonardo da Vinci – já que a primeira temporada seria em Florença -, de Walter Isaacson, com suas 634 páginas e quase um quilo.

Mas isso não era nada. Enfiei na mala roupas de calor, bem leves, e aquelas roupas de frio, bem pesadonas. A mala, de repente, foi virando um container. Aí veio aquela preocupação, sabendo que viajaria muito de trem e com a obrigação de carregar a bagagem até entrar no vagão. Mas, nessas horas, a gente pensa leve: Tem rodinhas, tudo bem!

Além do meu guarda roupa, trouxe muito material de pesquisa, e também pequenos objetos que não me deixam nunca. Sabendo que iria voar numa velocidade de quase mil quilômetros por hora em cima de oceanos, mares, rios, lagos, montanhas, vulcões e tudo mais que o Planeta Terra nos oferece, trouxe um olho turco e uma imagem de Nhá Chica, minha protetora. Mas, pensando bem, essas duas coisas não pesam quase nada.

Como se já não tivesse com muito peso e volume, a primeira coisa que comprei em Florença foi o livro 1968, de Oriana Fallaci, com suas 466 páginas. Vou comprando e sempre acho que tem um canto na mala que, apertando, cabe.

Espero que aprenda com essa viagem, porque quando fui organizar a bagagem para me transferir da Itália para a Grécia, foi que caiu a ficha. Fui colocando tudo em cima de uma cama king-size e quando vi, tinha na minha frente praticamente um Everest.

Comecei cuidadosamente a colocar tudo dentro da mala e a pensar com os meus botões:

Por que cargas d’água trouxe, além das blusas de frio, dezenove camisetas (inclusive uma com um Fora Temer), cinco calças compridas, nove bermudas, uma dúzia de cuecas, quatro shorts, três bonés e seis pares de meia? Das seis meias, usei apenas uma e as outras cinco estão ainda com aquele cheirinho de amaciante Fofo, lá do Brasil.

Trouxe duas blusas de frio e ainda bem que foram só duas. A Paulinha me pegou em flagrante colocando cinco dentro da mala e perguntou se estava ficando louco em levar cinco blusas pro verão grego. Três voltaram pro armário e hoje agradeço de coração a sua bronca.

Mas, verdade seja dita. Trouxe coisas muito úteis dentro da nécessaire. Um punhado de remédios que só compramos com receita médica, escova de dente, tesourinha de cortar unha, Band-Aid e cotonetes por exemplo. Tudo levinho.

Por que não deixei pra comprar xampu, condicionador, protetor solar e desodorante aqui? Vem sempre aquela dor de consciência: Pra que comprar um desodorante que custa 10 euros lá, se eu tenho o meu Dove novinho, comprado no Záfira? Agora, vexame foi trazer quatro sabonetes Phebo, que acreditava ainda ter cheiro. Três deixei em Florença, sem uso e sem cheiro.

O que mais me espantou quando coloquei tudo em cima da cama e vi o tamanho da mala onde tinha de enfiar tudo, foram algumas coisas inúteis.

Deus meu! Por que trouxe a minha carteira de idoso pra andar de graça nos ônibus de São Paulo? Pra que trouxe a minha carteirinha plastificada da Nota Fiscal Paulista? Pra que trouxe 70 reais em dinheiro vivo? E tem mais: Trouxe muita coisa que tenho certeza que não vou nem pegar porque tenho muita coisa pra ver e fotografar, um livro pra escrever, dois livros pra revisar, uma coleção pra coordenar, uma biografia para organizar.

O arrependimento vem quando vejo aquele calhamaço com 564 páginas contanto a história do Jornal do Brasil, que parece ser muito bom, mas sei que não vou ter tempo de ler nem a orelha. Tenho aqui comigo pesando quase três quilos, diversas revistas Geo, Magazine Littéraire, L’Histoire, Philosophie, Sens & Santé, sem contar as Linus que comprei num sebo em Bolonha.

Estou aqui me perguntando porque trouxe cinco canetas Pilot, um lápis, uma régua, três relógios de pulso e um tubo de cola Prit. Estou pensando seriamente em deixar meia bagagem por aqui, só pra poder levar pro Brasil as garrafinhas de San Pelegrino e as garrafinhas de Fanta grega que vão só aumentar a minha coleção.

Jurei não comprar nada por aqui e até que estou me contendo. O único peso de verdade é um livro que arrematei na Fnac Les Halles: Uma coleção completa e encadernada do jornal L’Enragé, de 1968. Doido, né?

Mas o que mais está me dando dor de cabeça são as tais dezenove camisetas e as nove bermudas porque, antes de deixar Florença, a Paulinha passou em frente a uma H&M e disse:

– Vamos lá comprar umas roupas pra você. As camisetas e as bermudas que você trouxe estão muito surradas.

Agora são vinte e cinco camisetas, doze bermudas e seis shorts.  Ainda bem que ela não pensou em comprar umas meias pra mim, porque só tinha pretas e ela odeia meia preta.

Por que trazer uma pilha de camisetas?
Crônica da semana publicada no site da revista Carta Capital
cartacapital.com.cbr
[foto Alberto Villas]

Um comentário em “ARRUMANDO A MALA

  1. Ah, acho que todo mundo é meio assim. Prá não ficar de consciência pesada, pega uma caixa de papelão em supermercado e envia as roupas que não vai usar de volta por correio. Em viagem só devíamos usar roupas descartáveis.
    Para os livros já lidos peça uma remessa bem segura.
    Porque mala é sempre… uma Mala!

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